O primeiro-ministro, também conhecido por eng. Sócrates, chegou-se à beira do chefe do Governo e disse-lhe que precisava de distribuir mais uns "Magalhães" por umas escolas, além de inaugurar uma auto-estrada que desse a volta a Lisboa antes de seguir para o Samouco. Mas o chefe do Governo estava com cara de poucos amigos e respondeu-lhe:
- Estás maluco?
O primeiro-ministro insistiu:
- Eh, pá, o primeiro-ministro sou eu! Cabe-me decidir quais as prioridades do Governo e isso tudo!
- Mas já leste o Orçamento do Estado? - perguntou-lhe o chefe do Governo.
- Ainda não o li todo, mas já o conheço por alto. Li as 12 páginas do Expresso, as 456 do "Público" e um bom resumo do "Jornal de Negócios". Até sei que em moedas de euro o nosso défice dá quase a volta ao mundo...
- E percebeste que não pode haver nenhuma despesa adicional se não for apresentada ao ministro das Finanças uma proposta de corte no mesmo valor? Entendeste bem que não se pode contratar ninguém, nem para o Estado central nem para a Administração local, sem autorização do ministro das Finanças?
- Diz lá isso, na lei do Orçamento?
- Diz!
- Assim, preto no branco?
- Assim, preto no branco!
- Eh, pá, isso são mais poderes do que eu tenho!
- Então estás a ver quem manda!
- Não sou eu?
- Não! Mas andas lá perto, se te mantiveres aqui à minha beira...
- Não pode ser! Não podemos ter chegado a um ponto neste país em que o primeiro-ministro não manda! Malditas agências de rating, que são manipuladas pelos grandes interesses financeiros e por esses banqueiros sem escrúpulos que têm lucros como o caraças!
- Deixa-te de armar em esquerdalho. A maioria dos banqueiros com escrúpulos ou sem eles são teus amigos e, além disso, a questão não é essa. O problema é que doravante não podes comprar sequer um jornal, encher o depósito do carro do Estado, fazer uma visita aos Açores sem a minha autorização... É só isso. Mas está descansado, que eu dou-te uma mesada para as tuas brincadeiras; sempre podes fazer umas inaugurações e umas estraditas, mas coisinhas leves.
- Eh, pá, e foi para isto que andei com o PS ao colo, a ganhar eleições... Eu dá-me vontade de partir isto tudo!
- Podes partir, desde que haja um corte orçamental igual ao valor do que partires...
- Não me lixes! Eu posso desfazer a lei do Orçamento do Estado, posso pedir ao Parlamento que a revogue!
- Certo, mas desde que apresentes um Orçamento igual ou ainda mais restritivo!
- Pareces o Salazar da nossa democracia!
- Podes insultar-me, porque isso não custa dinheiro, mas não te estiques muito, caso contrário vou-me embora e ficas para aqui sem dinheiro...
- Isto é incrível! Isto é incrível! Dá-me vontade de sei lá o quê... Ó Fernando Teixeira dos Santos, diz-me lá o que é que eu posso fazer.
- Tu podes fazer tudo, és o primeiro-ministro. Podes fazer tudo desde que não gastes dinheiro. Pronto!
Texto publicado na edição da Única de 6 de Fevereiro de 2010