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No país dos agachadinhos

Nicolau Santos (www.expresso.pt)
8:00 Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
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Portugal é um país sui generis. Os primatas que por cá nascem andam de pé como o homo sapiens. Interiormente, contudo, quase todos vivem agachadinhos. Basta sentirem que alguma coisa que digam ou façam os pode prejudicar na sua vidinha e zás: do peito dos bravos lusitanos salta logo o 'homo agachadinhus' que trazem dentro deles. Mas o pior de tudo é desagradar ao padrinho. Isso é que nunca! Jamais! As consequências podem ser terríveis e muito duradouras!

Os sinais da má formação congénita são os seguintes: quem devia falar, não fala; quem devia escrever, não escreve; quem devia opinar, não opina. Quem devia demitir-se, não se demite.

Nem todos, contudo, sofrem do mal. Eis cinco exemplos de que assim é.

Jorge Tomé, representante da Caixa no Comité de Investimentos da PT, disse e manteve que não aprovou nem ratificou o investimento de €35 milhões que a PT Prestações fez em fundos da Ongoing. Perante as afirmações do presidente das sociedades gestoras de fundos de pensões da PT, Soares Carneiro, de que a aplicação tinha sido ratificada, afirmação corroborada por Rafael Mora, vice-presidente da Ongoing, fez o que tinha a fazer: bateu com a porta.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, também não poupou nas palavras. "Não é edificante ver actas do conselho da PT nos jornais cujos donos têm interesse na questão". É impossível ser mais claro. O recado vai direitinho para os dois representantes da Ongoing no conselho de administração da PT e para o director do "Diário Económico". Se ética e responsabilidade social são isto, estamos conversados.

Henrique Granadeiro, chairman da PT, deu o corpo às balas no Expresso. Sobre a publicação das actas no "DE" disse que a PT foi vítima de um "acto terrorista", que considerou "indigno e uma violação grosseira do código ético da empresa" e que está instalado um clima de desconfiança à volta da mesa do conselho de administração. Deu toda a razão a Jorge Tomé, sobre a não aprovação nem ratificação do investimento nos fundos da Ongoing. E abriu a porta à demissão de Soares Carneiro.

Pedro Santos Guerreiro, director do "Jornal de Negócios", foi muito claro. O problema, como escreveu, não se resume a Jorge Tomé versus Soares Carneiro, que "deve ter a estrutura de um invertebrado, pois continua calado e alapado". O desconforto está instalado no núcleo duro accionista da PT, que envolve BES, Caixa, Ongoing, Visabeira e Controlinvest. Ou, como bem titulou, "O Pecado Mora ao Lado".

Paulo Ferreira, director-adjunto do "Público", foi muito duro. O que se conhece é apenas a ponta do icebergue. "O resto, mais escondido, são práticas empresariais pouco transparentes, trocas ilegítimas de favores, teias de interesses que se vão tecendo com o objectivo de sempre: mais do que ganhar dinheiro já, o que importa é ganhar poder, porque o dinheiro virá depois".

É consolador descobrir que, no país dos agachadinhos, nem todos sofrem do problema congénito da raça.

P.S. - O Montepio Geral aplicou €30 milhões no Fundo Ongoing International - Class A. Trata-se de um private equity, com um perfil de risco elevado e desajustado das aplicações que uma associação mutualista deveria fazer. A administração considera o caso um epifenómeno resultante do processo eleitoral em curso para aquela instituição. Mas está enganada. A aplicação existe, é a segunda mais importante do Montepio e obviamente merece uma explicação pública e cabal por parte de Tomás Correia e da sua equipa. Não o fazer é um erro - a não ser, claro, que não haja nenhuma justificação plausível.


(...) Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte serei não há cidade sem o parque do sono que vos roubei (...)

Natália Correia - A Defesa do Poeta

 

O BCP numa camisa de onze varas

Depois da guerra fratricida entre accionistas, que deixou o BCP à beira do abismo, eis que agora o ovo da serpente foi chocado no próprio conselho de administração. A acusação de que o vice-presidente Armando Vara pode estar ligado a uma rede tentacular que visava assegurar negócios com grandes empresas do Estado é devastadora para o próprio, mas também para a instituição.

O BCP vive no fio da navalha. Sobre ele paira o espectro da nacionalização ou do seu desmembramento. Agora ganhou mais uma camisa de onze varas. Não é só a acusação de envolvimento na tal rede. É a de ter recebido o dinheiro do suborno nas próprias instalações do banco onde é dirigente.

A suspensão imediata de funções por parte de Armando Vara, até total esclarecimento das acusações, é a única solução que pode minorar as consequências de mais um caso devastador para o banco. Tudo o resto só servirá para desmoralizar um pouco mais todos os excelentes quadros do BCP.

A melhor empresa do país

Conduril. Já ouviu este nome, caro leitor? Provavelmente não. E, no entanto, esta empresa de construção civil foi considerada pela revista "Exame" como a empresa do ano, tendo recebido essa distinção durante o jantar anual das 500 Maiores & Melhores.

Num ano em que toda a economia sofreu com a crise, e o sector de construção civil em particular, as vendas globais da Conduril cresceram 76%, atingindo €223 milhões. Grande parte do crescimento foi suportada pela aposta em mercados externos, como Angola, Moçambique e Marrocos, além da entrada no Botswana, com a adjudicação da auto-estrada Gaborone-Tlokweng, uma obra no valor de €40 milhões.

O mérito foi atribuído pelo presidente da empresa, António Amorim Martins, aos seus colaboradores, no discurso com que agradeceu o prémio.

Mas disse mais. Disse que o país precisa dos empresários portugueses e que os empresários portugueses não podem desistir de investir e arriscar, mesmo quando a situação é difícil.

A mensagem é certeira. Portugal tem de acarinhar os seus empresários. Mas espera igualmente que eles façam o seu papel. Como investidores, empregadores, inovadores - mas transmitindo também valores éticos para a sociedade.

O poderoso lóbi dos afectos

O que leva três centenas de pessoas nascidas em Angola mas há mais de três décadas a viver em Portugal a reunirem-se ao fim da tarde de uma sexta-feira? O mero lançamento de um livro? Sim, mas não só. Antes e sobretudo o facto de estarem profundamente ligadas ao país onde nasceram. Um lóbi poderosíssimo, pensará o leitor. Não, de todo. Este lóbi é apenas de afectos. Não funciona para mais nada. Mas nesse aspecto têm uma enorme capacidade de atracção. E ali estavam Alexandre Relvas, Manuel José Passarinho, Margarida Mercês de Melo, Miguel Anacoreta Correia, Luís Palha, Marta Cochat Osório, Armando Dinis da Gama, José Maria Pimentel e tantos outros que passaram pelo Liceu Salvador Correia em Luanda.

É certo que até 1974 os estudantes brancos sempre foram em muito maior número do que os negros e mestiços. Mas isso não impediu que algumas das mais altas figuras do Estado angolano, como Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos, Lúcio Lara e Diógenes Boavida tenham passado pelos bancos do liceu, a par de muitos outros que hoje ocupam posições de relevo na sociedade portuguesa.

"Viva a Malta do Liceu!" é um livro incontornável, cheio de história e de histórias sobre os 90 anos do mais emblemático liceu de Angola.

O sorriso na economia

Não é fácil tornar a economia uma ciência interessante para os leigos. E não é fácil escrever sobre ela, mantendo o rigor dos conceitos mas descodificando-a para os iniciados. Mais difícil ainda é tornar divertida a compreensão dos fenómenos económicos, através de exemplos que todos compreendemos.

É tudo isto que João Duque faz no seu livro "Da Bolsa e da Vida", onde repesca uma centena de crónicas publicadas no Expresso, além de outras publicações. Em todas elas, o leitor aprende e diverte-se. Ou não será surpreendente e divertido ler sobre Bocage, Enid Blyton, Bonnie e Clyde e Tony Soprano a propósito dos fenómenos económicos?

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009

 

14 comentários
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duas notas
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 13:14 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
1- Quanto ao caso BCP e Ongoing repito o que há muito digo sempre que se fala em manter os centros de decisão em Portugal. Quando se fala em grandes empresas e grandes negócios, há sempre uns tipos que defendem com unhas e dentes que os centros de decisão dessas empresas se mantenham em Portugal. Eu não concordo que eles estejam melhor em Portugal que noutro qualquer país do mundo... e compreendo que os queiram por cá, em mãos portuguesas...mãos especialmente gordurosas...
2- Por acaso sempre achei curioso que nunca tenha havido um lóbi dos retornados, ou dos 'angolanos'. Além dos citados, podíamos falar de outras figuras centrais da vida deste país em diversas áreas.
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É verdade Nicolau ...
António Da Rocha (seguir utilizador), 2 pontos , 16:15 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
... deixámos o país dos peixinhos e passámos para o país dos agachadinhos, o que, na prática, nos mantém na mesma: não aprendemos a gritar, nem a rosnar e muito menos a morde!

Antigamente, desde cedo, na escola, nos formatavam o "comportamento" quando, se ousássemos ter opinião, nos diziam logo os mais ´"sábios": rapaz, ...olha que pela boca morre o peixe!

E, assim, passamos todos a ser um país de peixinhos de boca fechada, com medinho de morrer.

Como todos sabemos, deu no que deu.

Um país de ignorantes e analfabetos, cegos, surdos e mudos!

Quando tudo indicava que - trinta anos volvidos depois de 25 de Abril - houvesse outra consciência e outra atitude da parte dos cidadãos, nomeadamente quanto à sua participação na análise e na crítica de situações que à luz do conhecimento e das leis vigentes exigiriam outra intervenção, há cidadãos que se agacham, que não questionam, e que, mais grave do que isso, sancionam, por acção ou por omissão, decisões que levantam as maiores suspeitas quanto à transparência e à legitimidade.

São estes os agachadinhos ou, como também alguém já lhes chamou, os "novos adaptados".

São estes os novos "cangalheiros": não quero que ninguém morra ... mas quero que a minha vida corra!

Talvez por isso é que Portugal se manifeste cada vez mais inadaptado na cena internacional!

Cumpts

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Agachadinhos...
Musoko (seguir utilizador), 2 pontos , 21:51 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
... e cagadinhos, a olharem de soslaio, como que a fazerm crer: não estou a fazer pumpum...
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Agachados e..
surpreso (seguir utilizador), 1 ponto , 12:01 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
Agachados e a defecar no povinho..
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Ou escreve o que nao entende, ou nao entende o que
kukakente (seguir utilizador), 1 ponto , 16:19 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
... escreve!

Eu sinceramente não entendo nada do que escreve.

Entendo outros, como Helena Garrido, Ricardo Costa, Pedro Guerreiro, mas... por mais esforço intelectual que faça não consigo perceber nada do que o Nicolau escreve.
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    Re: Ou escreve o que nao entende, ou nao entende o    Ver comentário
António Da Rocha (seguir utilizador), 2 pontos , 17:22 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
    Obrigada pelo conselho; irei fazelo, nem que...    Ver comentário
kukakente (seguir utilizador), 1 ponto , 19:43 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
    Re: Ou escreve o que nao entende, ou nao entende o    Ver comentário
exprjose270747 (seguir utilizador), 1 ponto , 4:21 | Sábado, 7 de Nov de 2009
Com tantos eufemismos...
ameijoafresca (seguir utilizador), 1 ponto , 18:15 | Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
Com Portugal a definhar
de forma ameaçadora,
não é preciso adivinhar
qual a marca reveladora.

Com tantos eufemismos
dissimulando a realidade
acicatam-se endemismos
carregados de boçalidade.

Vence o golpe ordinário
arrecadando uns milhões,
como um chupista unário
parasitando os mexilhões.
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Só Agora, Nicolau?
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 2:11 | Terça-feira, 3 de Nov de 2009
Em relação ao BCP, toda a gente já sabia desde há muito que o Armando Vara estava metido em tudo o que tem fumos de corrupção.

Só o amigo Nicolau "Agachadinho" é que fingia ignorá-lo, tendo acordado só agora com o despertador da PJ.
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Nova ordem mundial na sucata
Limes (seguir utilizador), 1 ponto , 15:25 | Terça-feira, 3 de Nov de 2009
Porcausa da construção das infra-estruturas dos jogos olímpicos a china secou com preços inflacionados "toda" a sucata que havia na Europa.
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08,09, Alemanha e Espanha usa, deram dinheiro para cada carro velho que entregassem, na Alemanha o sucesso foi tão grande que se criaram montanhas de carros abatidos para a sucata.
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O sucateiros alemães vieram a publico protestar porque já não tinham capacidade para armazenar tanto carro abatido, alem disso os preços do ferro e aço que se retiram dos carros tinham batido no fundo desde que a china construiu as infra-esturras olímpicas.
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Portanto, a sucata deve de certo ter os preços em sucata.

Excepto claro a metais raros que podem ser camuflados com sucata. Mas são vendidos a preços inflacionadíssimos. E dai por procurarem-se empresas que trabalham com metais especiais. Porque se não, não valia a pena democratizar os lucros pelos colaboradores?
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Mas quem fizer uma viagem pelas estações, e zonas de material dos caminhos de ferro portugueses vai encontrar muita coisa de espantar, como tanto património e material deitado ao abandono e a mão de semear. Milhões que estado não soube e não sabe cuidar.
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PIB zero Expresso
Limes (seguir utilizador), 1 ponto , 15:49 | Terça-feira, 3 de Nov de 2009


Só há duas maneiras de economia portuguesa se tornar um oásis.
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Primeiro pelo mega consumo interno.
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Segundo, pelas exportações, exportações, exportações.
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Mas para se poder exportar o euro devia perder 60% do seu valor.
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Vejamos então: Canada, Suíça, Austrália Três países em três diferentes continentes mas com tudo em comum. Baixo desemprego, economias a crescer, e os três com as suas moedas ao mesmo valor de umas das outras. Dólar, canadiano franco suíço, e dólar australiano tem praticamente o mesmo valor.
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Alberta no Canada nas zonas de exploração de petróleo da areia, as autoridades já vieram bater palmas pelo arrefecimento económico, porque essas zonas tinham crescido tanto em população imigratória que as infra-estruturas básicas pontes, escolas, hospitais, estraçoas, casas tudo já não basta. Milhares de novos chegados habitam em caravanas de campismo, em campos improvisados.
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Ora, aqui fica boas pistas para boas premerias paginas do jornal expresso. Em vez de as fazer com título de PIB zero.
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E VIVA O PORTUGAL AGACHADINHO.!!!!!!!!!!!!
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 15:49 | Terça-feira, 3 de Nov de 2009
CALA-TE BOCA.!!!!!!!! SE NÃO QUERES IR PRÓ XELINDRÓ.!!!! HÓ..HÓ.. E AÍ,QUEM QUER IR.???? kantiflas.
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"O poderoso lóbi dos afectos"
madalena beira (seguir utilizador), 1 ponto , 11:42 | Domingo, 15 de Nov de 2009
Bom dia, NC

Recebi no meu blogue o seguinte comentário sobre o artigo em título publicado na sua coluna :
"Lucio Lara não foi aluno do LIceu, já que era do Lépi, 25Km da Caala, 50 do Huambo, e todo o sul de Angola ia para o Diogo Cão. Lara frequentou o Colégio Adamastor no Huambo e daí veio para Coimbra."

Deixo à sua consideração a confirmação deste dado, se assim entender relevante.

Para mim e independentemente da confirmação ou não do facto descrito, o que importa destacar é que a sua coluna de opinião é CEM POR CENTO, ou seja, é uma excelente coluna com excelentes opiniões que, na maioria, subscrevo. Quanto ao artigo que é objecto deste comentário, é belíssimo.

Obrigada.

Um abraço

Madalena

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