|
|
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
|
|
12:27 Quarta-feira, 20 de Jan de 2010
|
Os evolucionistas admitem há muito que a selecção natural foi influenciada por alterações do meio ambiente. Admitem, por exemplo, que as alterações climáticas teriam transformado as florestas onde os nossos antepassados remotos viviam, criando savanas. Questionam se essa transformação não teria acelerado a adopção de uma postura erecta, com todas as correlativas transformações do crânio e do cérebro que nos tornaram o que hoje somos.
Mais recentemente, começaram a discutir se, além dessa influência, não haveria uma outra, a da própria sociedade humana, que poderia ter acelerado as mudanças genéticas. Há algumas décadas, a simples colocação do problema teria enfurecido muitos dos que denunciavam, com razão, extrapolações evolucionistas para teorias e práticas deploráveis, de que é exemplo a eugenia. Esta última, criada pelo naturalista inglês Francis Galton, primo de Charles Darwin, preconizava que se acelerasse a evolução fomentando a procriação dos mais aptos. Na reacção à eugenia, além de argumentos morais decisivos, estava subjacente a ideia de que a selecção é um processo muito lento, com um horizonte temporal de centenas de milhares de anos, e que o desenvolvimento das sociedades humanas teria secundarizado os factores da evolução biológica. A cultura teria tomado conta do palco.
Segundo discutem hoje os evolucionistas, a cultura terá mesmo tomado o palco, mas também na selecção natural. A alteração genética, sempre em acção, mesmo nos nossos dias, terá sido influenciada e acelerada pelas nossas atitudes culturais, ou seja, pelos comportamentos transmitidos por ensino directo, pela imitação e por outras formas de interacção social. Um exemplo dessa influência é a decorrente da introdução do pastoreio nas sociedades pré-históricas. Várias investigações têm mostrado que o pastoreio e a pecuária favoreceram uma evolução biológica positiva de tolerância ao leite nos adultos.
Outro exemplo muito estudado é o da rápida mudança genética de algumas populações da África Ocidental, que aumentaram a resistência à malária. Acredita-se que essa mudança deriva da devastação de florestas pela introdução da agricultura de tubérculos. A remoção das árvores criou áreas sujeitas à saturação de águas superficiais, favorecendo a propagação de mosquitos portadores da malária. Os mais resistentes teriam sobrevivido.
Cita-se também o crescimento da espessura dos cabelos humanos operada em poucos milhares de anos em algumas zonas do globo. Pensa-se que a mudança está associada ao surgimento de uma preferência sexual por indivíduos de cabelo mais forte. Em algumas sociedades, o aparecimento dessa preferência terá acelerado essa mudança, e com uma rapidez muito maior do que a que seria de esperar da selecção biológica pura.
Para medir a influência da cultura na evolução há um instrumento decisivo: os modelos matemáticos. São os modelos matemáticos de co-evolução gene/cultura que permitem calcular as velocidades teóricas de propagação de traços genéticos em cenários diversos. Se apenas entrar em acção a aleatoriedade evolutiva, a velocidade de mudança é uma. Se houver uma selecção positiva influenciada pelas atitudes culturais, a velocidade de difusão dos novos traços é outra. Mais uma vez, é preciso fazer as contas. E as contas parecem mostrar que a cultura é um factor a ter em conta.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
0:00 Quarta-feira, 13 de Jan de 2010
|
Um dia de Inverno, ao fim da tarde, fazia já escuro, passava eu com o meu pai pela rua de Arroios e um grupo de operários, à porta de uma oficina, abordou-nos: "Faz favor, diz-nos as horas?". Ergui o pulso, orgulhoso com o meu novo relógio, a que dava corda religiosamente, todas as noites, e disse-lhes. "São quase sete!". Imagino que estivessem à espera de transporte e lembro-me que estava contente por ter sido útil. Devia ter os meus oito ou nove anos.
Continuámos pela rua e deixámos para trás os operários. "Reparaste quantos homens ali estavam?", perguntou-me o meu pai, "Uns 15 ou 20. E nenhum deles tinha relógio. Nenhum deles tem dinheiro para comprar um relógio".
Na altura um relógio era um instrumento caro. Muitos dos meus colegas na escola não o possuíam. Era um presente que as famílias que o podiam fazer davam aos jovens quando eles passavam a primária, ou mesmo mais tarde. Ia já no meu segundo ou terceiro emprego quando me lembro de ter quebrado um relógio, ter atravessado a rua e comprado outro. Surpreendi-me com o à-vontade. Anos antes seria preciso ser-se rico para comprar um relógio assim, do outro lado da rua, num impulso. Hoje, muitos jovens mudam de relógio num impulso ainda mais ligeiro, só porque estão fartos da cor da pulseira e porque apareceu um novo modelo, cheio de desenhos psicadélicos.
O que tornou possível esta revolução nos preços foi um avanço tecnológico que perfez agora 40 anos: o quartzo. Com efeito, foi em 1969, que a Seiko, no Japão, e a Hamilton Watch, nos Estados Unidos, apresentaram os seus primeiros modelos de relógios de quartzo de pulso, e foi nos primeiros meses de 1970 que esses novos instrumentos chegaram aos mercados mundiais. A princípio, a grande novidade era não se ter de dar a corda ao relógio todos os dias; depois, foi a fiabilidade; finalmente, foi a incrível descida dos preços. Foi um progresso vertiginoso, que é descrito em pormenor na monumental obra de David S. Landes, "A Revolução no Tempo", acabada de sair entre nós. Vale a pena ler de uma ponta a outra essa fascinante referência, que nos mostra como a medida do tempo tem mudado as nossas vidas.
Para completar a história do quartzo, é preciso recuar mais de um século, até 1880, quando os irmãos Jacques e Pierre Curie, este último futuro marido da famosa madame Curie, descobriram um comportamento estranho nos cristais de quartzo e noutros do mesmo tipo (hemiédrico). Submetidos a pressão, esses cristais desenvolvem cargas eléctricas de sinais contrários nos seus extremos; submetidos a uma carga eléctrica, deformam-se. É o chamado efeito piezoeléctrico.
A vibração dos cristais é muito precisa, de tal forma que, iniciando-a e mantendo-a com uma pequena carga eléctrica, o quartzo reage e gera um sinal eléctrico que funciona como oscilador e regulador do tempo. O princípio é o mesmo do de um pêndulo que bate os segundos num relógio de parede ou de uma mola que oscila nos relógios mecânicos mais pequenos. Só que os osciladores de quartzo são muito mais precisos e permitem por isso uma fiabilidade muito maior. Antigamente, os relógios mecânicos usuais atrasavam-se ou adiantavam-se cerca de um segundo por dia. Hoje, os vulgares relógios de quartzo mantêm um erro muito inferior a um segundo por ano. E são mais baratos. Felizmente, quando hoje me perguntam as horas na rua, não é por falta de dinheiro para comprar um relógio.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
13:11 Quarta-feira, 6 de Jan de 2010
|
Conta-se que era uma mulher atraente, que resistia aos seus numerosos pretendentes e que mantinha ostensivamente o celibato. Conta-se que era uma grande matemática e filósofa, que estudara em Atenas e vivia na agitada Alexandria, na época em que o helenismo, o judaísmo e o cristianismo se digladiavam no Império. Conta-se que foi morta violentamente por uma turba de religiosos fanáticos, quase certamente instigados pelo bispo Cirilo, Patriarca de Alexandria. Tudo isto que se conta sobre Hipátia de Alexandria (c. 355-415) é a verdade histórica, ou seja, o que se conhece com a segurança possível.
É sobre isto que fala, com bastante fidelidade, o filme "Ágora", actualmente em exibição entre nós. Retrata uma época em que as discussões civilizadas da praça pública grega, a ágora, tinham dado lugar à violência das turbas. As personagens, nomeadamente Amónio, Orestes, Cirilo e Sinésio, são figuras históricas, retratadas com alguma veracidade. Igualmente fidedigna é a descrição de Theon, o pai de Hipátia.
Theon foi um matemático famoso. Era bibliotecário em Alexandria e deixou vários comentários, ou seja, textos clássicos rescritos e desenvolvidos de forma a poderem ser difundidos e estudados. Não se lhe conhecem criações matemáticas originais, mas a qualidade dos seus textos impôs-se ao longo dos séculos, tendo chegado até aos estudiosos árabes. Sabe-se que Hipátia colaborou com ele em algumas edições, nomeadamente nas "Tabelas Práticas de Ptolomeu" e na "Aritmética de Diofanto". Terá sido ela quem fez e corrigiu alguns cálculos de várias obras. Sabe-se ainda que escreveu um comentário aos livros "As Cónicas", de Apolónio. Pouco mais se sabe sobre esta figura romântica da história da matemática, mas quem quiser conhecê-la melhor poderá ler Hipátia de Alexandria (Relógio D'Água), um breve estudo de Maria Dzielska que é a melhor fonte moderna sobre a cientista alexandrina.
O filme, que noutros aspectos tem preocupações históricas bastante louváveis, apesar de ser tão primariamente crítico do cristianismo primitivo que perde por esse primarismo, abandona aventurosamente a realidade quando fala das investigações de Hipátia. A matemática e astrónoma alexandrina aparece como tentando conciliar o modelo heliocêntrico de Aristarco com o modelo geocêntrico de Ptolomeu. Não há nenhuma base para essa presunção. O modelo de Aristarco era então apenas uma curiosidade algo absurda, e só em 1543 foi reavivado com o trabalho de Copérnico.
Entre outras desproporcionadas referências, o filme coloca Hipátia num navio, explicando ao prefeito romano Orestes a relatividade do movimento, um conceito avançado por Galileu 12 séculos mais tarde. Noutra cena, Hipátia discorre sobre a variação da distância da Terra ao Sol e tenta criar um modelo que consiga explicar essa variação sem círculos sobre círculos, os célebres epiciclos. Aí, os consultores do realizador esquecem os círculos excêntricos, com que Ptolomeu resolveu admiravelmente esse problema cosmológico. Numa das cenas mais exageradas da película, Hipátia conclui que as órbitas dos planetas devem ser elípticas, uma conclusão que escapou a Copérnico, a Galileu e a tantos outros e que demorou a Kepler uma vida de cálculos laboriosos para poder ser formulada.
É pena que estas invenções se juntem a outras falhas que tornam o filme menos interessante e menos credível. É pena, pois Hipátia é uma grande figura. É a primeira mulher matemática e os historiadores associam a sua morte ao fim da matemática helénica. Séculos passaram até que na ágora se voltasse a amar a ciência.
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
1:23 Quinta-feira, 31 de Dez de 2009
|
Na Universidade do Estado do Texas, em Huntsville, o professor John M. De Castro dedica-se ao estudo dos hábitos alimentares. Ao longo dos anos tem produzido um número impressionante de trabalhos sobre os condicionantes da dieta humana. Recruta voluntários a quem pede para anotarem durante semanas tudo o que comeram, quando comeram, onde e como comeram. Estuda depois os dados com métodos estatísticos rigorosos.
Há tempos, lendo um interessante livro de Christian Camara e Claudine Gaston ("Pourquoi les marmottes ne fêtent pas le nouvel an?"), reparei que estes dois divulgadores científicos se divertiam a imaginar como comeria o dr. De Castro e como seria o seu dia-a-dia. Talvez ele se distraísse pouco, fizesse uma vida solitária e andasse tristonho pelas ruas. Pelo menos, segundo os seus artigos, é a melhor maneira de não comer de mais.
Fui ler alguns estudos do insigne psicólogo. Um dos mais citados analisa os hábitos alimentares de gémeos monozigóticos que vivem separados. Conclui que os genes determinam quase metade das características alimentares das pessoas, sendo a outra parte derivada do ambiente. Em alguns aspectos, a influência é menor. O excesso de consumo, em particular, parece ser quase todo derivado da permissividade no ambiente familiar de infância. Mas a maneira como esse excesso se repercute na obesidade advém sobretudo de factores genéticos.
Noutro estudo, o psicólogo texano mostra como é importante tomar um bom pequeno almoço, almoçar razoavelmente e comer pouco ao jantar. Parece sensato. Mas quando o dr. De Castro estuda o ambiente em que se tomam as refeições, as coisas tornam-se pretas. Os exageros na comida estão associados ao tempo que se passa à mesa e ao número de convivas. Em média, quando tomamos uma refeição com alguém comemos mais 33% do que quando estamos sozinhos. Se formos três, cada um de nós come 47% mais; se formos quatro, 58%, e por aí adiante. Não há dúvida! O dr. De Castro passou a consoada sozinho e vai entrar no Ano Novo na mesma companhia.
Suspeito também que o seu réveillon se passe em silêncio. Os seus estudos concluíram que a música de fundo propicia um aumento de quase 20% de calorias consumidas e de 30% de bebidas. Ainda mais assustador é o que acontece com a luz. As suas investigações têm concluído que uma boa iluminação, natural ou artificial, talvez por criar um ambiente agradável, propicia um repasto saturado. Imagino que o dr. De Castro passe a noite de Ano Novo às escuras.
Fiquei definitivamente assustado quando li um artigo que ele escreveu em 1993. Mostra uma relação positiva entre a fase da Lua e o excesso alimentar. A correlação não é grande (cerca de 8%), mas é positiva. Pensei que o melhor seria virar as costas para a Lua e fechar as janelas. Mas o seu estudo, na sequência de outros que indicam a existência de ritmos biológicos alinhados com o ciclo lunar, conclui que a influência é inevitável, embora moderada, e que não depende da exposição à Lua. Assustado, fui ver o almanaque e confirmei as minhas piores premonições. A lua cheia acontece este 31 de Dezembro.
Pensei melhor. Este fim de ano, pelo menos, vou tentar esquecer-me do dr. De Castro. Talvez me relembre dos seus conselhos já entrado em 2010.
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
23:11 Sábado, 19 de Dez de 2009
|
Não e só no Carnaval que se pregam partidas. Nesta época festiva, o Pai Natal anda pelas lojas a inventar promoções especiais. No outro dia encontrei-o junto às prateleiras do supermercado, mesmo ao pé dos pacotes de sumo de laranja. Estava a rir-se às bandeiras despregadas. "Imagina tu", disse-me ele, "que acabei de fazer um acordo com o gerente que me vai permitir comprar um número ilimitado de presentes para a criançada."
Explicou-se. O gerente tinha uma promoção de sumo de laranja com 20% de desconto. Cada litro, que originalmente custava um euro, ficava a 80 cêntimos. O Pai Natal propôs-lhe uma coisa diferente. Ele venderia pacotes com 1,2 litros pelo preço de um litro. Por cada litro oferecia 20% de sumo adicional.
"Mas isso é o mesmo! É uma promoção de 20%" exclamei. "Foi o que o gerente me disse", respondeu-me o velhote, "e eu propus-lhe um negócio; comprava-lhe todo o sumo que tivesse e depois, ainda lhe fazia um favor, vendia-lhe o mesmo sumo com uma promoção de 22%. Por cada euro que ele me desse dava-lhe 1,22 litros de sumo."
Comecei a pensar que o Pai Natal estava pílulas, mas já o ano passado ele me tinha pregado uma partida em que me saí mal e resolvi calar-me. O homem continuava a rir-se: "Depois ainda fiz melhor, combinei que podia repetir o processo. Ou seja, depois da compra e venda, comprar-lhe-ia tudo outra vez a 80 cêntimos por litro e revender-lhe-ia a um euro por cada 1,22 litros. Se fizer isto muitas vezes arranjo dinheiro para comprar presentes para todos os miúdos do mundo."
Comecei a perceber. O velhote, afinal, vendia o sumo a quase 82 cêntimos por litro, que é o que arrecada de vender 1,22 litros por um euro. Se repetisse a brincadeira podia fazer o dinheiro que quisesse. O homem viu-me a pensar e concluiu: "Este pessoal julga que um desconto de 20% é o mesmo que uma promoção de 20%; se calhar, quando vão ao banco, pensam que uma taxa de juro de 12% ao ano dá 1% ao mês. Grandes totós!"
Hesitei um pouco: então 12 a dividir por 12 não é 1? Mas desta vez o Pai Natal estava mais cooperativo: "Se me deres cem euros e eu os puser no banco a 1% ao mês, ao fim de um mês tenho 101 euros. Volto a depositá-lo e ao fim do segundo mês tenho 102,01. Repetindo o processo, ao fim dos doze meses tenho mais de 112,68 euros. É pouco mais do que os 112 que resultam dos 12% ao ano, mas imagina que puseste no banco cem mil euros, a diferença já é razoável."
"É a diferença entre juro composto e simples", aventurei; mas o Pai Natal não gostou do atrevimento: "Ah, com que então achas-te muito espertinho?! Pois vê se respondes a esta: 'Se um relógio demora seis segundos a bater as seis horas, quanto tempo demora a bater as doze?' Aposto cem euros em como te enganas."
Fiz a aposta e perdi. Não é que bater seis badaladas demora menos de metade do que 12? Raio do velhote! Vou ver se recupero o meu dinheiro repetindo a aposta no Ano Novo. Há aí muito pessoal avesso às contas que vai cair na partida.
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
0:01 Quarta-feira, 16 de Dez de 2009
|
Onésimo Teotónio de Almeida escreveu um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos. Intitula-se "De Marx a Darwin" e saiu há pouco. Explica como o ponto de vista marxista, dominante numa corrente de intelectuais europeus e norte-americanos de meados do século XX, começou a ser substituído por referências continuadas ao darwinismo. Para muitos intelectuais, e não apenas para biólogos evolucionistas, Darwin tornou-se uma referência maior do pensamento moderno.
Karl Marx (1818-1883) e Charles Darwin (1809-1882) foram contemporâneos. O primeiro foi uma referência marcante da filosofia, economia e política dos séculos XIX e XX; foi um revolucionário consciente e teve pretensões de criar uma doutrina que fornecesse uma visão completa do mundo. O segundo criou uma revolução na biologia; era um homem pacato, modesto e sem ambições de mudar sequer a sua aldeia. A doutrina de Marx teve os seus dias. E a de Darwin está a ter os seus. Não exactamente por contraposição a Marx, mas sim a uma corrente pós-moderna, influenciada nas intenções e na crítica social pelo marxismo, mas oposta a vários pontos-chave da doutrina de Marx.
O pós-modernismo critica as ditas "grandes utopias" - que deverão incluir as marxistas -, rejeita as ditas "grandes narrativas" - que deverão incluir as revolucionárias - e descrê da capacidade de a ciência fornecer algum conhecimento objectivo sobre a realidade - também aqui contraria Marx e Lenine, que acreditavam no "socialismo científico". Os críticos pós-modernos, como Jacques Derrida, sublinham o aspecto cultural da literatura e da vida, rejeitando a ideia de uma natureza humana ou de algo que possa não ser socialmente construído. Tudo é texto e tudo é impossível de ser finalmente entendido, porque tudo é contraditório. E se isto não se perceber, é porque também é um texto. Percebe-se?!
Psicólogos, paleontólogos e muitos cientistas contemporâneos têm vindo, mesmo que inconscientemente, a pôr em causa estas ideias. Pouco a pouco, tem-se visto que há traços comuns às sociedades e aos homens que não podem ser explicados pela cultura. Matemáticos e biólogos têm aplicado a teoria dos jogos à explicação de muitos traços do comportamento humano. Psicólogos têm descoberto que há conceitos geométricos inerentes ao nosso cérebro. A luta pela sobrevivência e a evolução de milhões de anos moldaram-nos para agirmos de determinada maneira. Em muitos aspectos da vida, a natureza impõe-se à cultura. É a desafronta de Darwin.
Joseph Carroll, Jonathan Gottschall e outros críticos modernos dizem-se partidários de "estudos literários darwinianos", tentando ver na literatura a descrição do comportamento humano, incluindo o biológico. Há que procurar explicações fora dos textos, sublinham. A teoria literária e os estudos culturais pós-modernos atrofiaram a crítica literária - dizem -, tornaram-na incompreensível e virada para a desconstrução da narrativa, destruindo a apreciação da grande literatura.
David Sloan Wilson, o biólogo que escreveu o recente best-seller "A Evolução para Todos", onde mostra como o evolucionismo ajuda a explicar muito do nosso comportamento, dos mexericos aos símbolos de poder, dizia que a literatura é uma fonte imensa de informação sobre o comportamento humano, "é a história natural da nossa espécie". O ano de Darwin está a acabar. A influência cultural de Darwin não.
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
0:01 Quarta-feira, 2 de Dez de 2009
|
O chocolate faz bem - é o que se tem concluído de há algum tempo a esta parte a partir de investigações feitas por nutricionistas e fisiólogos. Ou seja, como gostam algumas pessoas de dizer, "a ciência diz que o chocolate faz bem". Os gulosos ficam contentes.
Chegou-nos há dias mais uma notícia desse género. Investigadores suíços e alemães publicaram no "Journal of Proteome Research", da sociedade norte-americana de química, um artigo sobre os efeitos metabólicos do chocolate, realçando os seus resultados benéficos para o organismo.
Na realidade, dizer que "o chocolate faz bem" é muito pouco. Os investigadores têm sido e são muito mais específicos, caracterizam o tipo de chocolate e explicam os seus efeitos em alguns aspectos do nosso metabolismo e para determinadas quantidades do produto. Há, como se sabe, vários tipos de chocolate. Há o dito escuro, ou negro, que é aquele que tem sido estudado, pois os outros, como o "branco" e "de leite", contêm percentagens elevadas de gordura animal. O negro não pode conter leite e, dizem as directivas comunitárias, terá de ter pelo menos 35% de sólidos de cacau; o remanescente costuma ser manteiga de cacau e açúcar.
Os autores do estudo deram 40 gramas diários de chocolate negro com 74% de sólidos de cacau durante 14 dias a um grupo de 30 pessoas. Os indivíduos, entre os 18 e os 34 anos, tinham antes sido sujeitas a um questionário feito por psicólogos e revelavam traços de ansiedade, de moderada a elevada. A escolha foi feita de forma aleatória, de entre um grupo de pessoas saudáveis na mesma faixa etária. O que se analisou foram fluidos biológicos dos sujeitos (urina e plasma sanguíneo) em três ocasiões: antes do início do teste, passada uma semana e no fim das duas semanas. Na semana antes do teste, os voluntários não ingeriram chocolate.
Os fluidos biológicos dos sujeitos foram analisados com técnicas de Ressonância Magnética Nuclear (NMR) e de Espectroscopia de Massa (MS), que permitiram detectar modificações significativas nas componentes dos fluidos. Os investigadores concluíram que o chocolate tem alguma influência positiva no metabolismo humano, actuando por via da actividade da flora bacteriana intestinal e reduzindo as hormonas de stress e outros elementos associados à ansiedade.
A análise estatística dos resultados é igualmente sofisticada e completa. Além de técnicas de análise estatística multivariada, foram feitos vários testes de significância que concluem pela existência de modificações no metabolismo dos sujeitos de estudo.
Depois de tudo isto, os investigadores escrevem as conclusões com muitas reticências. Dizem que o estudo "apoia a ideia de..." e falam de "efeito potencial". Ficámos a saber mais sobre algumas consequências positivos do consumo do chocolate negro para o metabolismo das pessoas ansiosas, mas nada mais do que isso. Lendo estes estudos fica-se ainda mais céptico sobre as conclusões precipitadas que se tiram sobre fenómenos ainda mais complexos, como os métodos de ensino ditos revolucionários ou a influência da tecnologia na vida das sociedades. A verdadeira ciência é sempre uma lição de modéstia.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
9:00 Domingo, 22 de Nov de 2009
|
Chama-se Mónica Bettencourt Dias e tem um currículo invejável. Muitos catedráticos portugueses gostariam de ter uma biografia científica igualmente ilustre. A Organização Europeia da Biologia Molecular, EMBO, distinguiu-a há pouco, considerando-a um dos mais promissores jovens cientistas europeus. Regressou a Portugal depois de ter iniciado com sucesso uma carreira científica em Inglaterra e chefia um grupo de investigação. Apesar de tudo isto, está ainda a viver com base em bolsas, sem lugar definitivo numa universidade ou instituto de investigação.
É uma história notável, mas há histórias semelhantes no Portugal recente. O número de doutorados no país cresceu espectacularmente, as publicações em revistas científicas internacionais aumentaram de forma surpreendente e a participação crescente de jovens cientistas em projectos internacionais é um motivo de orgulho para todos. Motivo de orgulho é também o nosso sucesso nas Olimpíadas Internacionais de Matemática e em outras competições internacionais. Nunca os nossos jovens representantes tiveram resultados tão bons como os obtidos nos últimos anos.
Um marciano que descesse à Terra concluiria que Portugal tem um sistema de ensino excelente, que consegue formar talentos matemáticos ainda na adolescência e preparar cientistas jovens. No entanto, se o mesmo marciano resolvesse olhar para as comparações internacionais, nomeadamente para os resultados dos inquéritos TIMSS e PISA, veria que em matemática e nas ciências o nosso sistema de ensino tem problemas muito graves, que se estendem ao ensino da língua e a outras áreas.
O contraste entre os resultados da investigação científica e os do ensino deve ser, em alguma medida, explicável pelas diferentes políticas seguidas nestas duas áreas. Em ciência, optou-se pelo investimento a longo prazo, deu-se prioridade ao saber e fomentou-se a ida dos jovens para países e universidades que lhes ensinaram seriamente a área científica que preferiam. Na educação, insistiu-se que os jovens deveriam "aprender a aprender" e "desenvolver competências". O saber ficou para segundo lugar.
Em ciência, em vez de baixar os níveis de exigência com pretexto na "escola inclusiva", ou nas dificuldades dos mais desfavorecidos, abriram-se oportunidades: quem tivesse talento e força de vontade poderia agarrá-las. Em vez de fazer provas onde o sucesso fosse garantido, privilegiaram-se métodos de avaliação aferidos pela bitola dos melhores do mundo.
Em ciência, privilegiou-se a internacionalização e não se pretendeu desculpar o nosso fraco posicionamento relativo por atrasos estruturais do país ou por condições socioeconómicas desfavorecidas. Apontou-se para cima e disse-se, desde o princípio, que o importante era alcançar resultados reconhecidos nas melhores revistas internacionais. A paróquia ficou para trás.
Em ciência, nenhum ministério pretendeu retirar liberdade aos cientistas para investigarem o que quisessem e pelos métodos que escolhessem. Mas fizeram-se avaliações impiedosas dos resultados, com avaliadores internacionais exigentes. Em educação, pelo contrário, desprezaram-se os programas e as metas, fizeram-se e fazem-se exames que nada avaliam e desculpam-se os insucessos. Ao mesmo tempo, pretende-se controlar ao pormenor os métodos pedagógicos seguidos pelos professores. Em ciência, avaliam-se os resultados e dá-se liberdade nos processos. Em educação, controlam-se os processos e não se avaliam os resultados. Assim, é difícil avançar.
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
9:00 Domingo, 15 de Nov de 2009
|
Ontem, sexta-feira 13, o filme "2012" estreou em todo o mundo; Portugal não foi excepção. É uma saga da destruição do nosso planeta, com muitos planos espectaculares. Não o vi, por isso não sei se é divertido ou se é apenas repetitivo e enfadonho. Imagino que um filme sobre o fim do mundo deva ser pândego, como muitas mortes carecas e porta-aviões a irem ao fundo. A escolha da data de estreia denota, pelo menos, algum sentido de humor.
O que não é nada divertido é que haja muita gente a levar a sério os receios de um cataclismo cósmico para esse ano de 2012. O alarme começou há algum tempo. Em 1975, Frank Waters, um autor sensacionalista, detectou uma curiosidade no calendário maia, que em 2012 acabará um ciclo, e especulou sobre um cataclismo que lhe estaria associado. Em 1987, José Argueles, que se autoproclama "historiador visionário", juntou-se aos alarmistas. E, em 1995, John M. Jenkins, escreveu novo livro sobre a "Cosmogénese Maia", juntando mais umas pitadas às previsões de catástrofe. Daí para cá, muita gente tem ganho dinheiro à custa dos incautos.
As previsões do fim do mundo não são novas. No fim do primeiro milénio, muita gente pensava que o juízo final chegaria com o ano 1000. Em 2000, houve quem receasse o mesmo, o que leva a concluir que não basta o progresso para calar a ignorância. Ainda em 2000, os profetas da desgraça voltaram à carga com um alinhamento de planetas. O alinhamento realizou-se em 5 de Maio desse ano e nada aconteceu, como era de esperar - ao longo dos milénios registaram-se muitos alinhamentos de planetas, sem qualquer efeito sobre a nossa Terra. De facto, o efeito gravítico diferencial, somado, de todos os outros planetas do sistema solar sobre o nosso é muito menor do que o da Lua. E se o leitor colocar uma maçã perto da sua cabeça, o correspondente efeito de maré que sofre é maior que o de um alinhamento de planetas - o físico Lawrence Krauss deu-se ao trabalho de o calcular. Não obstante esta desmistificação e não obstante as lições dos alinhamentos passados, os alarmistas voltam a prever desastres para 21 de Dezembro de 2012, data em que anunciam novo alinhamento planetário. O cúmulo do ridículo, como se tudo isto não bastasse, é que nessa data não haverá nenhum alinhamento: Júpiter estará numa direcção, Saturno noutra, e por aí adiante.
A fabricação do ano 2012 como ano catastrófico baseia-se numa infantilidade. Estudando o calendário maia, os profetas da desgraça notaram que este se baseia em ciclos dentro de ciclos. Há três ciclos menores, de 13, 20 e 365 dias, respectivamente. E há ciclos de contagem longa, que culminam no baktun, compreendendo 144 mil dias. Segundo os cálculos modernos, imagina-se que o calendário maia tenha começado dia 8 de Setembro de 3114 (a.C., calendário juliano). Pelo que o dia 23 de Dezembro de 2012 seria o fim de um ciclo de 13 baktun. Na notação maia, isso significa que esse dia apenas poderia ser escrito como uma série de zeros, pois não haveria mais símbolos para o denotar. Pensar que isso acarreta o fim do mundo é tão ingénuo como imaginar que um carro explode quando o contador de quilómetros percorridos dá a volta e fica a zeros.
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009
|
|
|
Nuno Crato (www.expresso.pt)
|
9:00 Domingo, 8 de Nov de 2009
|
Será que as tempestades na Florida foram causadas por uma insignificante borboleta que agitou indevidamente as asas em Madagáscar? Ninguém acreditará que isso seja possível, mas é um dito que se tornou moda. Foi inventado pelo escritor de ficção científica Ray Bradbury, em 1952. Usa-se hoje para descrever o conceito matemático de caos.
A ideia é antiga. Já em 1860 o físico escocês James Clerk Maxwell falava da possibilidade de pequenas colisões entre moléculas criarem turbulência em gases. Trinta anos mais tarde, o matemático Henri Poincaré descobriu que um sistema gravitacional de três corpos, como o do Sol, Terra e Lua, podia ser muito instável. Mas foi o matemático e meteorologista Edward Lorenz que posteriormente tornou a ideia popular.
O interesse de Lorenz pelo problema despertou em 1961. Estava na altura a trabalhar num programa de computador para previsão do tempo e truncou um parâmetro. Em vez de introduzir 0,506127, escreveu 0,506, pensando que o resultado não iria diferir muito. Enganou-se. A previsão ficou completamente diferente. Lorenz corrigiu os dados e voltou a correr o programa. Obteve as previsões anteriores. Mas, em vez de ficar satisfeito com isso, interrogou-se sobre o que se tinha passado. Trabalhou o problema de forma mais geral e verificou que há sistemas matemáticos robustos, em que uma pequena modificação nas condições de partida não altera significativamente o resultado final. Mas há outros que são caóticos, como depois se veio a dizer, pois uma pequena alteração nas condições iniciais provoca diferenças gigantescas nos resultados.
A descoberta teve um impacto profundo na matemática pura e na análise de fenómenos físicos. Tornou-se claro que, mesmo em sistemas em que nada é deixado ao acaso, a previsão torna-se extremamente falível ou mesmo impossível, a partir de certa altura, pois seria necessário conhecer os parâmetros iniciais com absoluta precisão, o que nunca acontece, para conseguir prever com rigor a evolução do sistema. Do ponto de vista filosófico, o impacto da teoria do caos foi também importante, pois percebeu-se que a imprevisibilidade pode ser inerente à nossa apreensão do mundo, mesmo que os fenómenos sejam puramente determinísticos.
Onde não há a ilusão de determinismo é no mundo quântico. As partículas subatómicas têm um comportamento que, tanto quanto se sabe, é intrinsecamente imprevisível. Num conjunto de átomos idênticos, um núcleo de um desintegra-se e o do lado fica imperturbável, sem ser possível determinar porque um se porta de uma maneira e outro de outra. Não é caos. É aleatoriedade pura.
Numa experiência recente, contudo, um grupo de físicos da Universidade do Arizona conseguiu verificar comportamentos caóticos no mundo atómico ("Nature" 461, 768-771). Submetendo átomos de césio a oscilações de um campo magnético e de um feixe laser, notaram que os átomos, portando-se como um pião, mostravam uma estabilidade dinâmica em algumas áreas, e um comportamento errático noutras, reproduzindo as distinções clássicas entre o caos e a estabilidade dinâmica. É a primeira vez que estas características caóticas são observadas num sistema quântico. Que nos vai isso trazer? A beleza da resposta é que não se sabe: a ciência também é imprevisível.
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009
|
|
|
|
|
Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
|
|
|