Portugal é um país sui generis. Os primatas que por cá nascem andam de pé como o homo sapiens. Interiormente, contudo, quase todos vivem agachadinhos. Basta sentirem que alguma coisa que digam ou façam os pode prejudicar na sua vidinha e zás: do peito dos bravos lusitanos salta logo o 'homo agachadinhus' que trazem dentro deles. Mas o pior de tudo é desagradar ao padrinho. Isso é que nunca! Jamais! As consequências podem ser terríveis e muito duradouras!
Os sinais da má formação congénita são os seguintes: quem devia falar, não fala; quem devia escrever, não escreve; quem devia opinar, não opina. Quem devia demitir-se, não se demite.
Nem todos, contudo, sofrem do mal. Eis cinco exemplos de que assim é.
Jorge Tomé, representante da Caixa no Comité de Investimentos da PT, disse e manteve que não aprovou nem ratificou o investimento de €35 milhões que a PT Prestações fez em fundos da Ongoing. Perante as afirmações do presidente das sociedades gestoras de fundos de pensões da PT, Soares Carneiro, de que a aplicação tinha sido ratificada, afirmação corroborada por Rafael Mora, vice-presidente da Ongoing, fez o que tinha a fazer: bateu com a porta.
Fernando Ulrich, presidente do BPI, também não poupou nas palavras. "Não é edificante ver actas do conselho da PT nos jornais cujos donos têm interesse na questão". É impossível ser mais claro. O recado vai direitinho para os dois representantes da Ongoing no conselho de administração da PT e para o director do "Diário Económico". Se ética e responsabilidade social são isto, estamos conversados.
Henrique Granadeiro, chairman da PT, deu o corpo às balas no Expresso. Sobre a publicação das actas no "DE" disse que a PT foi vítima de um "acto terrorista", que considerou "indigno e uma violação grosseira do código ético da empresa" e que está instalado um clima de desconfiança à volta da mesa do conselho de administração. Deu toda a razão a Jorge Tomé, sobre a não aprovação nem ratificação do investimento nos fundos da Ongoing. E abriu a porta à demissão de Soares Carneiro.
Pedro Santos Guerreiro, director do "Jornal de Negócios", foi muito claro. O problema, como escreveu, não se resume a Jorge Tomé versus Soares Carneiro, que "deve ter a estrutura de um invertebrado, pois continua calado e alapado". O desconforto está instalado no núcleo duro accionista da PT, que envolve BES, Caixa, Ongoing, Visabeira e Controlinvest. Ou, como bem titulou, "O Pecado Mora ao Lado".
Paulo Ferreira, director-adjunto do "Público", foi muito duro. O que se conhece é apenas a ponta do icebergue. "O resto, mais escondido, são práticas empresariais pouco transparentes, trocas ilegítimas de favores, teias de interesses que se vão tecendo com o objectivo de sempre: mais do que ganhar dinheiro já, o que importa é ganhar poder, porque o dinheiro virá depois".
É consolador descobrir que, no país dos agachadinhos, nem todos sofrem do problema congénito da raça.
P.S. - O Montepio Geral aplicou €30 milhões no Fundo Ongoing International - Class A. Trata-se de um private equity, com um perfil de risco elevado e desajustado das aplicações que uma associação mutualista deveria fazer. A administração considera o caso um epifenómeno resultante do processo eleitoral em curso para aquela instituição. Mas está enganada. A aplicação existe, é a segunda mais importante do Montepio e obviamente merece uma explicação pública e cabal por parte de Tomás Correia e da sua equipa. Não o fazer é um erro - a não ser, claro, que não haja nenhuma justificação plausível.
(...) Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte serei não há cidade sem o parque do sono que vos roubei (...)
Natália Correia - A Defesa do Poeta
O BCP numa camisa de onze varas
Depois da guerra fratricida entre accionistas, que deixou o BCP à beira do abismo, eis que agora o ovo da serpente foi chocado no próprio conselho de administração. A acusação de que o vice-presidente Armando Vara pode estar ligado a uma rede tentacular que visava assegurar negócios com grandes empresas do Estado é devastadora para o próprio, mas também para a instituição.
O BCP vive no fio da navalha. Sobre ele paira o espectro da nacionalização ou do seu desmembramento. Agora ganhou mais uma camisa de onze varas. Não é só a acusação de envolvimento na tal rede. É a de ter recebido o dinheiro do suborno nas próprias instalações do banco onde é dirigente.
A suspensão imediata de funções por parte de Armando Vara, até total esclarecimento das acusações, é a única solução que pode minorar as consequências de mais um caso devastador para o banco. Tudo o resto só servirá para desmoralizar um pouco mais todos os excelentes quadros do BCP.
A melhor empresa do país
Conduril. Já ouviu este nome, caro leitor? Provavelmente não. E, no entanto, esta empresa de construção civil foi considerada pela revista "Exame" como a empresa do ano, tendo recebido essa distinção durante o jantar anual das 500 Maiores & Melhores.
Num ano em que toda a economia sofreu com a crise, e o sector de construção civil em particular, as vendas globais da Conduril cresceram 76%, atingindo €223 milhões. Grande parte do crescimento foi suportada pela aposta em mercados externos, como Angola, Moçambique e Marrocos, além da entrada no Botswana, com a adjudicação da auto-estrada Gaborone-Tlokweng, uma obra no valor de €40 milhões.
O mérito foi atribuído pelo presidente da empresa, António Amorim Martins, aos seus colaboradores, no discurso com que agradeceu o prémio.
Mas disse mais. Disse que o país precisa dos empresários portugueses e que os empresários portugueses não podem desistir de investir e arriscar, mesmo quando a situação é difícil.
A mensagem é certeira. Portugal tem de acarinhar os seus empresários. Mas espera igualmente que eles façam o seu papel. Como investidores, empregadores, inovadores - mas transmitindo também valores éticos para a sociedade.
O poderoso lóbi dos afectos
O que leva três centenas de pessoas nascidas em Angola mas há mais de três décadas a viver em Portugal a reunirem-se ao fim da tarde de uma sexta-feira? O mero lançamento de um livro? Sim, mas não só. Antes e sobretudo o facto de estarem profundamente ligadas ao país onde nasceram. Um lóbi poderosíssimo, pensará o leitor. Não, de todo. Este lóbi é apenas de afectos. Não funciona para mais nada. Mas nesse aspecto têm uma enorme capacidade de atracção. E ali estavam Alexandre Relvas, Manuel José Passarinho, Margarida Mercês de Melo, Miguel Anacoreta Correia, Luís Palha, Marta Cochat Osório, Armando Dinis da Gama, José Maria Pimentel e tantos outros que passaram pelo Liceu Salvador Correia em Luanda.
É certo que até 1974 os estudantes brancos sempre foram em muito maior número do que os negros e mestiços. Mas isso não impediu que algumas das mais altas figuras do Estado angolano, como Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara e Diógenes Boavida tenham passado pelos bancos do liceu, a par de muitos outros que hoje ocupam posições de relevo na sociedade portuguesa.
"Viva a Malta do Liceu!" é um livro incontornável, cheio de história e de histórias sobre os 90 anos do mais emblemático liceu de Angola.
O sorriso na economia
Não é fácil tornar a economia uma ciência interessante para os leigos. E não é fácil escrever sobre ela, mantendo o rigor dos conceitos mas descodificando-a para os iniciados. Mais difícil ainda é tornar divertida a compreensão dos fenómenos económicos, através de exemplos que todos compreendemos.
É tudo isto que João Duque faz no seu livro "Da Bolsa e da Vida", onde repesca uma centena de crónicas publicadas no Expresso, além de outras publicações. Em todas elas, o leitor aprende e diverte-se. Ou não será surpreendente e divertido ler sobre Bocage, Enid Blyton, Bonnie e Clyde e Tony Soprano a propósito dos fenómenos económicos?
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009