Isabel Freitas era funcionária da Qimonda. Para amealhar algum trabalhava em turnos de 12 horas. Recebia por isso 640 euros. Sabe-se lá com que esforço, conseguia poupar. Somava a isso os 45 mil euros que os pais juntaram numa vida inteira de trabalho e que lhe deixaram como herança. Ela pôs tudo no banco. Perdeu o emprego. Como não é licenciada, está atrás de tantos que com o ensino superior esperam por uma qualquer oportunidade. O dinheiro foi-se. Não porque Isabel tenha perdido a cabeça. Porque o banco era o BPN. Precisavam de liquidez e, sem saber, a Isabel estava a emprestar as suas poupanças à SLN Valor. As ordens superiores eram para "arrasar os objectivos fixados", por isso o funcionário só lhe contou meia-verdade. E é das meias-verdades que os jogadores vivem.
Numa excelente reportagem de Susana André, na SIC, vimos os rostos e as vidas de muitos pequenos clientes do BPN. Enganados e roubados no pouco que tinham por gente a quem sobra dinheiro e que usou o seu talento e bons contactos para pôr em prática esquemas engenhosos. Um padre que depositou as contribuições dos seus paroquianos para uma obra social pergunta: "como é que um bando de engravatados foi capaz de ficar com o dinheiro destinado aos pobres?" A resposta é simples: porque é esse o seu ramo de actividade. Os menos honestos ficam com tudo. Os que seguem as regras ficam apenas com parte dele. É apenas uma questão de grau.
Dizia um vendedor ambulante, outro cliente enganado por um bando de engravatados: "tinha o nome de um banco, se tivesse o nome da Dona Branca eu não metia lá o dinheiro". O problema é mesmo esse. O BPN pode ter exagerado na marosca mas, como se viu na crise do subprime, o que as instituições financeiras fazem não é assim tão diferente do que fez a Dona Branca: jogar sem rede e sem aviso com o futuro dos outros na esperança de que nada corra mal. Sabendo que se correr mal os contribuintes pagam a factura.
Sim, o BPN é um caso de polícia. Mas as virtudes do capitalismo financeiro, da desregulação e da ganância como motor da economia que nos vendem há anos são um caso de política. E aí, nada parece ainda ter mudado. O desabafo de Jorge Palma na música que servia de banda sonora à reportagem da SIC continua a fazer sentido para lá do BPN: "quero o meu dinheiro de volta, tanta gente a dar-me a volta, não foi para isto que eu vim cá".
O Haiti não é aqui
A terra tremeu no Haiti. A terra, quando treme, treme para ricos e pobres. Mas quando o chão se mexe sob os pés de um miserável é bem mais dramática a sua queda. Porque nada o segura. E num Estado falhado como o do Haiti, onde no tempo do clã Duvalier o principal produto de exportação era sangue humano, o resultado foi devastador. Do número mortes nem se sabe bem, porque até as contas das vidas são um luxo.
Perante esta tragédia, o que interessa mais às televisões nacionais? Os doze portugueses que estavam no Haiti. Bem sei que as coisas são assim mesmo. Primeiro queremos saber dos nossos. Mas é por as coisas serem assim que há tantos Haitis por esse mundo fora.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010