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O futuro dos outros

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 21 de janeiro de 2010

Isabel Freitas era funcionária da Qimonda. Para amealhar algum trabalhava em turnos de 12 horas. Recebia por isso 640 euros. Sabe-se lá com que esforço, conseguia poupar. Somava a isso os 45 mil euros que os pais juntaram numa vida inteira de trabalho e que lhe deixaram como herança. Ela pôs tudo no banco. Perdeu o emprego. Como não é licenciada, está atrás de tantos que com o ensino superior esperam por uma qualquer oportunidade. O dinheiro foi-se. Não porque Isabel tenha perdido a cabeça. Porque o banco era o BPN. Precisavam de liquidez e, sem saber, a Isabel estava a emprestar as suas poupanças à SLN Valor. As ordens superiores eram para "arrasar os objectivos fixados", por isso o funcionário só lhe contou meia-verdade. E é das meias-verdades que os jogadores vivem.

Numa excelente reportagem de Susana André, na SIC, vimos os rostos e as vidas de muitos pequenos clientes do BPN. Enganados e roubados no pouco que tinham por gente a quem sobra dinheiro e que usou o seu talento e bons contactos para pôr em prática esquemas engenhosos. Um padre que depositou as contribuições dos seus paroquianos para uma obra social pergunta: "como é que um bando de engravatados foi capaz de ficar com o dinheiro destinado aos pobres?" A resposta é simples: porque é esse o seu ramo de actividade. Os menos honestos ficam com tudo. Os que seguem as regras ficam apenas com parte dele. É apenas uma questão de grau.

Dizia um vendedor ambulante, outro cliente enganado por um bando de engravatados: "tinha o nome de um banco, se tivesse o nome da Dona Branca eu não metia lá o dinheiro". O problema é mesmo esse. O BPN pode ter exagerado na marosca mas, como se viu na crise do subprime, o que as instituições financeiras fazem não é assim tão diferente do que fez a Dona Branca: jogar sem rede e sem aviso com o futuro dos outros na esperança de que nada corra mal. Sabendo que se correr mal os contribuintes pagam a factura.

Sim, o BPN é um caso de polícia. Mas as virtudes do capitalismo financeiro, da desregulação e da ganância como motor da economia que nos vendem há anos são um caso de política. E aí, nada parece ainda ter mudado. O desabafo de Jorge Palma na música que servia de banda sonora à reportagem da SIC continua a fazer sentido para lá do BPN: "quero o meu dinheiro de volta, tanta gente a dar-me a volta, não foi para isto que eu vim cá".

O Haiti não é aqui


A terra tremeu no Haiti. A terra, quando treme, treme para ricos e pobres. Mas quando o chão se mexe sob os pés de um miserável é bem mais dramática a sua queda. Porque nada o segura. E num Estado falhado como o do Haiti, onde no tempo do clã Duvalier o principal produto de exportação era sangue humano, o resultado foi devastador. Do número mortes nem se sabe bem, porque até as contas das vidas são um luxo.

Perante esta tragédia, o que interessa mais às televisões nacionais? Os doze portugueses que estavam no Haiti. Bem sei que as coisas são assim mesmo. Primeiro queremos saber dos nossos. Mas é por as coisas serem assim que há tantos Haitis por esse mundo fora.

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010

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sou a rosa e não uso gravata
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 22:33 | Quinta feira, 21 de janeiro de 2010
senhor daniel desculpe o desaforo de vir aqui ao seu sítio mas é para denunciar o meu patrão que me explora e que de certeza faz parte desse bando de engravatados que o senhor fala e se eu estivesse bem informada só teria aceite um patrão desengravatado assim como os senhores do bloco de esquerda e até falei com o levindo que trabalha no talho e é todo de esquerda que chegou a dizer-me que se devia afixar nas paredes cartazes a dizer cuidado com os engravatados ou conhece um engravatado pois denuncie-o e eu vou começar a fazer isso pois só no meu prédio há uma catrefada deles e portanto senhor daniel conte comigo e depois envio-lhe a lista porque conforme o levino diz de certeza fazem todos parte do mesmo gangue
 
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