A coincidência do mais acotovelante dos consumismos, marca actual da quadra que atravessamos, com a redução a quase nada, imposta pela estética reinante, do tradicional universo natalício, incita-nos a um rápido apontamento. A contragosto é que a aquisição afobada de presentes, de ornamentos, e de comestíveis, exigida por uma falsa razão de sobrevivência da nossa espécie de ocidentais, nos consente o tempo destas escassas linhas.
O Natal irá emparceirar de futuro, não se duvide, com a recém-importada Noite das Bruxas, ambas as efemérides no topo da escala como fenómenos significativos de idêntico volume de vendas. E quando o Halloween ultrapassar as Festas, restar-nos-á no máximo a vitrine do museu de antropologia cultural, se entretanto não descer o próprio "museu" à categoria de conceito a abater, com o acervo dos objectos desenterrados por uma longínqua exploração arqueológica.
Pegamos no vetusto Júlio Dinis, e em A Morgadinha dos Canaviais, sua obra-prima, para cuja releitura nos falta às vezes paciência, e lá deparamos com uma paisagem de sinais que a dinâmica dos comportamentos, nem sempre ingénua, anda freneticamente a rasurar. Já o romancista desafiava os tentados por uma "moda tola" a que festejassem o "Natal de Cristo, segundo o estilo velho", mantendo "genuínos esses costumes nacionais" sem "desdouro de nome (...) ou brazão". Mal saberia ele que presenciava o início de uma longa, e porventura capciosa campanha de descaracterização.
O Natal do nosso ficcionista aquecia-se ainda no presépio à Machado de Castro, dotado da sua "pequena gruta toda cravejada de caramujos e rosas de papel, com estames de fio de prata", e povoado não apenas pelas figuras centrais, mas por uma jovial multidão, não raro anacrónica. Constituíam-na "pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuários", "galegos dançando, ao som da gaita de foles", e "um vareiro e uma vareira". E completavam-na "um grupo celebrando um pic-nic", e até "uma amazona inglesa".
O de hoje, a existir, contentar-se-á com uma vareta vertical para São José de pé, um Z para Maria ajoelhada, uma tirinha horizontal para o Menino, um rectângulo para o boi, e outro para o burro. Tudo isto se exibirá em aço inoxidável, assinado por um designer em alta, a condizer com os obsequiosos cartões que se enviam, e se recebem, por motivos labirínticos, e que se ilustram com uma indigência de doirados rabiscos, indistintos dos que timbram o convite para o réveillon no casino da esquina.
Natal, verdadeiro Natal, só existe o que nos testemunhou a infância, e que daqui por um punhado de décadas terão esquecido as crianças que vierem, quando não eternamente pobres, fatalmente hiperactivas, herdeiras em partes desiguais da época que vai correndo.