Numa altura em que tudo parece negro, convém dizer que a democracia portuguesa deu um sinal positivo. As negociações entre PSD, CDS e PS, tendo em vista a aprovação do Orçamento do Estado, mostraram que, afinal, ainda existe algum tino institucional nas entranhas do regime. Portugal precisava de um momento como este; um momento em que a negociação do 'parlamentarismo' substituísse a arrogância do 'socratismo'. Ao contrário do que pensa o excelso Francisco Louçã, esta não foi uma "negociação pantanosa"; foi, isso sim, uma digna negociação institucional. E esta dignidade institucional abriu as portas a outra coisa: além do Orçamento para 2010, as negociações aprovaram um governo minoritário até 2013. Teixeira dos Santos, Paulo Portas e Ferreira Leite mataram, assim, o mito da ingovernabilidade. Ou seja, morreu a ideia de que 'governar' implica 'maioria absoluta'. É possível governar Portugal através do compromisso civilizado. Afinal de contas, não somos índios.
Logo no início desta legislatura, o PS começou a namorar este mito da ingovernabilidade. Muitos socialistas viam qualquer cedência ou derrota do PS como algo que colocava o país à beira do abismo. Passados uns meses, e passadas as negociações orçamentais, podemos dizer que o parlamento, um nado-morto no quadro de maioria absoluta, readquiriu dignidade num cenário de governo minoritário. Aquilo que o PS via como uma afronta ilegítima à vontade do glorioso líder era, na verdade, o normal funcionamento do Parlamento. E foi através desse Parlamento revitalizado que PS, PSD e CDS chegaram ao acordo orçamental. Por mais estranho que passa parecer, estes três partidos mostraram que nós, portugueses, não somos índios ingovernáveis.
No entanto, mesmo depois destas negociações, muita gente continuará a invocar o mito da ingovernabilidade. Quando afirmam que "só é possível governar Portugal com maioria absoluta", estas pessoas estão a desprezar a própria democracia. Uma certa elite habitou-se à ideia de que a democracia é uma mera imposição da vontade de um homem providencial (Cavaco e Sócrates), e, em consequência, essa dita elite considera que a ausência de maioria absoluta gera ingovernabilidade. A força que este raciocínio tem em 2010 mostra como a cultura política salazarista ainda não teve o seu enterro definitivo. O homem morreu em 1970, mas as suas ideias continuam por aí. A ideia de que "Portugal é ingovernável sem maioria absoluta" é uma 'salazarice' enfeitada com plumas democráticas. Anda por aí muita gente a pensar que os portugueses são índios inimputáveis. Velhos hábitos morrem devagarinho.
Neowestern
Uma nova geração de cineastas americanos está a refazer o western. Um dos grandes filmes da década, "O Assassínio de Jesse James" (2007), é o exemplo perfeito destas neocoboiadas. Andrew Dominik filmou e montou este filme de forma a desrespeitar a tradição. Os velhos westerns, de Ford a Peckinpah, tinham uma cadência acelerada. Este filme não é assim. Dominik filma com a souplesse de um Wong-Kar Wai, e oferece-nos a primeira coboiada em câmara lenta. Para terminar, convém dizer que Casey mostra aqui que ficou com todo o talento da família Affleck.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010