Olá mais uma vez, cara Emily
Espero que continues bem e bem disposta (neste aspecto deves está-lo cada vez mais, não?...).
Agora que estás quase a ir-te embora da Base do Pólo Sul, quais foram, durante estes nove meses, as coisas - digamos -- "mais anormais", mais fora do comum, menos usuais em sítios "normais" como o meu?
Fica bem
Um beijo
José
Olá José,
Como vais?
As coisas mais "esquisitas", como tu lhes chamas - ou, digamos, menos normais noutras paragens - são várias, algumas das quais já te contei anteriormente. Vamos lá ver se sistematizo tudo:
1) Frieiras, lábios rebentados e hemorragias nasais.
Tudo isto são coisas correntes, porque a atmosfera seca daqui é terrível. Temos de aplicar constantemente creme nas mãos e baton do cieiro. Muitos de nós, se não praticamente todos, usam humidificadores nos quartos, para que o corpo ganhe alguma humidade enquanto dormimos. Outros gostam de ir para a estufa hidropónica, onde a humidade é uma boa loção e uma boa terapia.
2) Electricidade estática.
Praticamente todas as vezes em que tocamos numa coisa metálica (uma mesa, a maçaneta duma porta, seja o que for), apanhamos um choque. Isto aqui é tão seco (a Antárctida é o continente mais seco do planeta) que a electricidade estática irrompe à medida que caminhamos. Fazer uma cama com roupas de flanela ou de lã é como assistir a uma tempestade de luz: é ver electricidade estática azul a saltar através dos lençóis...
3) Falta de comida fresca
Durante muitos meses temos de comer comida congelada. Com excepção das verduras que íamos fazendo crescer na nossa estufa hidropónica, tudo o resto era congelado. Agora, com a chegada do primeiro avião, na semana passada, já pudemos comer fruta e ovos frescos, pela primeira vez desde Março ou Abril, como te contei na anterior conversa.
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| No dia 18 de Setembro, uma má notícia: um fungo acabou com a «plantação» de girassóis... |
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4) Check-ins rádio
Na maior parte do tempo, cada um de nós anda com um transmissor rádio, que é obrigatório levar se saímos à rua. Quando vamos lá fora temos de montar um esquema de check-in com alguém que fique dentro da Estação, para que, se não dermos notícias até à hora prevista, seja lançado o alerta. Mas foi raro isso acontecer.
5) Auroras boreais
Montes delas, durante os meses em que foi sempre de noite. Tínhamos aí umas três auroras por semana.
6) Recolha do lixo
Praticamente todo o lixo é reciclado. Todos os resíduos são separados, em 19 categorias diferentes (plástico, metal, papel, alumínio, etc.). Há recipientes para a reciclagem por toda a estação e isso para nós é uma coisa completamente normal.
7) Sistemas de emergência
Como a nossa comunidade é pequena (43 pessoas), todos têm um papel a desempenhar em caso de emergência. Eu, por exemplo, pertenço à brigada de incêndios, pelo que tive treino para procurar pessoas no meio das chamas. Outros camaradas meus estiveram na brigada de socorro médico, e por aí adiante. Copm excepção dos dois médicos, aqui na Base do Pólo Sul não há profissionais de serviços de emergência, pelo que todos têm de ajudar.
8) Limpezas
O mesmo da alínea anterior. Todos têm de participar. Uma vez por semana, todos tiveram (e ainda têm) de fazer a faxina. Definem-se áreas e a limpeza de cada uma é atribuída a uma equipa. Do mesmo modo, cada um de nós tem de ir um dia por mês para a cozinha, lavar pratos e ajudar a mantê-la asseada. A limpeza ocupa uma grande parte da vida aqui na Amundsen-Scott.
Adeus e até breve
Beijo da
Emily
A vida de Emily no Pólo Sul
O dia-a-dia da norte-americana Emily Wampler no local mais inóspito da terra, a base Amundsen-Scott, onde até Outubro é sempre de noite e a temperatura é de 60 graus negativos