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O funil demográfico

Este será provavelmente o ano em que menos gente nasceu em Portugal desde 1900. Como outros países europeus, entrámos num funil demográfico. Seremos cada vez menos e cada vez mais velhos. Que dizer (ou fazer) a esse respeito?

Rui Ramos (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 9 de setembro de 2010

Há uns dias, antecipando o regresso desta coluna, alguém me recomendava caridosamente que não gastasse tempo com coisas efémeras. Nada de comentar casos, contradizer declarações, especular sobre campanhas. O que convinha era "ir ao fundo" e analisar as causas e consequências do que verdadeiramente importa. Muito bem: sinto-me na obrigação de experimentar.

Deparo-me logo com uma dificuldade. O que é que, de facto, é fundamental? Talvez o desequilíbrio das contas públicas e a estagnação económica. Mas não haverá algo de ainda mais básico? Para alguns, serão as alterações climáticas. E porque não, já agora, as alterações demográficas? Apreciemos isto: este será provavelmente o ano em que menos gente nasceu em Portugal desde 1900. Como outros países europeus, entrámos num funil demográfico. Seremos cada vez menos e cada vez mais velhos. Que dizer (ou fazer) a esse respeito?

Muita gente julga perceber o clima e pretende até corrigi-lo. Em relação à população, somos geralmente mais discretos. Talvez porque, tal como foi fácil à esquerda virar as alterações climáticas contra o "liberalismo económico", também não parece difícil à direita pendurar as alterações demográficas ao pescoço do "liberalismo moral", o que já fica para lá dos limites da correção política oficial. Por essa ou outra razão, a demografia tem suscitado a prudência e a contenção que a meteorologia talvez também merecesse.

Há, de resto, teorias para todos os gostos. O que significará, para o nosso modo de vida, uma população mais pequena e envelhecida? A nossa Segurança Social, que sempre esperou ver mais jovens do que velhos, parece uma vítima óbvia. No Japão, há quem ligue declínio demográfico e estagnação económica. É por acaso que Portugal, a Espanha, a Itália e a Grécia sofrem da mesma conjugação de inércias? Confiou-se na imigração para compensar. Mas não funcionará muito mais tempo. Para o clima, há planos definidos. Mas, para a população, será possível ou suficiente desviar recursos da proteção da velhice para incentivar a natalidade?

Lidamos aqui com enredos que ninguém percebe bem. Na década de 1970, temíamos uma nova idade do gelo e a explosão populacional. Trinta anos depois, atormentamo-nos com o aquecimento global e a regressão demográfica. Quando é que tínhamos razão? Antes da Segunda Guerra Mundial, também houve um pânico na Europa acerca do decrescimento da população. Nessa altura, nascimentos significavam soldados. A Rússia comunista proibiu o aborto, o Portugal salazarista criou o "abono de família" (primeiro para os funcionários públicos, como seria de esperar entre nós). Nada deu resultado que se visse. Veio a guerra, e a seguir, imprevistamente, o célebre baby boom, que durante vinte anos sustentou o medo malthusiano da proliferação.

E se as coisas profundas também forem, à sua maneira, superficiais? Não em si, mas pela nossa impossibilidade de descer ao fundo, de compreender e manipular tudo? Hamlet já tinha avisado Horácio acerca do alcance da sua ciência. Talvez seja mais seguro escrever sobre a negociação do orçamento.

Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010

 

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Paulo Pedroso (seguir utilizador), 4 pontos (Bem Escrito), 18:42 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
"Na década de 1970, temíamos uma nova idade do gelo e a explosão populacional. Trinta anos depois, atormentamo-nos com o aquecimento global e a regressão demográfica."

A regressão demográfica poderá atormentar alguns países mas está muito longe de atormentar a Humanidade. Se olharmos para a realidade no seu todo, em vez de nos perdermos com umbiguismos nacionais (ou nacionalistas), veremos que a Humanidade, no seu todo, está muito longe de qualquer regressão demográfica. De facto, dentro de quantro décadas, em meados deste século, a Humanidade terá ultrapassado os nove mil milhões, crescendo cerca de 33% face aos actuais volumes populacionais. Se tivermos em conta que, no final da II Guerra Mundial, existiam cerca de 2.5 mil milhões de seres humanos, constatamos que, no período de um século (de meados do séc. XX a meados do séc. XXI), a população mundial multiplicar-se-á por 3.7 vezes.

No último episódio da série COSMOS, Carl Sagan diz: "Sabemos quem fala em nome das nações. Mas, quem fala em nome da Humanidade?".

De facto, é muito fácil olhar apenas para as nações. As nações têm dirigentes, têm políticos, têm leis, são Estados (Estados-Nação), têm cidadãos patriotas, quando não nacionalistas.

A Humanidade é que parece não ter nada. Ninguém fala em nome da Humanidade porque não há políticos, líderes ou elites que respondam perante milhares de milhões de seres humanos, como um todo. Nem sequer a ONU.

Repito: COMO DISSE? REGRESSÃO DEMOGRÁFICA?
 
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Inversão da pirâmide
Sertorius2009 (seguir utilizador), 1 ponto , 18:16 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
Não há nada que vá convencer as pessoas a terem mais filhos. A forma como as sociedades desenvolvidas estão organizadas não é compatível com outra opção que não filhos únicos ou dois no máximo, pelo que o saldo demográfico será sempre negativo.
A solução passa necessariamente pela imigração. Agora, como integrar esses imigrantes nas sociedades de acolhimento, sem conflitos? A imigração levanta toda uma série de questões, nomeadamente, étnicas, religiosas, culturais, etc.
Esses vão ser os desafios para as sociedades desenvolvidas e dos respectivos governos.
 
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