O Governo tem feito tudo, com algum sucesso, para fazer diluir na crise internacional as suas responsabilidades no desastre em que transformou a nossa economia. A oposição, com menos sucesso, tudo tem feito para tentar relativizar o papel da crise internacional nas trapalhadas do Governo socialista.
Na verdade, a generalidade da população contesta Sócrates pelas medidas que agora se vê obrigado a tomar, e portanto responsabiliza-o por elas, mas não parece estar convencida de que, fora outro Primeiro-ministro ou fora outro Governo, as coisas seriam diferentes.
Talvez fosse preferível à oposição, se ela acreditasse nisso (o que é coisa que ainda tem de ver-se), dirigir a responsabilidade do estado da nossa economia não tanto para a incompetência flagrante de José Sócrates e Teixeira dos Santos (que além de políticos irresponsáveis, mentiram e deixaram mentir ao país) mas para o socialismo que nos governa.
Sejamos claros: a nossa economia chegou a este ponto não tanto porque o Governo é mau e irresponsável mas sim porque o Governo é socialista e quer manter, fortalecer e robustecer o Estado Social. Não é popular, bem sei, mas é a verdade. Estaríamos mais ou menos na mesma se, pelo PS, tivéssemos um Primeiro-ministro com sentido institucional. Teríamos mais verdade, mais responsabilidade e mais transparência, mas estaríamos exactamente na mesma: falidos.
É exactamente por isto, ou também por isto, que a maioria dos eleitores, adepta de políticas socialistas, tendem a não alinhar no coro de indignados que vai pela oposição. Essa maioria não percebe, porque a oposição tem medo de explicar-lhe, em que é a oposição seria diferente. Se ninguém sabe onde cortar a sério (essa coisa de cortes nos gastos supérfluos são migalhas), se ninguém quer cortar a sério (essa coisa de suspender PPP é isso mesmo, suspender) então a coisa não justifica indignações. Sobretudo porque, e isso viu-se em reacção a Manuela Ferreira Leite, o eleitorado não acredita que a mentira e a irresponsabilidade e os devaneios morem só num lado. Ninguém gosta de gastar tempo e suor e lágrimas para mudar de moscas.
E é curioso ver este receio da oposição em desmontar a realidade do fracasso do Estado Social. Não lhes basta a realidade, antecipada por muitos. Não lhes basta a dureza, contrastando com a ideia mirífica de Estado Social. Não lhes basta a degradação da economia, para além do suportável. O que querem mais?
Enquanto não mexerem no Estado Social, oposição e Governo estão bem um para o outro.