13/02/2012 atualizado às 9:56
Página Inicial » Blogues » Luís Carmelo » O desaire do futebol das quinas

O desaire do futebol das quinas

Pouco depois do 11 de Setembro, acreditou-se, em terras lusitanas, na Renascença de Scolari e na sua novíssima Nação como alternativas possíveis ao desaire

Luís Carmelo (www.expresso.pt)
9:30 Quinta feira, 4 de março de 2010

Quando era criança, era comum ler ou ouvir dizer "Tudo pela Nação". O pregão era levado muito a sério. O que eu, na altura, não sabia é que o conceito - de Nação - vinha do século XVIII e tinha traduzido, de início, a alma vivida por uma comunidade e reflectida na língua, nas tradições e sobretudo numa espécie de voz partilhada de modo quase místico. Certos apaniguados de Salazar, ele nem tanto, adoravam encenar um certo misticismo milenar. Como se Portugal fosse a esperança do mundo.

Na segunda metade do século XX a cultura foi-se emancipando da era das civilizações e a Nação foi sendo silenciada ou referida com novos sentidos bem mais prosaicos. O 25 de Abril redescobriu por cá a República - porventura de modo excessivo, quando o que necessitámos era de democracia e liberdade - e quase remeteu a Nação (bem menos o atributo "nacional") a epíteto reaccionário. Recentemente, o ciclone global gerou novas tensões e a Nação, já tão desmobilizada e desacreditada, passou a reaparecer em actividades que simulam a épica sem o ser. É o caso do futebol.

A nossa senhora de Scolari e a euforia verde e vermelha de 2004 corresponderam a um novo tipo de Nação: um frémito colectivo sem grandes precedentes, ou tão-só uma espécie de uníssono expressionista pronto a ser galvanizado pelos fantasmas da bola. Pouco depois do 11 de Setembro, acreditou-se, de facto, em terras lusitanas, na Renascença de Scolari e na sua novíssima Nação como alternativas possíveis ao desaire (o pântano guterrista, a Casa Pia, a fuga de Durão, a epifania Santana Lopes, os eufemismos da justiça e os muitos casos Sócrates). O fenómeno floresceu até acabar, como tudo na vida, por esvaziar.

O jogo de ontem contra a China foi a grande prova disso mesmo. O público deleitou-se a assobiar a "Nação das Quinas", enquanto ia gritando "Olés" aos tímidos avanços da grande fábrica do mundo. Ainda por cima com duas grandes penalidades que ficaram por marcar. O carisma salvífico de Queiroz, mais propício a lances de aeroporto do que a ecos proféticos à Frederico Barbarossa, dissolveu-se no frio coimbrão. E nesse esvair dos heróis, a bola parecia um meteorito perdido e sem direcção. Um verdadeiro peso.

Confesso que raramente vibrei com a selecção "nacional". Talvez por isso tenha achado graça, ontem, à Questão Coimbrã.

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Vassourada
águiadois (seguir utilizador), 1 ponto , 11:54 | Quinta feira, 4 de março de 2010
A Selecção precisa de uma vassourada.para limpar vícios velhos.Madail que dê o exemplo.
 
 Regras da comunidade
    Re: Vassourada    Ver comentário
certo iactu (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Quinta feira, 4 de março de 2010
Já nem o futebol nos liberta...
Ninfeta70 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:36 | Quinta feira, 4 de março de 2010
...uns momentos, dos graves problemas socio-economicos do país...
Dantes, serviam para alianar 90 minutos, e levar-nos ao sonho das vitorias.
Agora, tambem já só serve para agudizar mais a crise nacional, e em vez de nos distrair um pouco, só nos massacra mais a cabeça!
 
 Regras da comunidade
mais um caramelo
stiffo (seguir utilizador), 1 ponto , 13:37 | Quinta feira, 4 de março de 2010
o cronista parece ser o primeiro a querer futebol para compensar a falta de grandeza national.

no futebol, como noutras areas, somos um pequeno pais de uns poucos milhoes de habitantes. Exigir ao futebol que devolva a grandeza da patria e' triste da sua parte.

para usar uma palavra popular na edicao de ontem, o recurso 'a emocao facil denota preguica intelectual. Impoe-se que exija a si proprio aquilo que espera dos outros.

somos o que somos, sejamos felizes por isso.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Provas de Aferição: uma metáfora do país
10:30 Sábado, 8 de maio de 2010, 3
Ricardo Rodrigues, a Luísa Vilaça de Eça
10:00 Sexta feira, 7 de maio de 2010, 1
A ilusão da liberdade
14:18 Quinta feira, 6 de maio de 2010,
Manuel Alegre: No, you can´t!
22:37 Terça feira, 4 de maio de 2010, 1
1ª de Maio: o tabu ou o nosso Ganges?
8:00 Sábado, 1 de maio de 2010, 3
Silêncio sem 'share' nem perdão
19:36 Quinta feira, 22 de abril de 2010,
O abismo da confiança
10:30 Quarta feira, 14 de abril de 2010, 8
Os Fukuyamas da igreja
14:29 Terça feira, 13 de abril de 2010,
O Wrestling político e o PSD
23:48 Sábado, 10 de abril de 2010, 6
Valença e a alma ferida
15:21 Quarta feira, 7 de abril de 2010, 1
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP