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O grande ouvido

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:01 Quinta feira, 10 de dezembro de 2009

Nas páginas deste jornal o jurista e militante do PSD Paulo Pinto de Albuquerque defendeu que os portugueses têm direito a conhecer o conteúdo das escutas que envolvem o primeiro-ministro. Desenvolveu argumentos jurídicos que não comentarei porque logo depois os tornou irrelevantes, argumentando que chega o interesse social das conversas telefónicas de José Sócrates para que estas sejam públicas. E se têm interesse social, os portugueses abstractos, detentores de todos os direitos à custa de todas as liberdades dos portugueses concretos, devem ouvi-las.

Não sou puro. A intimidade dos outros desperta-me curiosidade. Os seus pecadilhos. As suas incoerências. Os seus abusos. Mas o Estado de Direito tratou de refrear os meus instintos voyeuristas. E convencionou que há um círculo de privacidade dos cidadãos ao qual ninguém tem acesso. E que para entrar nele o Estado só pode usar instrumentos com regras muito rígidas. A democracia presume-se moralmente superior. Para combater o terrorismo não tortura. Para combater a criminalidade violenta não assassina. Para combater a corrupção não viola os direitos civis. Por isso, a democracia só pode aceitar escutas se estas forem usadas para provar um crime concreto. O interesse social que elas possam ter é irrelevante.

A minha inquietação é perceber que há, nos dias que correm, milhares de pessoas a serem escutadas. Num país que viveu meio século de ditadura era isto, e não a curiosidade dos portugueses, que devia preocupar qualquer amante da liberdade. Este big brother que tudo ouve sem sequer conseguir manter segredo do que ouve é um monstro perigoso. E se ouve sem reserva quem manda no Estado, imaginem o que fará com a arraia-miúda.

Dissolve-se no ar

No deserto cresceu uma ilusão. Mas como nada a sustentava, o Dubai declarou falência. E o mesmo acontecerá a todos os que escolheram o caminho que desde os anos 90 parecia indiscutível: o do Capitalismo especulativo. Escreveu Karl Marx que tudo o que é sólido se dissolve no ar. Convenceram-nos, nas últimas décadas, que o que tínhamos era sólido como um dogma. Como se vê, pode bem dissolver-se nas areias de um deserto.

Foi sobre estes assuntos comezinhos que Michael Moore decidiu fazer um documentário que já está nas salas de cinema. Atreve-se a dizer umas evidências. A propósito da crise que vivemos tem-se falado da ganância, como se de uma perversão do capitalismo se tratasse. Pelo contrário, a ganância é o seu motor. E sem amarras a liberdade económica toma conta de todas as outras. Por isso não espanta que Stephen Moore (sem relação com o realizador), economista e membro do Conselho Editorial do "The Wall Street Journal", explique no documentário que o capitalismo é mais importante do que a democracia. Tem razão numa coisa: é falsa a ideia de que há um parentesco próximo entre os dois conceitos.

Podemos aprender qualquer coisa com os últimos vinte anos: que o capitalismo devora as suas próprias crias. Temos duas possibilidades: ou esperar que ele se dissolva no ar ou pôr-lhe um açaime e uma trela curta. Como? Decidindo que, ao contrário do que pensa o economista do "The Wall Street Journal", a democracia é mais importante do que o capitalismo. Ou nós controlamos, através do poder que elegemos, o monstro, ou ele nos controla a nós.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009

 

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A falsa ingenuidade
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 10:08 | Quinta feira, 10 de dezembro de 2009
O grande ouvido
A arraia-miúda não teme, porque não deve.
Quem manda no Estado!!? E quem é que manda no Estado? Se a população está contra as escutas devem ser erradicadas. Afinal o que andam a fazer os seus representantes. A brincar às democracias? A pavonearem a sua ridícula farpela de burgueses, na luta pelos seus próprios interesses? Ora, ora… se até a esquerda “radical” se evaporou no cadinho do funcionalismo confortável!

Dissolve-se no ar
Ou nós controlamos o monstro!!? Que monstro? Mas nós controlamos o quê? Democracia sem capitalismo: ninguém sabe, nunca ninguém viu. Trata-se aqui das brancas contra as pretas? Se já o capitalismo ninguém sabe bem como está a funcionar ou sequer se pode mudar de carril; se já a democracia deixou de representar as populações, não fazendo senão que facultar a certas classes que protejam os seus interesses exclusivos. Ora, ora, democracia, capitalismo… estas palavras já pouco ou nada traduzem de concreto!

 
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Voyeuristas laranja
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 10:42 | Quinta feira, 10 de dezembro de 2009
Finalmente uma voz respeitada se levanta contra o voyeurismo de Pinto Albuquerque, Ferreira Leite e Aguiar Branco.
 
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