Quando percebi que o Governo Guterres estava a 'vitaminar' o despesismo público e a implementar uma política de rendimentos e preços incompatível com as exigências de uma União Monetária, antecipei os gravíssimos sarilhos em que nos íamos meter e comecei a escrever sobre a matéria, no que fui acompanhado então por Tavares Moreira e Miguel Frasquilho. Na altura, o Presidente da República, Jorge Sampaio, e o governador do Banco de Portugal, o Prof. António de Sousa, mantiveram um silêncio ensurdecedor. O último foi depois recompensado com a presidência da CGD.
Já no Governo PSD-PP, devo ter sido o único não socialista a criticar a incapacidade que Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, dois dos mais incompetentes ministros das Finanças que este país teve, mostravam.
Na altura, Jorge Sampaio produziu a famosa 'pérola': "Há mais vida para além do défice", quando o que devia ter dito era que "há mais vida para além da contabilidade pública", pois que não era com uma visão contabilística que se resolveria o problema das finanças públicas.
Escrevi na altura um artigo "O tango argentino e o fado lusitano", comparando os riscos que Portugal corria, pondo em causa a permanência no euro por causa do descontrolo das finanças públicas, com o que tinha acontecido com a Argentina no currency board com o dólar. Também no artigo "O pipeline do PSD e o regime" me interrogava sobre quem iria ser o Marcello Caetano deste regime, face ao seu evidente bloqueio político, económico e social. No anterior Governo Sócrates, voltei a chamar a atenção para o facto de o problema das finanças públicas não estar resolvido.
O que agora as "agências de rating" vieram dizer era pois para mim facilmente previsível. A Grécia está pior do que nós, mas é evidente que, se nada fizermos, dentro de três anos estaremos na situação aflitiva da Grécia. Por outro lado, importa referir que a situação das finanças públicas não pode ser desligada da extrema dependência dos financiamentos externos e aí Portugal e a Grécia são os países mais vulneráveis da zona euro.
Então, em vez de darmos sinais claros de ajustamento, como fizeram os irlandeses que por via disso saíram dos radares das agências de rating, nós fizemos um orçamento sem qualquer ajustamento (a Despesa Pública Corrente Primária, mantêm-se de 2009 para 2010 no altíssimo valor de 42% do PIB) e criticámos as agências de rating. O nosso autismo é pois impressionante e nele alinhou um poderoso banqueiro que lidera a nossa 'Wall Street' e também pontifica na nossa 'Main Street'. Em complemento, fomos para Bruxelas dizer que não nos podíamos comparar com a Grécia. Como seria de esperar, as agências de rating e os gregos reagiram e nós fomos muito pressionados pelos mercados. Também, como não há duas sem três, Sampaio veio desta vez apelar aos partidos para que aprovassem este mau OE-2010.
Luís Mira Amaral
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010