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Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida

Uma viagem à África profunda, à África do pó, dos elefantes, das machambas, das cerimónias espíritas, dos rugidos de leões que irrompem pela noite. Uma viagem a Moçambique feita por um europeu... com os olhos de um africano. Clique para visitar o canal Life & Style.

 

António Pedro Santos (www.expresso.pt)
13:05 Sexta-feira, 20 de Nov de 2009
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Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida

Foi a lei que o matou", refere Abacar, no seu jeito tímido. Ao lado estão quatro patas de elefante, ainda ensanguentadas. Na véspera, o animal tinha sido abatido pela população revoltada por mais uma morte na aldeia. A senhora, de 80 anos, foi surpreendida quando estava a cultivar a sua machamba. "Antes, quando chegavam as pessoas, os elefantes não reagiam; agora que se acostumaram a elas, passaram a atacar", conta Abacar, guarda do Parque Nacional das Quirimbas, o terceiro maior do país.

Numa das aldeias mais povoadas do Parque o medo é constante. As vítimas em Ungura vão-se acumulando de parte a parte. "Para matar um elefante, só depois de termos a certeza de que se trata de um animal problemático do grupo, o chefe. E o tiro tem de ser certeiro. Caso contrário, ele fica com a bala no corpo e destrói tudo o que estiver à sua frente", sublinha o fiscal.

Nas Quirimbas, onde a RTP voltou a convidar Mia Couto, para coordenar e narrar um conjunto de 12 documentários sobre os Parques e Reservas Naturais de Moçambique, aponta-se como única solução para o conflito, a vedação do Parque. 100 km de cerca eléctrica, permitindo uma sã convivência.

Conservação "especial" 
Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida

Mas o escritor e biólogo moçambicano considera que "é muito difícil gerir um Parque com uma densidade humana de 120 mil pessoas. Em princípio e, por definição, os Parques têm gente neles vivendo, mas talvez seja necessário conceder um diferente estatuto de conservação à região e escolher, no interior, quais as áreas precisas que vale a pena submeter a um regime de conservação especial". E acrescenta: "O maior desafio do Parque é proteger o número de pessoas que vivem lá dentro e proteger os animais e ecossistemas. Claro que é quase impossível conciliar as duas coisas."

Num fim da tarde, Abacar prontificou-se a guiar-nos para o local onde os elefantes diariamente tomam banho. "A minha missão é só afugentar", esclarece o guarda, de arma a tiracolo. A única para os dois guardas da zona. Em silêncio e em fila indiana, percorremos algumas dezenas de metros pelo meio da savana. Mia, de câmara fotográfica em punho, parece mais interessado em registar todos os pormenores de árvores centenárias que nos surgem. Manuel, o outro guarda, controla os sons na retaguarda do grupo.

Com a mão direita levantada, faz-nos sinal para pararmos. "Eles já cá estão", aponta, sem qualquer sinal de excitação. Duas manadas de elefantes vão fazendo a sua higiene, no único local da zona onde a água não seca totalmente. Abacar, preocupado com a nossa segurança, aponta-nos com o dedo indicador no meio da boca, uma rocha em frente, a 20 metros. "Se eles quiserem, vêm-nos cá buscar", refere Mia, sem qualquer receio. Abacar, postura de militar, não esboça qualquer reacção. Limita-se apenas a observar os movimentos dos animais.

Elefantes por perto
Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida

Indiferentes à nossa presença, os elefantes vão-se banhando num lago de lama, soltando sons de rejubilo. As crias vão-se divertindo, tais crianças, num misto de pó e lama. De repente, todos somos surpreendidos com um tiro. Até o próprio Abacar, que timidamente confessa a autoria do disparo. "Foi falha, patrão." Inadvertidamente, enquanto segurava a arma, o fiscal do Parque, disparou, felizmente para o ar. Todos os elefantes se dispersaram, menos um que ainda ameaçou uma investida. Resignado, lá acabou por tomar o caminho dos outros.

Ricardo Mota, delegado da RTP em Moçambique, afirma que "a diferença das Quirimbas para o Kruger é que lá também víamos os elefantes perto, mas dentro de um carro".

À procura de aventura 

Nos cinco dias seguintes, voltámos ao "local do crime", para recolher mais e melhores imagens. Em vão. A memória de elefante não é só um ditado popular. Existe.

Taratibu foi o lodge escolhido para acampar durante a semana de filmagens. É um local inóspito, no meio da savana. Frequentemente invadido pelos elefantes, é o ideal para quem procura aventura. Literalmente.

À noite, embalados pelos contos de Mia Couto, em redor da fogueira, um som estranho interrompe a pacatez da noite. "O ressonar do Bai-Bai já eu conheço", exclama Ricardo Mota. "Isto foi algo diferente."

Pouco tempo depois, estávamos também nós dentro dos nossos sacos-cama, preparados para confirmar as nossas suspeitas: era o rugido de um leão. De repente, a floresta permaneceu em silêncio total. Até Bai-Bai, operador de câmara da RTP.

O "director da savana", expressão usada para identificar o leão, estava bem perto. Todos nos encolhemos dentro das tendas, receosos pela presença do felino, mas ao mesmo tempo maravilhados pelo fantástico privilégio de ali estar naquele momento. É por experiências como esta que Mia Couto acredita que "Taratibu é um centro de emoções e afectos, um regresso a um umbigo da Terra".

Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida
Cerimónias na floresta 

Depois do cumprimento tímido do "director", o acampamento amanhece calmo. É o que precisamos para cumprir a agenda desse dia. Acompanhados por um grupo de camponeses, presenciamos uma cerimónia muçulmana que visa alimentar os antepassados. Para isso, era obrigatório levar uma capulana branca, incenso, açúcar, arroz e vinho tinto. Só assim poderíamos obter a necessária autorização para efectuarmos a reportagem nas Quirimbas.

Muito tempo depois de caminharmos pelo meio da floresta, um dos membros da comunidade pára abruptamente. Repete vezes sem conta a palavra "maiô", pedindo licença aos antepassados para entrarmos no espaço sagrado. Um tambor toca sons tímidos e bruscos. "O lugar está povoado de fantasmas", esclarece Mia.

A licença é concedida. Descalços, soubemos então o que significava alimentar os antepassados: despejar para dentro da gruta o vinho e o arroz. Não todo o garrafão, nem os 25 quilos do saco de arroz, que a comunidade também come. Noutra gruta, garantem haver objectos que pertenceram ao general alemão Paul Erich Vorberck, mas essa é inacessível: moram lá leões. "Como é que eu não hei-de escrever livros, com todos estes personagens que me surgem na vida?!", exclama Mia Couto, emocionado com a cerimónia.

Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida
Lembrar a escravatura 

Do alto da avioneta, pilotada por Manuel Vistas, tem-se a verdadeira imagem das Quirimbas: de um lado a floresta, território selvagem, do outro as ilhas - apenas mar e areias imaculadas. Em terra, óculos na ponta do nariz, sorriso fácil e contagiante, está João Baptista, historiador e contador de estórias. "Conhecido em todo Moçambique", refere. Com 82 anos, carrega consigo a própria história da ilha condensada num caderno em que escreveu todos os momentos marcantes do Ibo.

Com o mesmo nome que o Forte da ilha, João Baptista insiste em acompanhar-nos numa visita guiada ao monumento onde os escravos foram encarcerados até ao século XIX. Um poste assinala o local onde eram chicoteados para se descobrir até que ponto aguentavam a dor. O preço era estabelecido conforme a força e resistência.

Por dia eram mortos cerca de 50, 60 pessoas. Umas vezes eram enterrados numa vala comum, outras eram atirados directamente para o mar.

Mais tarde foram as instalações da PIDE, para a qual João Baptista trabalhou como dactilógrafo e auxiliar de recenseamento. "Vi passar pela ilha 42 administradores. Quem fosse da Frelimo era perseguido e morto. Aliás, havia aqui no Forte um cartaz à entrada que dizia 'entra vivo, sai morto'. Eu só fui preso uma vez, apenas por 24 horas, juntamente com o administrador. Tudo porque quis salvar um colega."

Baptista repete consecutivamente o significado das siglas PIDE: "Polícia Internacional de Defesa do Estado." "Nunca tive ódio aos portugueses, mas claro que também estava do lado da Frelimo."

Para contar a História e estórias do Ibo, João Baptista não cobra qualquer quantia aos visitantes. "Cada um dá o que quer, se quiser."É por frases como esta que, posteriormente, Mia Couto revela: "João Baptista podia facilmente ser um personagem de um livro meu. Em poucos lugares do mundo existe alguém que convoca a missão de chamar a si mesmo a memória de um lugar e o faz com um sorriso aberto e sem pedir nada em troca."

Bola de preservativos 

O Ibo de outrora, rico e movimentado, é agora um núcleo de casas senhoriais de estilo europeu, esventradas e em ruínas, sem telhados e com árvores e capim a crescer pelo seu interior. Miúdos descalços, com a camisola do F.C. Porto, jogam futebol na rua esburacada. Duas pedras marcam a baliza. A bola é feita de preservativos, papel e corda.

Do outro lado da rua, alguém reconhece Mia. "Eu precisava era de um emprego, sabe? Daqueles para dormir." No centro de fiscalização do Parque, explicam-nos que a sua principal missão no Ibo é preservar as espécies em vias de extinção. Para tal, criaram um santuário, local onde não é permitido pescar. Mais de 350 espécies foram identificadas nas águas do arquipélago das Quirimbas.

Nas Quirimbas com Mia Couto: Viagem a uma Moçambique desconhecida

"E quantos fiscais há na ilha?", perguntamos. Surge então um dos guardas. "No dia 26 de Setembro de 2009, apareceu o senhor António Pedro Santos nas nossas instalações, perguntando quantos fiscais existem na ilha", escreve. No fim, olha para cima e responde "oito".

Madjume, 57 anos, é fiscal há 5. Do seu corpo de gigante, explica que a escala de trabalho são 24 dias consecutivos a trabalhar, 6 dias de folga. Desta vez, sem tomar nota do resto da conversa. Tomamos nós. No dia 29 de Setembro de 2009 apareceu o piloto que nos levou de volta ao continente. A aventura estava prestes a chegar ao fim. Abacar, João Baptista, Madjume parecem agora personagens longínquas de um livro de histórias do continente africano. O regresso acontece já cheio do sentimento mais português que há: a saudade. Ou chega com a mais bela poesia de Mia. "Vale a pena viajar se regressamos, mas não inteiros. Parte de nós não regressa. Foi o que senti ao aterrar em Maputo: que eu me tinha deixado lá atrás, para além do mar."

AGRADECIMENTOS À TAP E À RTP

(A reportagem foi publicada na edição 21 Novembro da Revista Única/Expresso)

Palavras-chave  viagem  África  Moçambique  elefantes  leões  Quirimbas
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Saudades
fcma (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 12:36 | Sexta-feira, 27 de Nov de 2009
Um obrigado a Mia Couto e á RTP, por trazer esse pais maravilhoso para a praça publica, um bem haja aos intervenientes, por toda a reportagem.
Sem mais, sejam felizes
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    Uma visita à fortaleza de S. João Baptista do Ibo    Ver comentário
Ilhas de Querimba (seguir utilizador), 1 ponto , 18:14 | Segunda-feira, 30 de Nov de 2009
Agradecimentos à TAP e à RTP ???
J Saints (seguir utilizador), 1 ponto , 12:28 | Sexta-feira, 27 de Nov de 2009


aos Portugueses é que têm de estar agradecidos ...

Todos contribuem com os seus impostos para estas duas "pérolas" do estado que derretem euros como ninguém , mas muito poucos são patrocinados para tão fantástica viagem .

Moçambique à borla ??? Eu também gostava .

Felizardos !
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País maravilhoso!
tou k nem posso (seguir utilizador), 1 ponto , 12:38 | Sexta-feira, 27 de Nov de 2009
Este é de facto um país apaixonante,cativante,de onde nunca mais se regressa completamente.Vão,visitem,disfutem da alegria das crianças,da beleza do Índico,do sabor das frutas,da simplicidade da gente.Aprende-se como é possível ser feliz com tão pouco.
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QUEM VIVEU COMO O SALAZAR SURDO E CEGO EPARALIZADO
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 14:59 | Sexta-feira, 27 de Nov de 2009
O SALAZAR ...QUE VIVEU CEGO,SURDO E MUDO;E FINGINDO ALHEIO Á EVOLUÇÃO E REVOLUÇÕES DOS DITOS XUXIALISTAS E COMUNAS APOIADOS E FINNCIADOS PELOS DOIS PAÍSES CHEFES;Á ÉPOCA DA GUERRA FRIA.PELA ex-russia,e pela china do muzétunga.Aqui está o resultado de um dos maiores crimes contra a humanidade.ANGOLA E MOÇAMBIQUE ENTREGUE A UM GRUPO DE GUERRILHEIROS;EM QUE APENAS;tinham sido preparados para tomarem uns territórios 4 vezes maiores que a frança.Sem condições nenhumas para govenar estas imensas terras;e com muitas riquezas minerais,e florestais.Por causa destas riquezas;as potências comunas apoioantes com o auxílio detraidores do tipo almeida santos,cunhal xefe comuna portuguêse maior traidor mari soares.Eu sou pela independência sim dos povos; mas ao mesmo tempo,como é que era possível construir uns países desta dimensão expulsando o povo que poderia e deveria ter ficado também em angola e moçambique.?Foi um crime praticado plos comunas e xuxas de todo o mundo...Agora está aí tudo á vista de todos.Espero que os actuais governantes de angola e moçambique,se humildem;e façam acordos de cooperação;e que muitos portugueses voltem para áfrica;e colaborem na reconstrução destas duas nações filhas e irmãs de portugal por 500 anos... E arrazadas pelo XUXIALISMO E comunismo internacional..CUM KANTIFLAS.
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    Re: QUEM VIVEU COMO O SALAZAR SURDO E CEGO EPARALI    Ver comentário
FJusto (seguir utilizador), 1 ponto , 16:37 | Sexta-feira, 27 de Nov de 2009
Moçambique
pamaga (seguir utilizador), 1 ponto , 12:25 | Segunda-feira, 30 de Nov de 2009
Vive lá entre Março de 1996 até Agosto de 2001 e as saudades são enormes!!!! Muitas vezes tomei café na mesa ao lado da mesa do Mia Couto no Piri-Piri em Maputo.
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