I. Há dias, o Sol tinha uma peça engraçada sobre os jovens valores da extrema-esquerda parlamentar (devia ser um oximoro, mas não é). Foi muito útil. Deu para perceber que o PCP ainda tem um estalinista, pior, um estalinista de 30 anos, a saber: Miguel Tiago. Ok, podem dizer que são todos estalinistas naquela bancada. Pois, mas este senhor nem sequer se dá ao trabalho de meter as luvas. Ele diz que o governo é "proto-fascista" (reparem no esforço de linguagem: o "proto" dá um ar fino; "proto-fascista" é coisa de deputado, "fascista" é para o maquinista) e que Portas e Passos são "cavalos" da "mafia capitalista". Reparem como a imagem cavalar revela um talento nato para a metáfora, uma qualidade fundamental num parlamentar. Mas, atenção, o melhor ficou para o fim. O nosso sujeito estalinista diz que "recomeçaram os trabalhos legislativos da burguesia". Eu gosto dos meus comunistas assim. Sem luvas.
II. A hipocrisia histórica do PCP é uma coisa mesmo doentia. É uma coisa para o divã da Oprah. Esta gente perseguiu culturalmente Jorge de Sena (e Sophia, e Agustina, e E. Lourenço, e V. Ferreira) durante o tempo em que o PCP manteve uma ditadura cultural em Portugal, ainda antes do 25 de Abril
. E, logo a seguir ao 25 de Abril, esta gente vetou, de bracito no ar, o regresso de Jorge de Sena a Portugal. Porquê? A heterodoxia de Sena nunca foi perdoada. Não aderir ao neorealismo era o mesmo que defender o Tarrafal. Agora, depois deste comportamento vergonhoso, esta gente reinventa a história com uma doce homenagem a Jorge de Sena
. Deem um divã ao PCP, se faz favor.