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O exemplo da República

A oposição monarquia/república é menos importante que entre absolutismo/regime constitucional.

J.L. Saldanha Sanches* (www.expresso.pt)
17:30 Segunda feira, 1 de março de 2010

O centenário da proclamação da República não podia calhar em melhor altura: o ambiente geral de desilusão e descontentamento tem uma enorme semelhança com o que se vivia nas vésperas do 28 de Maio.

A semelhança acaba aí: podemos encontrar pontos comuns entre o eng. Sócrates e o eng. António Maria da Silva (políticos gastos e desprestigiados que ainda assim se mantêm à tona de água) mas há uma diferença essencial.

Nos anos 20, na Europa, a democracia liberal estava decididamente fora de moda: o tempo era das soluções de força, quer de direita quer de esquerda.

Os exércitos, no modelo ibero-americano, tinham como vocação principal os golpes de estado e a pequena burguesia urbana, que tinha feito a república, queria ordem e disciplina.

O fim da democracia liberal, nas formas espúrias que esta tinha em Portugal, parecia a solução para as várias e múltiplas crises: o défice crónico do orçamento, a inflação, a falta de divisas para os pagamentos internacionais.

Mais importante do que tudo isto era a perda de confiança nas instituições e nos actores políticos: o ambiente geral de corrosiva descrença e apatia que tornou o 28 de Maio numa espécie de passeio militar.

Para a história que se faz hoje tudo isto, por mais desagradável que seja para um discurso comemorativo e legitimador, é quase consensual. Opor a este consenso entre os historiadores um discurso oficial de sinal contrário e patrocinar investigações que apontem noutro sentido é uma insensatez. São as novas Cortes de Lamego da legitimação pela falsificação.

Se bem que não devamos esperar que na consciência colectiva a história ocupe o espaço que ocupou na mente das gerações que andaram na escola no tempo da pátria e do império - o antigo regime conseguiu um discurso histórico coerente e influente - a história conserva alguma importância.

Era bom recordar que a dicotomia monarquia/república é muito menos importante que a dicotomia poder absoluto/regime constitucional e que a mudança principal na nossa história política não foi no 5 de Outubro: foi quando D. Miguel embarcou em Sines para Viena. Um facto que, no antigo regime, Governo e oposição tinham interesse em ocultar.

O projecto de regeneração nacional que começou no 5 de Outubro e cujo fracasso conduziu ao 28 de Maio não pode ser comparado, em termos de mudança estrutural, com a guerra civil que de forma intermitente opôs absolutistas e liberais entre 1820 e 1832. Basta comparar os tiros do 5 de Outubro com o cerco do Porto.

E ao contrário de D. Miguel, D. Carlos não tinha encerrado os seus adversários em prisões mortíferas como foram as Fortalezas de S. Julião da Barra e Almeida, nem fez enforcar conspiradores.

No período pré-25 de Abril poderia fazer algum sentido comemorar o 5 de Outubro. Era o que faziam a oposição liberal, e, com algum oportunismo, o Partido Comunista. Divulgando uma versão simplificada e utilitária dos tempos republicanos.

Quando se discute tudo menos a democracia, as comemorações têm que ter outro sentido: aquilo que era simplificação quando a discussão era limitada, torna-se pura falsificação quando esta deixou de ter limites autoritários.

*Fiscalista

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010

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Ele sabe tudo
clareza (seguir utilizador), 1 ponto , 22:26 | Segunda feira, 1 de março de 2010
Ele sabe tudo e teoriza sobre tudo.
 
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Também tu, Brutus, perdão, Saldanha Sanches?
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 0:13 | Terça feira, 2 de março de 2010
Já estava à espera, chegou a hora de todos baterem no "ceguinho".

Desta lição de História, desconhecida de todos, tenho a certeza, resta o quê?

"Políticos gastos e desprestigiados e que ainda assim se mantêm à tona de água"

Tem piada, porque passei anos a ouvi-lo responsabilizar o "bando" dos contribuintes; O gang dos delinquentes fiscais; a vigarice dos pequenos comerciantes; os falsos doentes; etc.

Os erros ou as más práticas dos Governantes, eram relevadas, devido aos erros ou às más práticas de Governos anteriores e pelo que vejo a "coisa" vai até à monarquia.

No fundo, a sua crítica dirigia-se sempre ao povo que se habitou a receber e a fugir de dar.

Faz lembrar um reputado jornalista económico deste "grupo", a quem ouvi dizer:

"Não aceito discutir o que o Estado gasta mal, enquanto todos (os contribuintes) não pagarem"

A fuga ao fisco não se deverá também, à falta de confiança a quem se paga? Basta ver que, com a obtenção de dinheiro barato no exterior, o fartar-vilanagem.

Há pessoas que não se podem ver com dinheiro...

E pelo que diz, começou à cem anos.

 
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