A coisa põe-se da seguinte maneira. Um muito popular jogo na Internet, baseado no Facebook, chama-se "Mafia Wars", ou "Guerras da Mafia". Os seus promotores dizem que mais de quatro milhões de pessoas jogaram este jogo ontem. Não interessa em que dia isto é escrito, porque a frase está lá há mais de um mês.
O "Mafia Wars" consiste em fazer trabalhos mafiosos em Nova Iorque, em Cuba e na Rússia (brevemente também em Banguecoque e na Califórnia). Desses trabalhos fazem parte, por exemplo, a extorsão a um juiz corrupto, ganhar um concurso falsificado para a reconstrução de Havana ou silenciar um opositor político em Moscovo.
Entre as pessoas que jogam, há o hábito de mudar o nome. É assim que personalidades diversas, de todo o mundo, surgem nos nossos computadores com os nomes italianizados. Há o Don Pintini, o Don Pinheirini, o Don Ferreirini, mas também o Don Orlando, ou o Don Brunote, ou do Don McCartini. Isto é tudo gente honesta que se está a divertir com o único objectivo de mudar de nível. Alguns já vão no 300 e têm grupos da Mafia de mais de 500 pessoas. Outros vão em níveis mais modestos e têm pequenas Mafias de sete ou oito elementos.
Deixo isto muito claro porque, antes de me pronunciar sobre o caso "Face Oculta", gostaria de saber se o senhor procurador e o senhor juiz do processo conhecem este jogo. É que, não duvidando eu da inocência total de todos os envolvidos, me ocorreu que tudo não passasse de uma forma mais vívida de o jogar. Digamos que os envolvidos não só faziam as suas jogadas a partir da plataforma do Facebook mas iam mais longe, telefonando-se e encontrando-se para discutir combates e trabalhos.
Por exemplo: retirar de uma empresa um gestor honesto é um dos trabalhos que se pode fazer no jogo quando se está em Moscovo, assim como vender sucata que não existe, ou comprar a que ainda está em bom estado para depois ser vendida ao mesmo fornecedor. Já encontrar-se num parque de estacionamento e trocar sacos com substâncias suspeitas ou proibidas é claramente o trabalho de um dos níveis de Nova Iorque. Arranjar um contrato com uma empresa pública, mesmo sem concurso, é um dos objectivos do jogo em Havana.
Eu imagino alguns jogadores do "Mafia Wars" - como Don Varone e Don Godini (este claramente no elevadíssimo nível de capo di tutti i capi, aquele no mais elevado ainda de consiglieri) - não só a fazer jogadas combinadas pelo telefone ou por mail (é que no "Mafia Wars" pode pedir-se ajuda a outros mafiosos; a mim, por exemplo, fazem-me falta umas transacções ilegais e um dossiê sobre um tal Dimitri para, na Rússia, mandar para o hospital um nacionalista da oposição) mas também a almoçarem juntos para melhor combinarem as coisas.
Mas, claro, em Portugal, devido ao atraso tecnológico, ninguém se lembra destas possibilidades e pensam logo que é corrupção, nepotismo, locupletação, etc., etc. A oposição põe-se aos berros, o país quer moralidade e, muito possivelmente, nada disto é mais do que um mero jogo sem importância.
Se abrirem conta no Facebook lerão mensagens do tipo: "A Mafia de Sicrano combateu a Mafia de Fulano", ou: "Fulano ofereceu um político corrupto a Beltrano".
É a vida moderna, meus senhores! Por que razão se há-de pensar logo no pior?
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009