Perguntaram-me como pode um economista de esquerda, em certos casos, defender a desregulação...
Recordo uma reunião ministerial da OMC, em 2005, com ruas fechadas à força de manifestações contra o livre comércio, membros de governos a serem transportados de barco para o local das respectivas reuniões e gabinetes de apoio reféns dos hall dos hotéis. À época, ainda que sem a crise como determinante, o debate era já estabelecido entre posições proteccionistas versus a fé no livre comércio enquanto promotor de crescimento e emprego. Estas manifestações, tendo já ocorrido antes, repetiram-se também em anos seguintes, contudo sem o mesmo nível de gravidade que pude testemunhar naquele ano.
Ora, diz-nos a teoria económica que esse livre comércio será de facto promotor de maior crescimento e riqueza, tanto mais quando considerado à escala global. É na questão da repartição de ganhos que a divisão de posições se estabelece, recolocando-se a questão do livre comércio/proteccionismo ao nível da conciliação possível entre eficiência económica e eficácia social.
Se considerarmos os ritmos estonteantes a que, nos dias de hoje, se produzem as mudanças e se reorientam os fluxos económicos e financeiros, valerá a pena perguntar se as posições ortodoxas de outrora não se terão entretanto tornado anacrónicas. Faz hoje sentido pensar o mundo, a economia, a política, sem equacionarmos os processos de terciarização, de re-centragem urbana, de desindustrialização, de degradação ambiental, de internacionalização, de desregulação, etc., etc.? Faz sentido equacionar o mundo moderno sem internalizar a lógica de que hoje não se produz para consumir, mas sim o inverso?
A nova economia exige novos modelos de (des)regulação e governação, bem assim como novas funções empresariais e produtivas capazes de integrar capacidades tecnológicas, ritmos de oferta, e adequabilidade dos tempos e das competências da função trabalho. Bem sei que destas adaptações resulta uma multiplicidade de tensões sociais, na rejeição que estabelecem ao novo formato em que se vai reorganizando a vida moderna...
Dizê-lo desta maneira, constitui talvez um impróprio político para a dita esquerda, na medida em pressupõe a aceitação de um modelo que se caracteriza, entre outros aspectos, pela produção de diferenças indesejáveis, suscitadas por um processo de aceleração da revolução técnico-científica e neo-liberal. É contudo um impróprio político preferível a uma caminhada alegre que nos conduzirá, de uma organização de actividades débil, para outra, quiçá, inexistente.
Por agora, prefiro o impróprio político ao inadequado económico. Entendo como alguém de esquerda pode, em certos casos, defender a desregulação. É darwinista? É adaptação.
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Nota
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