O "Diário de Notícias" disse que o assessor principal de Cavaco tinha sido a fonte do chamado 'caso das escutas'. Belém fala em "questão de segurança". Sócrates em "surpresa"
José Manuel Fernandes. director do "Público", garante que o jornal tem "mais elementos e informações" sobre o "caso das escutas", que a "investigação vai continuar" e será publicada quando todo o trabalho estiver concluído.
A notícia das suspeitas, por parte dos assessores de Cavaco Silva, de que estariam a ser vigiados pelos serviços de informações, surgiu em Agosto. Ontem, com a campanha eleitoral ao rubro, foi retomada pelo "Diário de Notícias", que publicou um e-mail interno da redacção do "Público" no qual se atribuía a Fernando Lima - assessor principal do Presidente - a passagem da informação para o "Público" e a sugestão de uma investigação jornalística sobre o assunto.
A notícia caiu que nem uma bomba, motivando reacções diversas (do próprio Presidente, ao primeiro-ministro e líderes partidários). E levantou uma vez mais a questão do conflito institucional entre Belém e São Bento.
Cavaco e Sócrates convivem há três anos e meio e caso o PS ganhe as eleições vão ter de manter uma cooperação institucional que se afigura cada vez mais fragilizada. Dava-se como certo que o momento de viragem nas relações entre Presidente e primeiro-ministro tinha sido com a novela do Estatuto dos Açores. Mas agora ficou a saber-se que o desconforto vem de pelo menos há um ano e meio. Anterior, portanto, à aprovação daquela lei.
Ontem, em declarações ao Expresso, o director do "Público" considerou a notícia do "DN" como "um ataque inédito" a um trabalho jornalístico, que pode mesmo levantar questões do foro criminal.
Um inquérito interno foi já ordenado pela direcção do jornal, para apurar como um documento interno de trabalho - "que circulara por e-mail e entre um grupo muito pequeno de pessoas" - pode ter ido parar a outras redacções. A coincidência da divulgação desta notícia com o auge da campanha também não surpreende José Manuel Fernandes. "Parece que foi feito a régua e esquadro, tenho consciência disso".
O certo é que, logo de manhã, a questão tornou-se o principal tema político da agenda. Todos os líderes partidários - com excepção de Ferreira Leite, que disse não ter lido o artigo - se pronunciaram. José Sócrates disse ter lido a notícia com "atenção e surpresa", mas poupou nos comentários pela necessidade de se "concentrar na campanha".
Cavaco também usou o período eleitoral como escudo, garantindo querer ficar "totalmente em silêncio". No entanto, em poucas palavras, acabaria por dirigir as atenções: prometeu para "depois das eleições", recolher informações sobre esta "questão de segurança". E foi o que bastou para colocar, de novo, a "segurança" e os serviços de informação na berlinda. Fernandes admitiu a possibilidade de ter sido obra do SIS o desvio do e-mail da redacção. E Sócrates acaba por voltar à antena para dizer que tais suspeitas são fruto de "uma imaginação fértil", aproveitando para garantir que os serviços de informação "agem dentro da lei".
Num gesto inédito, os próprios Serviços de Informações de Segurança (SIS) acabam por emitir um comunicado negando "categoricamente o envolvimento" em eventuais escutas feitas à Presidência ou a "intercepção de comunicações" internas do jornal "Público". A Procuradoria Geral da República também prometeu actuar, caso entenda necessário.
Também ontem foi anunciada, para breve, a saída de José Manuel Fernandes do cargo de director do "Público", que ocupa há dez anos. Porém, um pacto de silêncio parece ter sido assinado entre os membros da direcção e da administração do jornal sobre a data provável da saída. José Manuel Fernandes garante, porém, que está para ficar. Pelo menos, por agora. "Só se fosse louco sairia neste momento", disse.
As difíceis relações entre o jornal e o Governo de José Sócrates são conhecidas. Desde o caso da licenciatura do primeiro-ministro, à revelação dos projectos de engenharia e do processo da Cova da Beira, a tensão foi-se tornando indisfarçável. No último Congresso do PS, o director do "Público", tal como o 'Jornal' da TVI, ouviu duras críticas do líder socialista. "Sinto que sou um alvo do primeiro-ministro. Que me lembre, é a terceira vez que se refere a mim em tom crítico. Até já disse que sou o seu melhor inimigo", assumiu Fernandes.