Nicholas Farrar Hughes, que se enforcou no passado dia 16 na sua casa de Fairbanks, cidade em que continuara a viver depois de ter deixado o ensino na Universidade de Alasca, onde fora vários anos professor de ciências do oceano e da pesca, era um biólogo marítimo dedicado à evolução ecológica, especializado no estudo dos peixes de corrente, sobretudo o salmão selvagem cujo habitat e vida conhecia como ninguém - numa comunicação científica apresentada em 2004 explicara que o salmão e outros peixes grandes, na sua viagem contra a corrente, preferiam nadar na turbulência do meio do rio do que na água menos agitada perto das margens porque nesta havia mais resistência, causada pela geração de ondas de superfície - tendo sido descrito por amigo, também biólogo, como uma bibliografia viva de tudo quanto se publicara sobre peixes.
Licenciado em Oxford, viera doutorar-se em Fairbanks em 1991; sentia-se melhor na paisagem dessa parte do Alasca do que em qualquer outro lugar que conhecera no mundo, aí se dedicava aos seus hóbis de pesca à linha, cozinha, jardinagem, marcha, ciclismo, barco à vela, carpintaria e cerâmica (fora para melhor servir esta última vocação que deixara de ensinar). Assim, foi na sua panóplia de feitos científicos e nas suas qualidades de ser humano que se concentrou o artigo em honra da sua memória publicado no "Fairbanks Daily News-Miner" uma semana depois da sua morte.
Os obituários dos grandes jornais inglese e norte-americanos foram diferentes porque o biólogo marítimo e companheiro encantador - apesar da depressão de que sofria desde a adolescência e que de vez em quando o levava a internamentos hospitalares - era também filho de Ted Hughes e Sylvia Plath, dois monstros sagrados da poesia de língua inglesa do século XX, cujo trágico casamento - sobre o qual se escreveram livros e rodaram filmes - fez deles um dos grandes pares amorosos da literatura universal. Ted e Sylvia, um inglês vindo de gente modesta de Yorkshire e uma americana de raízes alemã e austríaca pertencente à burguesia da costa oriental dos Estados Unidos, encontraram-se quando estudavam literatura inglesa na Universidade de Cambridge, apaixonaram-se, casaram em 1956, tiveram um filho e uma filha; quando Nick ainda não tinha um ano e a irmã dois, Ted abandonou a família para se juntar a Assia Wevill que por ele deixara o marido, também poeta, e poucos meses depois, em Fevereiro de 1963, no fundo do Inverno mais frio de que havia memória em Londres, Sylvia Plath suicidou-se em casa metendo a cabeça dentro do forno, depois de calafetar a porta da cozinha com toalhas molhadas para proteger do gás aberto os meninos que dormiam, deixando fora da porta leite e pão.
Sílvia já se tentara matar pelo menos uma vez, quando vivia em Nova Iorque e trabalhava numa revista, antes de vir para a Europa, episódio que narrou em romance baseado muito de perto na sua própria vida. Em 1969 Assia, que Hughes entretanto deixara, suicidou-se como Sylvia mas levando com ela a filha de quatro anos que tivera de Ted. Hughes escondeu o suicídio da mulher aos filhos pequenos, só na adolescência deles decidindo contar-lhes o que acontecera, depois de aparecer nas livrarias uma biografia da poetisa. Executor literário, promoveu a publicação póstuma do melhor volume de poemas dela - "Ariel" - mas impediu durante anos a publicação dos diários, tendo mesmo destruído os que iam do Inverno de 1962 até ao suicídio - sempre para proteger os filhos.
Os deuses vendem quando dão. Em 1982 Sylvia Plath recebeu o primeiro Prémio Pulitzer póstumo, pelos seus poemas completos; em 1998 Ted Hughes recebeu, também postumamente, os Prémios T.S. Eliot e Whitbread por "Birthday Letters", publicado nesse ano, único livro em que fala da vida e morte de Sylvia (e que vendeu 150.000 exemplares). Nicholas, que partilhava com o pai o fascínio pelos peixes, viveu longe do mundo das letras mas acabou por entrar por sua mão no Panteão da família.