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O Iémen e a segurança internacional

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 15 de janeiro de 2010

A segurança internacional evoluiu favoravelmente na última década. O Iémen é um bom exemplo. Não, não leu mal. Escrevi mesmo que a segurança internacional evoluiu favoravelmente entre 2000 e 2009.

A maior parte das pessoas pensa que estamos a viver tempos extremamente perigosos. Felizmente para nós, não é verdade. A esmagadora maioria da humanidade viveu os últimos dez anos de uma forma bastante pacífica. Para quem tem dúvidas, aqui ficam alguns números.

As guerras e os genocídios da primeira metade do século XX mataram cerca de 190 milhões de pessoas. Estamos a falar de uma média de 3,8 milhões de mortos por ano. Na segunda metade do século XX, as guerras levaram à morte de 40 milhões de pessoas. Aqui temos uma média de 800 mil mortos por ano. E de fora deixo acontecimentos como o Grande Salto em Frente de Mao Tsé-tung, que matou cerca de 30 milhões de pessoas.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute, em 2008 morreram 25.600 pessoas em conflitos militares. Dois terços das mortes ocorreram no Sri Lanka, Afeganistão e Iraque. Há 25 anos tínhamos medo de uma guerra nuclear na Europa. Hoje - bem, hoje - temos medo das cuecas de Umar Farouk Abdulmutallab, o homem que tentou fazer explodir o avião em que viajava sobre Detroit. Se isto não é uma evolução favorável, não sei o que será.

É verdade que as coisas podem mudar rapidamente no campo da segurança internacional, uma área onde há sempre surpresas e é prudente estar bem preparado do ponto de vista político e militar para lidar com a violência. Mesmo assim, esquecemo-nos de que é preciso recuar pelo menos quase dois séculos para encontrar um período de paz tão prolongado entre as grandes potências como aquele que temos vivido desde 1989. Enquanto esta situação não mudar, a insurreição e o terrorismo da rede criada ou inspirada pela Al-Qaeda continuará a ser o principal problema de segurança internacional. Este estado de coisas explica o regresso do Iémen às páginas dos jornais.

Dez anos depois do ataque ao "USS Cole" no porto de Aden, vale a pena prestar atenção ao Iémen por três razões. A primeira tem que ver com a enorme pressão dos militares norte-americanos e da CIA sobre a rede externa da Al-Qaeda no Wazisristão do Norte e Sul. Em 2008, a Administração Bush autorizou 36 ataques clandestinos contra as zonas tribais do Paquistão. Em 2009, a Administração Obama autorizou 53 (mais cinco nesta semana). O resultado foi a morte dos três últimos chefes da rede externa da Al-Qaeda e um grande incentivo para a organização procurar mais espaço para sobreviver, evoluir, recrutar e planear novos ataques.

A segunda razão tem que ver com a Arábia Saudita, o grande alvo estratégico de Bin Laden e dos seus aliados. A estabilidade da Arábia Saudita e o sucesso dos seus serviços secretos na luta contra a Al-Qaeda levaram os terroristas sauditas a verem no Iémen uma boa plataforma logística para manter a opção de atacar Riade.

A terceira tem que ver com a geopolítica e a situação política do país. O Iémen é uma espécie de prancha para a Arábia Saudita, a África do Leste e o Sudeste da Ásia e uma das chaves de acesso ao estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho, por onde passam três milhões de barris de petróleo diariamente.

Do ponto de vista político, a situação no Iémen é complicada. O Presidente Ali Abdullah Saleh está determinado em ver o seu filho suceder-lhe e em guerra aberta com os rebeldes xiitas no Norte e com um movimento separatista no Sul. O resultado é uma capital com poucos recursos para combater contra a segunda geração da Al-Qaeda do ponto de vista político, económico e militar.

"Maersk Alabama"


Atravessar o Golfo de Aden é uma actividade perigosa para as tripulações dos navios mercantes e petroleiros. Apesar do patrulhamento por parte de navios de marinhas internacionais, como a portuguesa, o número de ataques de piratas ao longo da costa da Somália e no Índico subiu ao longo de 2009. Em Novembro, o "Maersk Alabama" tornou-se o primeiro navio a usar uma equipa de segurança privada para repelir um ataque de pirataria. Os preços destas equipas variam entre os 25 mil e os 100 mil dólares.


EVOLUÇÃO

10 anos depois do ataque terrorista contra o "USS Cole", o Iémen está de volta às primeiras páginas dos jornais. O regresso do Iémen mostra uma coisa surpreendente - a evolução favorável da segurança internacional entre 2000 e 2009


BARÓMETRO

+ O progresso institucional e político do Iraque. Apesar de tudo, o país está mais estável

- Na União Europeia e nos EUA o desemprego entre os 16-24 anos atingiu níveis preocupantes do ponto de vista político e social - cerca de 20%

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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Iémen e segurança internacional
sara09 (seguir utilizador), 1 ponto , 18:52 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
Caro Miguel Monjardino,

Foi o título do seu artigo, que me despertou a atenção, pois sou uma leitora interessada em política internacional.
Não vou questionar o seu artigo, vou talvez acrescentar a minha opinião sobre o Iémen , porventura um pouco diferente da sua.

A realidade e o contexto em que se situa o Iémen é mais vasta e complicada ainda. Penso que as listas divulgadas sobre o terrorismo nada têm a ver com a Al-Qaeda , a não ser o AL-SHABAAT, um Movimento da Juventude Combatente Somali, uma verdadeira incubadora de futuros terroristas, com profundas ramificações ao Iémen.
O Iémen tem uma situação política complicada, como refere no seu artigo, é um estado frágil, com um crescimento demográfico incontrolável e uma economia "do nada". O que o Iémen produz é gente alienada que se convence que fazer massacres é um acto heróico e mártir.

A situação do Iémen é de tal modo grave que Gordon Brown convocou uma reunião para o dia 28 de Janeiro para discutir questões de segurança e política do Iémen. É pouco, concerteza, será uma forma de chamar a atenção para o problema.

O que me parece é que o perigo da segurança internacional é maior do que se pensa, onde estas células de terrorismo têm meios técnicos e humanos sofisticados.
Sabem planear ataques, não só no Iémen ou países de África mas... noutras paragens.

Sara
 
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