Dez anos após a transferência de administração, Macau vai passar a ter um Governo mais bilingue, já que quatro dos cinco secretários dominam a língua portuguesa. Outros titulares de cargos da cúpula da RAEM, como o Procurador, os comissários contra a Corrupção e de Auditoria, e os responsáveis pelos Serviços de Polícia Unitários e de Alfândega, falam um português fluente.
Só o novo Chefe do Executivo, Chui Sai On - tal como o seu antecessor, Edmund Ho - e o secretário para a Economia e Financas, não falam português. Mas isto não significa que Macau seja hoje uma sociedade bilingue, ou mesmo que se fale mais português que há uma década.
Dois deputados lusófonos em 29
Ao nível político, Leonel Alves, de 52 anos, integra a Assembleia Legislativa e o Conselho Executivo, o órgão de consulta do chefe do governo, de que fazem parte apenas membros de nacionalidade chinesa. Esta foi uma razão que levou o advogado nascido em Macau a trocar de nacionalidade. Recentemente eleito para presidente da Casa do Benfica, Leonel Alves diz que "continuo a pensar em português. Em termos de sangue e culturalmente sou um luso-chinês; em face da legislação, sou um cidadão chinês."
Na Assembleia Legislativa está também o macaense Pereira Coutinho. Os restantes 27 deputados são todos chineses, havendo dois que também falam português; ambos fazem parte do lote de sete deputados não eleitos, mas nomeados pelo novo Chefe do Executivo da RAEM, Chui Sai On.
Juízes, Ministério Publico e advogados
"É evidente que o domínio do português ao nível da Administração Pública diminuiu, mas além dos titulares dos principais cargos há vários directores de serviço, alguns de nacionalidade chinesa, que falam a nossa língua", nota Roldão Lopes, que dirige os Correios desde 1990.
É o caso de Costa Antunes (Turismo e Grande Prémio), Jorge Oliveira (Gabinete para os Assuntos do Direito Internacional), Manuel Neves (Inspecção de Jogos), Arnaldo Santos (Gabinete para o Desenvolvimento do Sector Energético) e Jaime Carion (Obras Públicas) - os dois primeiros oriundos de Portugal, os restantes naturais de Macau.
É na área do Direito e da Justiça que mais se faz notar a presença de Portugal. Sete juízes, três magistrados do Ministério Público e vários funcionários judiciais estão aqui colocados. Cerca de uma centena de juristas dão apoio aos membros do governo e aos vários departamentos da administração; outros tantos advogados trabalham nos escritórios e frequentam os tribunais. O número de professores ronda também a centena. Nos serviços públicos trabalham ainda dezenas de portugueses.
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| Boa Mesa é um dos vários restaurantes portugueses, com uma clientela cada vez mais chinesa |
| António Mil Homens |
Comunicação social e restaurantes
Outros profissionais que têm conseguido encontrar trabalho na RAEM são arquitectos e jornalistas. Três jornais diários, um semanário, uma revista trimestral, um canal de rádio e outro de televisão (ambos da Teledifusão de Macau, TDM), a que se junta a delegação da Lusa, continuam a informar na língua de Camões. A informação em língua inglesa, uma novidade após a mudança da bandeira, passa também por portugueses.
Em Macau, Portugal está também representada na área da restauração, já que continuam a existir vários restaurantes, cujo número de clientes chineses tem aumentado significativamente nos últimos anos. A venda de produtos portugueses, como o vinho e o porco preto, está a conquistar os chineses.
Presença económica e empresarial
Em termos económicos, destaque para dois investimentos concretizados recentemente: Vasco Pereira Coutinho abriu uma fábrica de café e Paulo Malo apostou numa clínica-spa no complexo Venetian. Com o "boom" do jogo, o BNU e o BES-Oriente têm participado nos sindicatos bancários que têm financiado a construção dos hotéis-casinos. A PT, a EDP e a ANA mantêm os interesses que já tinham em 1999, assim como a Hovione. Já a TAP está de saída.
Portugueses lideram ainda empresas de Macau, como é o caso da CESL-Ásia, cujos accionistas são os proprietários do empreendimento Campo Real, ou ligadas ao sector de projectos e obras públicas, como a Pal AsiaConsult, a Pengest e a Tecproeng.