| Navios e farmácias |
| |
A ver navios
Rua Marechal Saldanha, nº 1
Lisboa
Tel. 213 400 600
(fecha aos domingos)
|
|
A partir do Largo do Calhariz, quase na Calçada do Combro, a Rua Marechal Saldanha conduz directamente a Santa Catarina. Do lado esquerdo, vão-se sucedendo as tão lisboetas Travessas do Sequeiro, da Laranjeira e da Portuguesa, todas com escadinhas a descer pela Bica abaixo e depois outras a subir a encosta em frente até às Chagas. Pela direita, não pode deixar de reparar-se no imponente prédio que foi o palácio dos condes de São Lourenço e de há muito pertence à Caixa Geral de Depósitos. Ir "ver navios no Alto de Santa Catarina"! Não já no sentido quinhentista do movimento náutico e da construção nos estaleiros da Ribeira das Naus, muito menos no de espreitar a barra do Tejo à espera do nevoeiro sebástico. Nem a grandiosidade da Descoberta nem a vanidade do Encoberto: ir simplesmente pela beleza que se desfruta do local, mormente do miradouro, ou melhor, miratejo, assinalado pelo monumento escultórico que simboliza o Adamastor, obra de Júlio Vaz Júnior (1927).
Também conhecido no antigamente por Monte do Belvedere, ou Belver, deve o nome que perdurou à circunstância de no sítio ter existido a Igreja Paroquial de Santa Catarina (do Monte Sinai). Exactamente no lugar do palacete cujo corpo lateral esquerdo dá para a Rua Marechal Saldanha (nº 1) e a frontaria para a Rua de Santa Catarina. Frontaria precedida por relvado e pátio com portões e gradeamento de ferro trabalhados e belos candeeiros exteriores com estatuetas, palacete construído à volta de 1862, que foi propriedade do industrial-mor Alfredo da Silva, depois dos seus descendentes e mais recentemente da Associação Nacional de Farmácias.
Ora é precisamente por esse lateral nº 1 que se entra, dizendo-se na portaria ao que se vai: em demanda do restaurante A Ver Navios, do qual, por enquanto, não há tabuleta nem letreiro. Uma escadaria, à esquerda, leva ao patamar superior, que dá acesso à sala de refeições. Bem posta e disposta está: chão de madeira, lambril até um terço, e o resto das paredes amarelado, lustre central, seis janelas com reposteiros (de três vê-se uma nesga de Tejo), cadeiras cómodas, mesas bem aparelhadas, tranquilidade e espaço para 40 utentes. Outra sala, reservada, aliás de belíssimas madeiras, possibilita refeições encomendadas para até 24 recatados.
A lista de comidas é pequenota: 7 Entradas, 5 Peixes, 3 Carnes e 1 Vegetariano. Vamos já às provas. "Salada Caeser" (€9): a costumeira mescla de alfaces, tiras de frango grelhado, bacon frito, lâminas queijeiras e croutons. "Cogumelos grelhados" (€9,50): dois champignons carnudos, abertos, a reentrância preenchida com pesto, em cima fatiazinha de presunto coroada por ovo de codorniz estrelado, num conjunto agradável. "Trouxa de filo com farinheira, marmelada e nozes" (€9): o rolo com um diálogo interior entre o enchido e o doce, diferente. "Escalope de foie gras sobre pêra escalfada em vinho tinto" (€17): ligação perfeita, foie demasiado 'passado'.
O "bacalhau à Brás com tapenade de azeitonas e emulsão de ervas" (€16), com os ingredientes muito seccionados, mostrou cremosidade e excelente sabor, coadjuvado pela bem-vinda tapenade (mesmo que não a canónica, que exige anchova). Risotto bom e original, com eruca, curcuma e toque cítrico, peixe curial, no "peixe-galo em risotto de citrinos e rúcula com azeite de ervas finas" (€19). No "magret de pato e maçã assada em seu molho e folhas de agriões" (€18,50) tudo cordial, as fatias com a pele estaladiça, os agriões salteados a rechearem a maçã escavada. Apresentação inabitual a das "bochechas de porco com risotto de espargos e tomate provençal" (€19,50), fatiadas e intervaladas pelo tomate (ficou por resolver a questão de saber se este as valorizou ou não), risotto bem conseguido; faltou a companhia de um vegetal verde. Ficaram por provar, nos pratos principais, tranche de garoupa, polvo à lagareiro, bacalhau assado lascado e um bitoque do lombo.
Só há três doces, mas todos se revelaram gratificantes. Carta de vinhos bem organizada, com os informes completos, muito diversificada e registando um total de 57 tintos, 32 brancos, 7 espumantes e 8 champanhes. Serviço impecável dirigido pelo grande profissional que é Paulo Soares.
Restaurante privado da Associação Nacional das Farmácias desde 1996, este A Ver Navios está oficialmente aberto ao público desde 4 de Janeiro último, sob a batuta culinária de Pedro Duarte (biólogo marinho de formação). Apenas se deseja alargamento carnal da lista. O melhor final será a visita ao curiosíssimo Museu da Farmácia.
Texto publicado na edição da Única de 6 de Março de 2010