Optei por quebra-cabeças e não por exercício impossível apenas para manter a esperança. Mas na escala de dificuldade o puzzle económico em que se tornou este Orçamento do Estado está perto do 'irrealizável'.
Naquele que é o documento mais esperado todos os anos, Teixeira dos Santos tem de conseguir colocar no mesmo cesto uma equação que deixaria John Nash, o pai da teoria dos jogos, perplexo.
O PSD quer um acordo amplo para a resolução do problema das finanças públicas, o CDS quer negociar medidas concretas, o PS quer crescimento, o PCP e o BE já não querem nada.
Ninguém quer aumentar impostos, mas todos querem mais receita. As agências de rating querem garantias de que o défice vai diminuir e de que a dívida irá crescer pouco.
A Comissão Europeia não quer outra Grécia e o FMI quer menos despesa. Os funcionários públicos querem aumentos, o Governo quer contenção e os mercados esperam uma redução dos salários reais.
Os empresários querem apoios, os trabalhadores empregos. Os ministros querem mais dinheiro, a cultura subsídios e os militares que deixem tudo como está.
Por esta altura, Teixeira dos Santos só quer que tudo isto acabe rapidamente.
Fazer um Orçamento nunca foi fácil, mas nos últimos exercícios a 'politiquice' não tinha qualquer capacidade de influenciar o documento. Agora, o jogo político dita as regras. O discurso tem sido moderado, mas como a objectividade em política é um bem escasso, ao mínimo sinal contrário a boa vontade irá ser substituída pela contestação.
Como exercício impossível a pergunta decisiva tornou-se simples: onde vai Teixeira dos Santos quebrar?
O que devia ser feito, em termos económicos, era cortar, cortar e cortar ao mesmo tempo que se relançavam as grandes reformas como a da administração pública, justiça e educação. Só que os resultados só seriam visíveis dentro de alguns anos. Até lá, este Governo (e talvez o próximo) perderia todo o seu suporte no eleitorado. A alternativa é ceder aqui e acolá para agradar a todos, o que nos leva a uma solução que irá ficar sempre muito abaixo do óptimo.
É nestas alturas que conseguimos fazer a distinção entre quem será visto como uma personalidade de Estado daqueles que serão apenas uma nota de rodapé de um capítulo negro da história que há-de ser escrita.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010