12/02/2012 atualizado às 19:50
Página Inicial » Blogues » Blogues Economia » Exames do dia » O impróprio político

O impróprio político

Maria Luísa Vasconcelos, Professora da Universidade Fernando Pessoa
18:00 Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
Perguntaram-me como pode um economista de esquerda, em certos casos, defender a desregulação...

Recordo uma reunião ministerial da OMC, em 2005, com ruas fechadas à força de manifestações contra o livre comércio, membros de governos a serem transportados de barco para o local das respectivas reuniões e gabinetes de apoio reféns dos hall dos hotéis. À época, ainda que sem a crise como determinante, o debate era já estabelecido entre posições proteccionistas versus a fé no livre comércio enquanto promotor de crescimento e emprego. Estas manifestações, tendo já ocorrido antes, repetiram-se também em anos seguintes, contudo sem o mesmo nível de gravidade que pude testemunhar naquele ano.

Ora, diz-nos a teoria económica que esse livre comércio será de facto promotor de maior crescimento e riqueza, tanto mais quando considerado à escala global. É na questão da repartição de ganhos que a divisão de posições se estabelece, recolocando-se a questão do livre comércio/proteccionismo ao nível da conciliação possível entre eficiência económica e eficácia social.

Se considerarmos os ritmos estonteantes a que, nos dias de hoje, se produzem as mudanças e se reorientam os fluxos económicos e financeiros, valerá a pena perguntar se as posições ortodoxas de outrora não se terão entretanto tornado anacrónicas. Faz hoje sentido pensar o mundo, a economia, a política, sem equacionarmos os processos de terciarização, de re-centragem urbana, de desindustrialização, de degradação ambiental, de internacionalização, de desregulação, etc., etc.? Faz sentido equacionar o mundo moderno sem internalizar a lógica de que hoje não se produz para consumir, mas sim o inverso?

A nova economia exige novos modelos de (des)regulação e governação, bem assim como novas funções empresariais e produtivas capazes de integrar capacidades tecnológicas, ritmos de oferta, e adequabilidade dos tempos e das competências da função trabalho. Bem sei que destas adaptações resulta uma multiplicidade de tensões sociais, na rejeição que estabelecem ao novo formato em que se vai reorganizando a vida moderna...

Dizê-lo desta maneira, constitui talvez um impróprio político para a dita esquerda, na medida em pressupõe a aceitação de um modelo que se caracteriza, entre outros aspectos, pela produção de diferenças indesejáveis, suscitadas por um processo de aceleração da revolução técnico-científica e neo-liberal. É contudo um impróprio político preferível a uma caminhada alegre que nos conduzirá, de uma organização de actividades débil, para outra, quiçá, inexistente.

Por agora, prefiro o impróprio político ao inadequado económico. Entendo como alguém de esquerda pode, em certos casos, defender a desregulação. É darwinista? É adaptação.




Clique na imagem para visitar o site da Universidade Fernando Pessoa




Nota
Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




A UE e a opção neoliberal
0:00 Sábado, 19 de novembro de 2011, 7
A caminho de uma grande depressão
19:10 Quinta feira, 3 de novembro de 2011, 11
Cada vez mais, na França, o rastilho da Europa.
12:40 Sexta feira, 28 de outubro de 2011, 1
O que falha no OGE 2012?
20:21 Quinta feira, 20 de outubro de 2011,
Um novo banco?
23:19 Quinta feira, 13 de outubro de 2011,
Aceitar ou não aceitar o perdão de dívida grega?
19:59 Quinta feira, 6 de outubro de 2011, 2
Vale a pena acreditar na Europa
19:30 Quinta feira, 15 de setembro de 2011,
A máquina de fazer pão
22:04 Quinta feira, 8 de setembro de 2011,
A barraca dos espelhos
18:54 Quinta feira, 1 de setembro de 2011,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP