O assassínio de Mahmoud al-Mabhouh no Dubai é um recado de Israel ao Hamas, aos países do Golfo Pérsico e ao Irão.
A melhor maneira de compreender o que está a acontecer é olhar para uma série de viagens nas últimas duas semanas. A lista é um pouco longa mas é esclarecedora.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, esteve em Moscovo no dia 15 para conversações com o Presidente russo, Dmitry Medvedev. Ehud Barack, ministro da Defesa de Israel, esteve esta semana em Washington. O seu colega Moshe Yalon, ministro dos Assuntos Estratégicos, esteve em Pequim. Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, esteve no Qatar e na Arábia Saudita no dia 15 e 16. Altos funcionários do Departamento de Estado americano estiveram no Egipto, Israel, Síria e Líbano (actualmente membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas). O almirante Michael Mullen, chefe do Estado-Maior-Conjunto das Forças Armadas dos EUA, passou a semana passada em viagem pelo Egipto, Israel, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O ministro da Defesa iraniano, Ahmad Vahidi, esteve esta semana no Qatar. Ali Larijani, presidente do Parlamento iraniano, foi a Tóquio. Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do Irão, foi à Síria.
O tema comum a todas estas viagens é o programa nuclear iraniano. A semana passada, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) declarou que o Irão tem estado a trabalhar no desenvolvimento de uma ogiva nuclear. A posição da AIEA é importante. Um programa nuclear militar credível do ponto de vista estratégico exige três coisas: mísseis balísticos, capacidade para enriquecer urânio e uma ogiva nuclear. O Irão está a trabalhar em todas estas áreas. Isto não prova que Teerão já tomou a decisão de ter um programa nuclear militar. Mas mostra que os decisores iranianos estarão em condições de tomar esta decisão num prazo relativamente curto. Ou seja, a janela para pressionar o Irão do ponto de vista político, económico e militar está a fechar-se.
Este facto explica o que vamos ler, ver e ouvir nas próximas semanas e meses - uma intensa discussão sobre o tipo de sanções a aplicar a Teerão. A Administração Obama prefere que as sanções tenham por alvo os líderes e as empresas dos Guardas Revolucionários. Israel defende a aplicação de um duro embargo contra toda a economia iraniana. O objectivo deste embargo seria fomentar a instabilidade interna e ameaçar a sobrevivência do regime. Os países árabes e a Rússia defenderão a ressurreição do processo de paz entre palestinianos e israelitas como forma de aliviar a pressão regional.
Tudo isto esconde uma coisa decisiva. A discussão à volta das sanções e do processo de paz é uma maneira de toda a gente ganhar tempo. Estamos na fase em que toda a gente está a chutar para canto. O problema é que o tempo está a acabar. A dura realidade é que a proposta apresentada pela AIEA em Outubro do ano passado foi rejeitada pelos decisores iranianos.
Em 2009, Teerão acabou a sua transição do despotismo religioso para a ditadura militar. O regime pode ter perdido a sua legitimidade interna, as prisões cheias e a economia cada vez pior, mas os generais dos Guardas Revolucionários não deverão aceitar um compromisso em relação ao programa nuclear. Para estes generais, o empenhamento dos EUA no Afeganistão e no Iraque e a dependência da economia internacional em relação ao preço do petróleo aumentam a sua margem de manobra estratégica regional.
O que é que resta então? Restam três coisas. A primeira é um ataque militar preventivo contra o Irão. A segunda é a sabotagem do seu programa nuclear. A terceira é um Irão com armas nucleares. Esta última parece-me ser a mais provável. Se isso acontecer, o tremor de terra geopolítico a nível regional será considerável. 2010 promete ser um ano complicado no Médio Oriente e Golfo Pérsico.
Nuclear
2010 está a ser o ano em que toda a gente procura ganhar tempo em relação ao programa nuclear iraniano. O debate à volta das sanções esconde o colapso da proposta apresentada o ano passado ao Irão pela Agência Internacional de Energia Atómica
Barómetro
+ Viktor Yanukovich, o novo Presidente da Ucrânia, fará a sua primeira viagem ao estrangeiro na próxima segunda-feira. O destino é Bruxelas
- A morte do prisioneiro político Orlando Zapata Tamayo, em Cuba
Miguel Monjardino
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010