Uma Justiça enredada no seu próprio novelo, dependente de guerras mesquinhas por pequenos poderes. Jornalistas com pouca autonomia e proletarizados. Empresas de comunicação social frágeis, nas mãos de grupos que se dedicam a outros negócios, e que quase sempre dependem de alguma forma do Governo que está ou do que há de vir. Um Estado tomado pela pequena e grande corrupção. Crise económica e descrença total dos cidadãos em praticamente todas as instituições. Está criado o caldo para a desgraça.
O fenómeno da judicialização da política e de uma democracia marcada pelo ritmo dos escândalos criam uma sensação de um iminente Apocalipse. Este clima de fim dos tempos não é exclusivamente português. A corrupção ainda menos. Mas como, em Portugal, o populismo mais radical não tem tido espaço para furar o quadro partidário, são muitas vezes os jornalistas e colunistas que ocupam este lugar, trocando a informação enquadrada pela gritaria permanente. Quem, na sua ingenuidade, julgue que disto nascerá algum movimento de cidadania "regenerador" engana-se. Este ambiente de "Fórum TSF" contínuo cria desespero, descrença e desistência. É sintoma do problema, mas seguramente não faz parte solução.
Em toda a nossa história tivemos 35 anos de imprensa sem censura. A nossa comunicação social tem todos os problemas que se podem encontrar nos EUA e no resto da Europa. Mas sem os anos de maturação de regras e consensos deontológicos para a construção de uma imprensa minimamente independente das pressões políticas e económicas e capaz de se autoregular. A nossa comunicação social é tão relevante para a vida pública como a de qualquer democracia. Mas é incrivelmente mais frágil na autonomia das empresas e dos seus profissionais.
Como muitos temiam, com o caso Casa Pia (e aqui é indiferente o que se pense sobre o decorrer e desfecho provável do processo judicial propriamente dito), o país perdeu a inocência. Várias fronteiras foram ultrapassadas pelos jornalistas sem que estes tivessem os instrumentos necessários para aprender com os erros e abusos. Ultrapassadas essas fronteiras, sabíamos que nada voltaria a ser como antes. Apercebemo-nos também de como a nossa justiça está bloqueada e refém de todas as pressões.
Do que aconteceu, o PS tirou a lição errada. Que para impedir que uma direcção do seu partido fosse de novo decapitada através do curto-circuito Justiça-jornalismo-política teria pelo menos de controlar um dos factores que lhe eram externos. Escolheu o elo mais fraco: a comunicação social.
No meio de tudo o que está a acontecer, vale a pena parar para pensar antes de saltar para cada barricada. É indispensável que o julgamento político severo e sem contemplações da relação que José Sócrates mantém com a liberdade de imprensa - que numa democracia madura levaria à sua inevitável demissão - não ponha nas mãos dos jornalistas aquilo que cabe à política e aos cidadãos. O papel da comunicação social é fiscalizar, denunciar, informar, formar opinião. Pode e muitas vezes deve ter um ponto de vista. Mas não é o de substituir a organização democrática dos cidadãos. Até porque mesmo os jornalistas e as empresas que detêm os órgãos de comunicação social têm interesses particulares.
Muito graças ao ambiente de crispação que José Sócrates criou na relação com os jornalistas (e a fulanizarão nele próprio de todos os conflitos políticos), como se eles fossem o seu principal adversário, estabeleceu-se a ideia de que existem dois tipos de órgãos de comunicação social: os que são controlados por José Sócrates e os que o querem derrubar. O que hoje sabemos sobre o que José Sócrates e os seus amigos parecem andar a fazer nos bastidores contribui um pouco mais para esta percepção. A minha preocupação é simples: que esta forma de ver a comunicação social, depois das primeiras indignações, se acabe por naturalizar.
É por isso urgente garantir que os abusos deste governo nesta matéria sejam politicamente punidos. Mas também garantir que no caminho não se destrói um frágil corpo deontológico pouco experimentado no nosso país. Talvez esta tarefa pouca guerreira não seja a mais tentadora quando o que vende é a indignação histérica permanente. É coisa mole para o concurso de testosterona em que vive a nossa vida pública. Mas se falharmos nela, podemos esquecer a liberdade que queremos defender.