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O futuro já não é o que era

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 9 de abril de 2010

A Europa vai levar mais tempo a sair da crise do que os Estados Unidos e do que as potências convencidas de irem ser outros pólos do mundo multipolar que julgam estar à vista. (Não está. Mesmo a China, apesar do tamanho da população e das reservas do banco central, levará décadas até ombrear em riqueza, força militar e atracção para o resto do mundo com os Estados Unidos - se tudo correr bem. Se houver sobressaltos pelo meio, um século não será de mais para atingir tal patamar de segurança e bem-estar).

Seja como for, os europeus continuam a arrastar os pés - uns mais outros menos mas todos menos lépidos do que os americanos e os povos dos países emergentes. Costuma atribuir-se essa falta de genica a meio século de paz entre as nações, aos confortos oferecidos pelo Estado social, à baixa natalidade e à extrema longevidade. Há velhos a mais e novos a menos, apaparicados pelos poderes públicos do berço à cova.

Tudo isso terá os seus efeitos mas também vale a pena saber o que as escolas ensinam à gente nova. Um estudo do German Marshall Fund, publicado em 2008, dava elementos reveladores sobre a França e a Alemanha (o motor da Europa, não esquecer). Segundo uma "Histoire du XXe siècle" para estudantes que preparam a admissão à universidade, "o crescimento económico impõe uma vida agitada, leva a excesso de trabalho, stresse, depressão nervosa, doenças cardiovasculares e segundo alguns autores até ao aparecimento de cancro". Outro livro muito usado ensina aos estudantes que o progresso tecnológico destrói empregos e em vez de descrever como agem empresários submete os estudantes a um debate teórico: está a fábrica moderna organizada numa linha pós-Ford ou neotayloriana? Em vários textos diz-se que a globalização leva a violência e resistência armada. O capitalismo é "brutal", "selvagem" e "americano".

Os livros alemães, por seu lado, sublinham as tradições colectivistas e caricaturam os administradores de empresas: fumadores de charuto indolentes, associados a trabalho infantil, fraudes e despedimentos. Um texto sobre globalização tem capítulos chamados "Ressurreição do capitalismo de Manchester", "Brasilização da Europa", "O regresso da Idade das Trevas". A Índia e a China têm sucesso porque o Estado possui os meios de produção e é proteccionista, enquanto os mercados mais livres do mundo se encontram em África com a miséria que se sabe. Outro livro diz que se deve combater o desemprego com semana de 30 horas, reforma aos 60 e divisão de empregos a tempo inteiro em empregos a tempo parcial.

A ideia geral na instrução das gerações futuras dos dois lados do Reno é que as empresas destroem empregos e a política governamental os cria, que a globalização é catastrófica, que a relação capital-trabalho é um jogo "de tudo ou nada". Na sua maioria, os corpos docentes parecem estar convencidos disto e olhar para o mercado com horror e desprezo. Não será assim que o gato irá às filhoses. Páscoa feliz.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010
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O FUTURO CONSTRÓI-SE TODOS OS DIAS
Anamanacosta (seguir utilizador), 1 ponto , 19:01 | Sexta feira, 9 de abril de 2010
O envelhecimento do corpo docente coloca a questão da formação ao longo da vida. As ideias e as práticas antiquadas fazem com que os professores vejam o seu mundo desbotado. Os jovens vêm com outra maneira de estar e de aprender e os professores têm de se actualizar. Mas a questão que coloca é muito interessante. Cada vez mais me parece que alunos e professores partilham a ideia, e a prática, de que trabalhar é bom para os outros. Os professores não gostam do local de trabalho, de mudanças na sua carreira e criticam a utilização das novas tecnologias na sala de aula. Os alunos vivem como se a escola fosse um local de convívio e chegam a perguntar por que é que têm de vir à escola. Os pais, que se preocupam com o futuro, têm dificuldade em convencer os seus convencidos filhos de que o futuro se constrói todos os dias. Há excepções a este panorama mas cada vez há mais casos em que a visão do mundo do adulto é a do jovem. “Não avencemos já, vamos esperar, pode ser que não seja preciso fazer”.
Na sala de aula existem alguns alunos chineses e oriundos de países da ex URSS, que têm uma capacidade de aprender e se dedicar ao trabalho, que deixa muito para trás a generalidade dos alunos portugueses. Rapidamente ultrapassam o obstáculo da língua e conseguem obter óptimos resultados. Estes exemplos vivos da Globalização não têm dúvidas, a trabalhar é que se constrói o futuro.
 
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