Os responsáveis da PT podem esgrimir argumentos, gesticular e até gritar, mas todos suspeitamos que o Governo usa e abusa da PT como se fosse uma empresa pública.
Para quem dirige a PT não é confortável admitir que toda a sua gestão é condicionada pelo comportamento dos políticos no poder. Todos os que passaram pela maior empresa portuguesa conhecem os telefonemas da tutela, os recados dos ministros e as mensagens dos gabinetes. E em conversas particulares contam histórias, encolhendo os ombros num conformismo confrangedor.
A chamada golden share atribuiu uma série de poderes ao Governo sendo o mais relevante, para os políticos, a capacidade de vetar nomes do conselho de administração já que um terço destes têm de ter o aval do Estado. Esta possibilidade permite colocar na PT os boys socialistas ou sociais-democráticos, dependendo de quem está no poder.
É deste movimento que surge Rui Pedro Soares, um administrador colocado pelo Governo na PT, que sai do anonimato directamente para a Comissão Executiva de uma multinacional e torna-se num dos sete magníficos que lideram os destinos da empresa no dia-a-dia. Basta ir ao site da PT e comparar o seu perfil com, por exemplo, o de Manuel Rosa da Silva, Carlos Alves Duarte, Shakhaf Wine ou Luís Pacheco de Melo, para perceber as diferenças. E depois basta ler as escutas publicadas no "Sol" para perceber porque está ele na PT.
Muito se tem falado da golden share do Estado na PT. Decorre em Bruxelas um processo que visa acabar com este privilégio. Os seus defensores argumentam que existe para impedir que um dia a PT acabe nas mãos de operadores estrangeiros. Apesar deste argumento ser válido a verdade é que as acções com direitos especiais de voto servem para controlar a PT e fazer dela um instrumento político.
Todos saem mal desta história promíscua. Zeinal Bava, coloca em risco a sua reputação de brilhante gestor ao ter de engolir sapos como o da compra da TVI ou de ter de trabalhar com pessoas que não foi ele que escolheu. Henrique Granadeiro dá o dito por não dito num processo que foi mal conduzido desde o início. Rui Pedro Soares fica com poucas condições para se manter na Comissão Executiva. Os accionistas de referência da PT permanecem convenientemente calados. E os pequenos accionistas ficam com dúvidas se os interesses da empresa estão ou não a ser bem defendidos. O Governo podia não mandar na PT? Podia mas não era a mesma coisa, era muito melhor.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010