Desde a sua fundação que a Fundação Champalimaud é um mistério. Um mistério dissolvido na dispersão dos mentores e conselheiros, e um mistério nos objectivos, que vão da intervenção humanitária a projectos de neurociências e de investigação científica de "áreas de ponta", sem que se perceba com rigor para que serve a instituição.
Não ponho em causa a competência de Leonor Beleza, e acho formidável que a Fundação queira prestar atenção ao cancro e às metástases e fundar um programa e um centro de intervenção nessa área; por estes dias, organiza um Simpósio que põe a caminho de Lisboa não sei quantos "génios" da investigação médica. Da ilustre lista de oradores não consta um português. São projectos da Fundação e modos de a gerir. Privados, privadíssimos. A ligação da Fundação a Portugal será o que a Fundação quiser. O que não devia ser o que a Fundação quiser é o modo como o Governo ofereceu à Fundação mais um bocado de rio, roubado aos lisboetas e aos portugueses, na zona de Pedrouços. 60 mil metros quadrados.
Em Reunião Extraordinária de 5 de Outubro de 2008, a CML aprovou o projecto de arquitectura do Centro de Investigação da Fundação Champalimaud para a zona da Doca de Pedrouços. A proposta foi votada com o aval do PS, da lista Lisboa com Carmona, do PSD e do PCP. O PCP apoiou, apesar de achar que fica por "resolver todo o problema da envolvente de Pedrouços". A lista Cidadãos por Lisboa, de Helena Roseta, e o vereador Sá Fernandes, eleito pelo Bloco de Esquerda, abstiveram-se. Sá Fernandes lamentou a não participação dos cidadãos na discussão. Roseta também. E assim se suspendeu o PDM. E se destruiu a escola de Pesca.
Se não fosse o Movimento de Cidadãos capitaneado pelo Miguel Sousa Tavares íamos levar com o muro de contentores em Alcântara. Vamos levar com um edifício administrativo, luxuoso é certo, mais laboratórios e um hospital de dia. O site da Fundação anda com grandes cautelas sobre a "envolvente" porque sabe que está a pisar vidros. Na verdade, o que ali vai ser feito não é um equipamento público nem da cidade, é um Centro privado onde uma equipa privada com objectivos privados escolheu um terreno público de primeira água. O novo IPO vai para Chelas, o hospital de dia da Fundação (Que "utentes" terá? Os do SNS? Cobaias? Pagantes?) fica à junto à Torre de Belém "onde o rio se encontra com o oceano Atlântico".
Aqui chegados, o site torna-se hilariante: O projecto (do arq. Charles Correa) "desenvolve e potencia os objectivos da excelência científica e de celebração das 'descobertas' ao mesmo tempo que devolve o rio à cidade e o torna acessível através de zonas públicas de grande beleza". Três edifícios vão abrir (???) o rio à cidade e ao oceano. O Edifício A, o maior, com áreas de diagnóstico e tratamento, e laboratórios de investigação e serviços administrativos. O Edifício B, com um auditório, uma área de exibições e outra de restauração, e com os escritórios da Fundação, que comunicam com o escritórios do Edifício A "através de uma elegante porta de vidro". E o Edifício C, com "um anfiteatro ao ar livre com vista para o rio".
Vista para o rio têm todos eles, nos seus magníficos postos de trabalho e padecimento, nós é que deixamos de ter vista para o rio. A não ser que a necessidade nos arraste para um refeitório médico ou para um colóquio (fechado) sobre oncologia. Ou que a Fundação queira imitar a Gulbenkian (obviamente, não pode). "Os edifícios estão dispostos de forma a criar uma via pedonal de 125 metros que atravessa diagonalmente o terreno em direcção ao mar, e, simbolicamente, do 'desconhecido'". Este caminho tem "uma suave rampa ascendente em direcção ao rio de tal maneira que na sua subida se vê unicamente o céu.
No final da rampa encontram-se duas grandes esculturas monolíticas de pedra bruta. Ao ser atingido o ponto mais alto ver-se-á uma grande massa de água que, aparentemente sem qualquer tipo de corte visual, liga com o oceano. No centro desta massa emerge um objecto oval de aço inoxidável que reflecte o céu azul e o movimento das nuvens; pode representar um conjunto diverso de coisas, desde a carapaça de uma tartaruga a uma ilha tropical ou mesmo um tesouro, elementos que fazem parte da aventura mítica que inspirou os descobrimentos".
E lá atrás, supõe-se, uma bela vista para um hospital, laboratórios e escritórios. Com esta conversa tonta sobre o espaço mítico, lá se foram 60 mil metros quadrados. Sobram-nos 125 metros para olhar o céu. E um auditório. E a imaginação. E os carros? Quantos carros irão entrar, sair e estacionar neste gigantesco centro? Não, esta não é a minha ideia de um domingo à beira-rio.