13/02/2012 atualizado às 11:14
Página Inicial » Opinião » Economia Real » O autismo e as agências de rating

O autismo e as agências de rating

Luís Mira Amaral (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 6 de março de 2010

Quando percebi que o Governo Guterres estava a 'vitaminar' o despesismo público e a implementar uma política de rendimentos e preços incompatível com as exigências de uma União Monetária, antecipei os gravíssimos sarilhos em que nos íamos meter e comecei a escrever sobre a matéria, no que fui acompanhado então por Tavares Moreira e Miguel Frasquilho. Na altura, o Presidente da República, Jorge Sampaio, e o governador do Banco de Portugal, o Prof. António de Sousa, mantiveram um silêncio ensurdecedor. O último foi depois recompensado com a presidência da CGD.

Já no Governo PSD-PP, devo ter sido o único não socialista a criticar a incapacidade que Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, dois dos mais incompetentes ministros das Finanças que este país teve, mostravam.

Na altura, Jorge Sampaio produziu a famosa 'pérola': "Há mais vida para além do défice", quando o que devia ter dito era que "há mais vida para além da contabilidade pública", pois que não era com uma visão contabilística que se resolveria o problema das finanças públicas.

Escrevi na altura um artigo "O tango argentino e o fado lusitano", comparando os riscos que Portugal corria, pondo em causa a permanência no euro por causa do descontrolo das finanças públicas, com o que tinha acontecido com a Argentina no currency board com o dólar. Também no artigo "O pipeline do PSD e o regime" me interrogava sobre quem iria ser o Marcello Caetano deste regime, face ao seu evidente bloqueio político, económico e social. No anterior Governo Sócrates, voltei a chamar a atenção para o facto de o problema das finanças públicas não estar resolvido.

O que agora as "agências de rating" vieram dizer era pois para mim facilmente previsível. A Grécia está pior do que nós, mas é evidente que, se nada fizermos, dentro de três anos estaremos na situação aflitiva da Grécia. Por outro lado, importa referir que a situação das finanças públicas não pode ser desligada da extrema dependência dos financiamentos externos e aí Portugal e a Grécia são os países mais vulneráveis da zona euro.

Então, em vez de darmos sinais claros de ajustamento, como fizeram os irlandeses que por via disso saíram dos radares das agências de rating, nós fizemos um orçamento sem qualquer ajustamento (a Despesa Pública Corrente Primária, mantêm-se de 2009 para 2010 no altíssimo valor de 42% do PIB) e criticámos as agências de rating. O nosso autismo é pois impressionante e nele alinhou um poderoso banqueiro que lidera a nossa 'Wall Street' e também pontifica na nossa 'Main Street'. Em complemento, fomos para Bruxelas dizer que não nos podíamos comparar com a Grécia. Como seria de esperar, as agências de rating e os gregos reagiram e nós fomos muito pressionados pelos mercados. Também, como não há duas sem três, Sampaio veio desta vez apelar aos partidos para que aprovassem este mau OE-2010.

Luís Mira Amaral

Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
SIMPLES COMO A ÁGUA LIMPIDA...
a_Razao (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 18:38 | Domingo, 7 de março de 2010
Só há uma maneira, de endireitar as finanças deste país: as públicas e as privadas !

«Aumentar o poder de compra dos portugueses!»

Eleva o consumo; provoca no inicio, mais importações, mas mais tarde estimula o crescimento produtivo interno; e, o Estado, recebe mais nos impostos, deminuindo assim o défice público.
Que raio! Com tanto artista na economia, não são capazes de ver uma coisa que toda a gente simples do povo vê?
 
 Regras da comunidade
È a este Sampaio que se se refere?
jpafonso (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 13:25 | Domingo, 7 de março de 2010
Uma pergunta inocente: Na última referência a Sampaio, estamos a falar do real (Sampaio), ou de um em forma figurativa (o "Sampaio" de agora)? Tendo-me escapado as possíveis recentes intervenções do primeiro, não consigo deixar de notar que a suavização da postura do PSD em relação à aprovação do orçamento ocorre depois de um apelo do actual Presidente. É a este "Sampaio" que se se refere?

De resto, é um artigo que leio bem. Por mais que possamos contestar as agências de rating, as dificuldades que elas nos trazem são bem reais (e também os benefícios se cairmos no lado certo delas).
 
 Regras da comunidade
Indegestão!
Runaldinho (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 18:26 | Domingo, 7 de março de 2010
"Já no Governo PSD-PP, devo ter sido o único não socialista a criticar a incapacidade que Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, dois dos mais incompetentes ministros das Finanças que este país teve, mostravam!"

Reconheço muitos defeitos a estes dois personagens, e pessoalmente não concordo com eles em muitas das medidas tomadas, mas chamar-lhes incompetentes soa a azedume!
Eu sei que V.Exª os criticou por depois de se ter reformado principescamente na CGD, acabar por ver reduzida a sua pensão de reforma!
 
 Regras da comunidade
Autismo e agências de rating
Cool Carlos (seguir utilizador), 1 ponto , 13:58 | Terça feira, 9 de março de 2010
Um excelente artigo que demonstra bem quão difícil é retirar a política politiqueira das realidades objectivas do país.
Ou melhor, de como não existe consenso mínimo de base ao nível dos mais esclarecidos em torno das fragilidades estruturais da economia portuguesa.E logo na busca de formas de superação em contexto internacional circunstancial que sempre foi, e apenas, um factor de agravamento.
Fica tambem comprovado, e mais uma vez, que só por pressão externa é que se faz aqui dentro aquilo que deveria ser feito por iniciativa soberana.
Claro que o peso das agências de rating é excessivo, para não dizer abusivo por vezes, mas é este o enquadramento geral que não vai ser alterado.
Aos países já tão dependentes de financiamentos externos só resta retomar o caminho da gestão prudente das finanças públicas e para isso os partidos do arco da governação - TODOS - deveriam demonstrar muito maior conhecimento e sentido de Estado quando no governo como na oposição.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Os fundos de pensões
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012,
Racionalidade empresarial: um dever inalienável
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012,
O sistema de pensões
0:00 Sábado, 7 de janeiro de 2012,
Austeridade e pensionistas
0:00 Sábado, 10 de dezembro de 2011,
Tecnologias tropicais - um ativo da lusofonia
0:00 Sábado, 26 de novembro de 2011,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP