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O Estado dos Sítios

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
9:00 Sexta feira, 12 de março de 2010

Um certo impulso perdulário do nosso Estado, erigido em tio Patinhas que não pára de proclamar, "Compro tudo!", alterna com fases em que o mesmo se remete à atitude de velha tia somítica, fechando avaramente os cordões da bolsa, e abraçando-se ao choradinho da carestia da vida. Ao longo dos tempos tem andado o Estado português a representar um ou outro destes papéis, e o resultado de tal alternância manifesta-se na titularidade de prédios não raro imponentes, adquiridos pela cobiça de um momento, e pouco depois votados a um escândalo mais, a acrescer ao rol dos que nos alimentam uma estranha espécie de erectomania cívica.

Como funcionário do Estado trabalhei em dois casarões, obtidos a expensas do erário público, e ambos igualmente sumptuários, se bem que testemunhos de diversas opções estéticas. O palacete do visconde de Villar d'Allen, no qual se sediou a defunta delegação nortenha do Ministério da Cultura, conforma uma exuberância de sinais desencontrados, prefiguradora do gosto de uma determinada aristocracia de fresca data, sustentada por quanto de bizantino pudesse aderir ao neo-clássico, e por quanto de espúrio alcançasse macular o grau zero da arquitectura. Quanto à Casa de Ramalde, albergue do "desactivado" Museu Nacional de Literatura, ficaria ela a marcar o esplendor barroco que Nicolau Nasoni entendeu como ninguém, e que serviria de sólida morada a uma nobreza antiga, oportunamente robustecida pelo oiro do Brasil que afluía à corte de Dom João V. Nenhum destes edifícios porém, escapando à demolição, beneficiaria de política que verdadeiramente o valorizasse, encarando-o não como apetecível concha vazia, mas como flagrante de uma expressão civilizacional.

Idêntico destino sofreriam ambos, ditado pela hesitação entre o pretenso pragmatismo e a casuística negligente, responsável pela desastrosa gestão do nosso património estatal. Ultrapassada a era em que se encheram de secretárias metálicas, e da cibernética parafernália de todas as repartições, acabaram encerados os dois imóveis, a fim de que as ervas daninhas invadissem os jardins, de que as manchas de bolor alastrassem pelos tectos, e de que a silenciosa ferrugem corroesse as canalizações. Como simbólicas estâncias do decurso dos séculos, e sem objectivo à vista, eis que se abismam agora nessa ruína em que o pretérito se torna cada vez mais pretérito, em que o presente não existe, e em que o futuro se faz cada vez menos português.

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