Isaltino é um caso extraordinário? Nem por isso. No livro A Corrupção e os Portugueses, Luís de Sousa e João Triães encontraram dois dados curiosos: por um lado, 88,4% dos mil e tal entrevistados afirmaram que seriam incapazes de votar num autarca condenado por corrupção mesmo que ele tivesse tido "um bom desempenho"; por outro lado, 61,3% concordaram que (e agora, caro leitor, respire fundo e leia devagar - não quero entupir as urgências hospitalares) os actos de corrupção autárquicos que (é agora) acautelem "o benefício da população" não devem ser considerados corruptos. Pode-se encher os bolsos, desde que se construa aquela rotunda.
Não, não somos um povo eleito dotado da consciência ética de uma galinha. Aqueles dados não são um exclusivo nosso; não se exaltem já, caros Vasco Pulido Valente e Medina Carreira. São, pelo menos, parte de uma tendência europeia continental - mais vincada, adivinharam, a Sul e menos no Norte. Para os eleitores há corrupção e corrupção, do mesmo modo que a legitimidade de um governante não se torna necessariamente nula após rebentar um escândalo de corrupção.
Quando o que está em causa não é corrupção óbvia mas a percepção de corrupção, ainda mais frágil é a correlação entre ela e a legitimidade do Governo. Há mais factores em jogo, desde logo a percepção das alternativas políticas (apesar da cabala anti-socrática e da fase comatosa do PSD, o CDS-PP, o Bloco e o PCP não têm saído fortalecidos nas sondagens).
Se a corrupção não é, em si e por si, condição suficiente para a queda de um executivo, muito menor é o poder da percepção de corrupção - porque parte as pernas à definição tradicional de legitimidade: a sondagem da Intercampus para o Público mostra que 60% acreditam que Sócrates mentiu (que, trocado por miúdos, é corrupto), mas apenas 46% dizem que perdeu a legitimidade para governar.