Podemos não ajudar o Haiti mas o Haiti ajuda-nos todos os dias. Estas catástrofes têm o poder de nos fazer felizes por dar. E fazem subir as audiências. O Haiti não é no Haiti, é no ecrã. O jornalismo sentimental obtém efeitos - a voz embargada, a criança carregada nos braços, a operação salvadora - e nada contribui para a reflexão. O Haiti, na sua absoluta devastação, na sua constituição como um lugar distopicamente distorcido, sem estado, sem governo, sem estruturas, entregue à ajuda humanitária internacional e ao caos e anarquia que o sofrimento gera, deixou de ser um país. Se é que alguma vez foi. Em 2010, com a ajuda existente, com os fundos existentes, com os programas e boas intenções existentes, existe no planeta um país como o Haiti. Onde, a avaliar pelas testemunhas, pessoas iam passar férias e praticar a evangelização e a caridade, sem que o Haiti tivesse uma escola, um hospital, casas, água potável, saneamento básico, um mínimo de estado, um mínimo de governo e de solução política.
Afinal, não estamos no tempo de Papa Doc e dos "Comediantes" de Graham Greene, quando a dinastia Duvalier fez do Haiti um cenário de ficção e vodu, útil aos filmes de James Bond. As Nações Unidas tinham uma brigada de funcionários no Haiti, e o Presidente Clinton e a mulher, antes de ser secretária de Estado, tiveram pelo Haiti um interesse político que os levou a apostar num cavalo coxo, o exilado Aristide. A França, com o cinismo da sua política de interesses, interessou-se pelo Haiti e, além de construir hotéis, viu o seu ministro dos Estrangeiros quando não era ministro, Bernard Kouchner, viajar várias vezes para o Haiti e sustentar os Médicos sem Fronteiras no território.
Nicole Richie, famosa por ser filha de Leonel e a parceira de Paris Hilton num reality show em que ordenhavam vacas, está no Larry King a perorar sobre o Haiti. Ouço-a explicar o programa para levar água limpa ao Haiti. E "a outros lugares de África". Seal canta, Mick Jagger canta, Nicole Kidman (estamos no dia das Nicoles) explica a sua acção no Haiti ao serviço das Nações Unidas. Larry King berra: dêem dinheiro, já temos mais de um milhão de dólares. Uma estrela do futebol americano, cuja filiação com os haitianos é a cor da pele, quase chora. King resplandece. Tilintam moedas comovidas no saco da pornografia humanitária.
Entretanto, no verdadeiro Haiti, onde a CNN tem um jornalista neurocirurgião que opera uma menina ao cérebro e se deixa fotografar a operar, o saque começou. A polícia dispara sobre os saqueadores e o repórter Anderson Cooper, aliás excelente, no intervalo de salvar um miúdo com a cabeça partida, e filmar-se a fazê-lo, diz que não são haitianos como deve ser, são haitianos criminosos. Existe, na pobreza, uma distinção entre bom e mau comportamento. No verdadeiro Haiti, o único hospital que funciona é o dos israelitas. O único que está montado, que tem máquinas de diagnóstico, que está equipado para cirurgias. Os americanos, no meio do bando de repórteres e do-gooders, e a França, protestando contra a "ocupação" do Haiti pelos americanos, não conseguiram montar um hospital de campanha.
O secretário-geral da ONU diz que estão a ser feitos todos os esforços. As vítimas resgatadas dos escombros com tanto esforço e tanta câmara a filmar, morrem das lesões. Outros morrem de fome e sede e o êxodo começou. No aeroporto, a ajuda empilha-se e apodrece no calor. Clinton desembarca, com as câmaras atrás, muito corado e dorido.
Dirão alguns, este não é o melhor momento para discutir como é que o Haiti chegou a isto. Este é, seguramente, o melhor e o único momento para pensar como é que o Haiti chegou aqui. Para repensar os mecanismos e a lógica da ajuda humanitária, e, sobretudo, a sua incapacidade logística apesar dos meios e das pessoas. No Afeganistão, pude observar como a logística da ONU era um pesadelo de ineficiência e desperdício, recorrendo a empresas privadas pagas a peso de ouro. Milhões serão entregues a quem? E com que fim? A actual solução humanitária cria vícios em quem dá e em quem recebe. É o velho problema do peixe e da cana de pesca. A ONU, com todas a suas virtudes, criou uma estrutura humanitária burocrática e, nalguns casos, corrupta, que é replicada pelas ONG. As brigadas de benfeitores podem ser heróicas mas não constroem países. Mais trabalho tem sido feito por soldados ignorantes da história e da geografia. Não creio que a América vá 'ocupar' o Haiti. Para o Haiti chegar a ser um país precisa de uma estrutura que terá traços políticos de neocolonialismo. Podemos chamar-lhe muitos nomes mas esta será a única solução. Um país não pode ser administrado pela ONU e por instituições de caridade. E não deve.
Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010