A Alemanha decidiu que os imigrantes terão de assinar um contrato em que prometam respeitar, entre outros valores, a liberdade de imprensa e os direitos das mulheres. A coisa parece benigna. Mas levanta um problema: os valores de um Estado estão plasmados nas leis. E esse é o contrato que basta. Quem não o cumpra é punido. Punido pelos seus actos e, em alguns casos, pelas suas palavras. Nunca pelas suas convicções. E aplica-se a todos por igual. Além de inútil, este contrato abre extraordinários precedentes numa sociedade democrática e livre.
O que se insinua na Alemanha fica muito claro em França. O Governo de Sarkozy oficializou um debate nacional, para o qual mobilizou ministérios e autarquias, para a definição da identidade francesa. "O que faz com que nos sintamos próximos dos outros franceses, mesmo sem os conhecermos?", pergunta-se. A ideia é chegar a uma daquelas listas de lugares comuns em que os povos se enganam a si próprios. E a partir de imensas qualidades separa-se o 'trigo' do 'joio'. Já a Suíça referenda amanhã se nas suas cidades pode haver minaretes. Na Alemanha, em França e na Suíça trata-se de traçar uma fronteira em que o outro não caiba.
Com o seu tão trágico e recente cadastro, sentir-se-ão seguros os alemães de que é aos estrangeiros que têm de pedir juras de amor às liberdades civis? O legado dos judeus enviados por Vichy para os campos da morte alemães também conta para o deve e haver da identidade francesa?
Dirão, carregados de razão, que estou a ser injusto. Que a identidade e a história de um povo não se faz a preto e branco. Pois é bom que os alemães não se esqueçam disto quando se quiserem convencer que são portadores de qualquer tipo de superioridade civilizacional. Não são. E é bom que os franceses não se esqueçam disto quando começarem esta perigosa viagem pela sua identidade. Se forem sinceros, não vão gostar do que lhes vai aparecer no espelho.
Casa Pia
Sete anos depois das denúncias. Cinco anos depois do começo de um julgamento. O sistema de justiça e a vida política de pantanas. Uma instituição com 230 anos virada de pernas para o ar. Os seus alunos com um estigma que não os larga. Os queixosos com a vida parada. Os acusados com as vidas desfeitas. Tantos outros condenados na praça pública. Como se pode explicar que um caso como estes, com a angústia social que causou, com as repercussões políticas, institucionais e mediáticas que teve, possa estar cinco anos no forno?
Não é caso único. Na justiça portuguesa , quem tem dinheiro aguenta a maratona. Se quer, prolonga a coisa com um bom advogado e três mil expedientes. Se tem pressa, desespera. Se a carteira não chega para a aventura é sugado pelo sistema. As testemunhas saltam de audiência em audiência em adiamentos consecutivos. No fim, tudo depende dos erros de forma, quase nada do conteúdo. E as sentenças são uma lotaria. E mesmo que a Justiça acerte, quando chega, tarde e a más horas, já não serve para nada. Os inocentes já não podem limpar o seu nome. Os queixosos já nem acalmam a sua revolta.
Cinco anos depois do começo do mais mediático de todos os julgamentos, a Justiça mostrou mais uma vez que está em coma profundo. Seja qual for o final desta história, já virá tarde de mais. Não, claro que não tenho confiança na Justiça do meu país. Ninguém tem, aliás.
Daniel Oliveira