Os 1º e 2º choques petrolíferos (retracção da oferta feita pela OPEP e portanto não sustentável a prazo) acabaram com a utilização do petróleo na geração da electricidade. Convirá que o 3º choque petrolífero (aumento da procura induzida pelas potências emergentes e portanto sustentável a prazo) reduza substancialmente a utilização de petróleo nos transportes, reservando-o para utilizações industriais mais nobres.
Assim, o carro eléctrico aparece como a solução de futuro, lá para 2020, depois de uma transição em que os motores de combustão ainda vão evoluir muito (com maior potencial de desenvolvimento no diesel) com baixas emissões de CO2 e com reduções espectaculares do consumo, podendo chegar nos diesel aos três litros/100km. A duração desta tecnologia poderá ser ainda ampliada pelo uso dos biocombustíveis, biodiesel e etanol (biogasolina), devido à consequente redução do consumo do petróleo.
Nos carros eléctricos teremos basicamente a via do electrão, com baterias de lítio alimentando os motores eléctricos, e a via do hidrogénio, o qual alimenta as pilhas de combustível que produzem a electricidade para os motores eléctricos. Se bem que a via do hidrogénio permita aos carros um maior raio de acção que as actuais baterias de lítio, não acreditamos que vingue pois o hidrogénio não é uma energia primária (curiosamente a única fonte para o produzir em grande escala seria o nuclear através da electrólise da água) e vai ser difícil ter uma economia do hidrogénio, como já explicado nestas colunas.
Os principais estrangulamentos no carro eléctrico serão ainda as baterias devido ao peso ainda elevado, ao curto tempo de vida, ao custo e à quantidade de energia armazenada. Todos os outros componentes estarão mais dominados e acessíveis à indústria, portuguesa inclusive.
O carro eléctrico irá ser um híbrido diferente dos actuais, pois que o motor eléctrico será o principal, com um pequeno motor de combustão para se ligar apenas nos casos em que a carga da bateria se esgote, assegurando assim uma segurança adicional em trajectos mais longos.
O avanço para o carro eléctrico vai obviamente puxar pela energia nuclear, aquela que consegue nos países industrializados a produção de electricidade não poluente em grande escala, e ainda pelas energias renováveis, designadamente pelas eólicas, na medida em que se poderão utilizar as horas nocturnas, em que, como no caso português, haverá mais vento para carregar as baterias. O carro eléctrico poderá dar assim uma contribuição para a melhor gestão da rede, fornecendo uma procura nas horas de vazio do diagrama de cargas.
Em Portugal, além da óbvia oportunidade para a indústria portuguesa de componentes, também a Galp, sentindo a ameaça para o mercado dos combustíveis, quererá assegurar o fornecimento de electricidade aos veículos, concorrendo com a EDP neste negócio. A eléctrica nacional diz então que vai entrar no negócio da mobilidade, conceito muito caro ao seu mediático presidente, o qual tem sido o gestor público com mais mobilidade (e consequente velocidade de circulação) entre o PSD e o PS...
Luís Mira Amaral
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009