A Irlanda possui um défice das contas públicas na ordem dos 10%, portanto acima do nosso, que de acordo com o Ministro das Finanças e apresentado esta semana com o O.E. foi de 9,3% em 2009.
É também do conhecimento público, que no final do ano que passou, as principais casas de notação financeira mundiais, baixaram o "rating" da dívida pública de alguns países, entre os quais se encontram Portugal, Espanha e Grécia. Mas, (para os menos atentos) a Irlanda "paradoxalmente" não teve qualquer recomendação negativa. E porque seria?
A Irlanda também recentemente veio demonstrar, através de medidas muito concretas, que está a atacar ferozmente os desequilíbrios das contas públicas. Para tal, reduziu o salário do Primeiro-ministro em 20%, o dos ministros em 15% e os de todos os assalariados públicos em 10%. Através desta poupança irá conseguir aliviar o seu défice em muitos milhões de Euros, que lhe permitirá avançar posteriormente para outro conjunto de reformas complementares tendo em vista o equilíbrio orçamental.
Foi esta tomada de decisão, sem qualquer dúvida, muito corajosa mas também necessária, que fez manter inalterável a qualidade da sua dívida pública aos olhos dos avaliadores.
Para Portugal, a revisão em baixa do "rating" da qualidade da nossa dívida pública, tem desde logo uma consequência - o Estado irá pagar mais pelos empréstimos contraídos (quando nas renegociações) e por novos que venha a contrair. Depois e em sequência, as empresas e as famílias, irão também pagar mais pelas suas dívidas. O crédito é escasso e o prémio de risco a pagar aos credores, varia de forma directamente proporcional à saúde financeira dos mutuários, com o risco-país à cabeça.
Estamos em crise!
E numa altura como aquela que estamos a viver é justo existir uma partilha de esforços e sacrifícios entre a iniciativa privada e a esfera pública.
Apesar de ninguém desejar o aumento do desemprego, confesso que sempre me fez "muita confusão" o esforço e sacrifícios que sempre foram pedidos ao sector privado.
Veja-se a onda de despedimentos que tem varrido o país, nos têxteis, nas cablagens, na construção civil, nas pequenas empresas prestadoras de serviços, na restauração, nos transportes, na indústria automóvel, enfim, em todos os sectores. É confrangedor o espectáculo dado quase todos os dias nas televisões, mostrando mais umas dezenas ou centenas de portugueses que perdem os seus empregos.
E no sector público administrativo? O que é que se tem passado?
A crise não passou nem passa por ali. Quando toda a gente sabe que o sector público administrativo funcionaria com produtividades interessantes e de forma eficiente, com menos 200.000 funcionários, nada acontece.
Ser funcionário público é assim uma espécie de intocável, quando os infelizes que tiveram a "ousadia" de ir para o público, acabam despedidos todos os dias.
Confesso que nunca entendi a falta de coragem dos variados governos em abraçar de forma definitiva este problema e de uma vez por todas o resolver. Acredito que o congelamento dos salários no sector público administrativo é já um sinal, mas ainda insuficiente.
Mas já que as medidas que a situação exige não são tomadas, e neste momento particular acredito que não seria a melhor altura, ao menos que se tomem medidas idênticas às que a corajosa Irlanda tomou.
Sei que são medidas impopulares, que iriam gerar muito descontentamento. Mas acaso estarão os irlandeses contentes? E não foi por isso que estas medidas agora anunciadas não deixaram de ser tomadas.
A situação das nossas finanças públicas é grave. Os avisos que chegam do exterior demonstram grande preocupação e ameaçam tornar Portugal numa segunda Grécia. Este orçamento agora aprovado, tem que ser uma mensagem clara para o exterior de que queremos combater a despesa pública de forma inequívoca e assim ganharmos a confiança dos nossos "stackholders".
Sempre estive na esfera privada onde a extraordinária exigência e o forte rigor, sempre foram pedras basilares e omnipresentes na excelência do output gerado e oferecido aos clientes.
É esta noção de exigência e rigor que terá que vigorar também no domínio público.
Os portugueses não entendem que sejam sempre aqueles que trabalham na área privada a arcar com os esforços e sacrifícios duma nação. Há que começar a repartir estes mesmos sacrifícios pelo sector público e de forma urgente!