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Não é pedir de mais

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 3 de setembro de 2010

A dívida pública e os juros crescentes ameaçam mergulhar o país na bancarrota, mas os gastos do Estado, que deviam diminuir, não param de aumentar. O desemprego atinge 600 mil portugueses, muitos dos quais vão perder o subsídio em breve, e o parco investimento, público e privado, não cria postos de trabalho em número que se veja. A miséria entra em casa de muitas famílias que ainda há pouco viviam com um mínimo de condições e a chamada classe média empobrece dia após dia, sobrecarregada de impostos e com a perspetiva fatal de um aumento das taxas no crédito à habitação. A Alemanha cresce a olhos vistos, mas os restantes países europeus dão apenas sinais tímidos de uma recuperação insegura. E, nesta semana, mais um prémio Nobel da Economia veio declarar que as medidas de austeridade para fixar o défice em três por cento estão a empurrar a Europa para uma nova recessão.

Perante este quadro negro, os dois maiores partidos portugueses falam de eleições. E o primeiro-ministro pede confiança a um país que não encontra motivos para confiar nem nos responsáveis pela condução dos seus destinos nem naqueles que se propõem substituí-los. Ou porque as prioridades que apresentam, como a revisão constitucional ou os apelos indiretos a novas eleições, no caso de Passos Coelho, não correspondem às urgências a que é preciso acudir, ou porque os seus discursos não colam à realidade, como sucede com um primeiro-ministro apostado em mostrar apenas o lado menos sombrio dessa realidade.

Infelizmente para José Sócrates e para o país, não basta deixar de falar nos problemas para que eles deixem de existir. Mas a verdade é que se tem esforçado por banir esses problemas das múltiplas intervenções públicas a que se dedicou desde o regresso de férias. Ora, um chefe de Governo não pode ser a voz da descrença e do desânimo - já temos vozes dessas que bastem. Mas, sabendo-se que o ano político que agora começa será o mais crítico dos que vivemos até agora, com o compromisso da redução substancial do défice a pairar sobre as nossas cabeças, o chefe do Governo não pode iludir os portugueses com um otimismo irrealista e desajustado. Essa é, aliás, a melhor via para comprometer a confiança que procura inspirar. O seu entusiasmo com o crescimento da economia no segundo trimestre de nada valerá se chegarmos a dezembro e o Governo tiver que adotar medidas drásticas adicionais para cumprir os compromissos que assumiu com Bruxelas. E duvida-se de que o primeiro-ministro esteja hoje em condições de garantir que essas medidas não serão necessárias.

Agora que José Sócrates e Passos Coelho fizeram as suas representações de verão, entre Quarteira e Mangualde, falando cada um do que mais lhes interessava, é tempo de começarem os dois a falar do que nos interessa a todos. E que, em vez do clima de crispação e guerrilha em que aplicam o melhor das suas energias, se disponham a conversar um com o outro sobre as coisas sérias que nos afligem. Não é pedir de mais. Do mesmo modo que não é de mais pedir ao Presidente da República que, entre a promulgação de leis e a preparação da recandidatura, use a sua autoridade e a sua influência para tentar promover os consensos políticos de que o país necessita.

PCP prefere Cavaco


Com Francisco Lopes, o único candidato presidencial indicado e não apenas apoiado pelo seu partido, fica completo o leque de concorrentes à esquerda. Assume-se como a voz do PCP numa corrida em que a única ambição é fixar o eleitorado comunista mais fiel e condicionar, quanto possível, a eleição de Manuel Alegre.

Definitivamente, o partido de Jerónimo não quer que os votos comunistas se misturem com os do PS e do Bloco de Esquerda. Nem na primeira votação nem numa eventual segunda volta, visto que esta candidatura vem dificultar anda mais a vida já difícil de Manuel Alegre e reduz as hipóteses de segunda volta.

Não podendo eleger o seu próprio candidato, entre Alegre e Cavaco o PCP prefere Cavaco, algo que nunca admitirá publicamente, mas que é bastante compreensível. O atual Presidente é muito mais formal, institucional, pragmático e previsível do que Alegre - de mais a mais tendo este, não só o apoio de Sócrates como a companhia do Bloco. E o PCP sempre apreciou a segurança de saber com o que conta. As diferenças ideológicas não o impediram de estar em consonância com o Presidente em vários momentos sensíveis. E o facto de Cavaco vir da direita já não é o obstáculo que seria noutros tempos. Tem, aliás, a vantagem de permitir ao PCP distanciar-se sempre que lhe convém para retomar o seu apreciado papel de contrapoder.

SCUT para sempre?


O PS e o PSD negociaram durante meses a introdução de portagens nas SCUT. Enquanto nada se decidia, as concessionárias gastaram uns milhares de euros - trocos para quem tem contratos de milhares de milhões com o Estado - a fim de que tudo estivesse a postos na primeira data prevista. Uma delas, a Ascendi, do grupo Mota-Engil, tratou logo de apresentar a conta. Não se sabe o que mais admirar: se a trapalhada que o Governo não sabe ou não quer deslindar se a pressa da Mota-Engil para receber o seu pecúlio, que estará sempre garantido no caso de haver portagens. Mas haverá? Possivelmente, Jorge Coelho sabe ou desconfia que, além de estar praticamente esgotado o orçamento para SCUT em 2010, as portagens vão ficar para o Dia de São Nunca.

fjmadrinha@hotmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010

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Poderá parecer..mas não é..
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos , 15:14 | Sábado, 4 de setembro de 2010
Poderá parecer uma enormidade o que vou escrever..mas não é..ou será ?..

Cá vai..confio mais na competência aldrabada de Sócrates que na "ingenuidade" atabalhoada de Passos Coelho..

E as razões que me assistem são as seguintes :
Considero Sócrates um aldrabão de todo o tamanho o que me permite nunca ficar em desvantagem relativamente a ele..não sou apanhado de surpresa..conto sempre com o pior e de quando em quando (com espaços muito largos) lá sou premiado com uma agradavel surpresa..

De Passos Coelho além do atabalhoamento e atrapalhamento nada mais conheço..e isso provoca-me outro tipo de cautela..

O primeiro não presta mas nada me garante que o segundo não seja ainda pior..

Prefiro um diabo que conheça a um anjo por mim desconhecido..

E essa é..no que me diz respeito..a grande vantagem de Sócrates..
 
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    Re: Poderá parecer..mas não é..    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 21:46 | Sábado, 4 de setembro de 2010
Lógica?????
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 14:46 | Sábado, 4 de setembro de 2010
Caro Fernando Madrinha, a sua frase

"Nem na primeira votação nem numa eventual segunda volta, visto que esta candidatura vem dificultar anda mais a vida já difícil de Manuel Alegre e reduz as hipóteses de segunda volta"

está desprovida de qualquer lógica. Os potenciais votantes no candidato Francisco Lopes nunca iriam votar em Cavaco Silva. Se não houvesse candidato do PCP, eles iriam ficar em casa ou votar num dos outros candidatos da esquerda. Assim, a candidatura de Francisco Lopes irá SEMPRE reduzir a percentagem de votos obtidos por Cavaco Silva na 1.ª volta e por conseguinte AUMENTA as hipóteses de uma 2.ª volta. Por outra lado, quase ninguém duvida que Cavaco Silva vai ficar em 1.º lugar na 1.ª volta e Manuel Alegre em 2.º, independentemente do número de outros candidatios da esquerda. Assim, a única questão é saber se Cavaco Silva obterá a maioria absoluta na 1.ª volta ou não. A candidatura de Francisco Lopes reduz essa probabilidade. Além disso, numa eventual 2.ª volta, não há qualquer dúvida que a grande maioria de votantes no Francisco Lopes vai então preferir o mal menor e votar em Manuel Alegre. Como muitas destas pessoas provavelmente não iriam votar na 2.ª volta depois de terem ficado em casa na 1.ª, no caso de não haver candidato do PCP, a candidatura de Francisco Lopes irá também aumentar as hipóteses de Manuel Alegre numa eventual 2.ª volta.

Elementary, Watson.
 
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Lógica????...
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 22:14 | Sábado, 4 de setembro de 2010
Concordo em absoluto com o George. Não é a primeira vez que encontro este argumento e nunca o compreendi: que ter mais candidaturas numa área, fragiliza-a, e reduz as hipóteses de uma segunda volta. Aliás, é muito fácil mostrar o quanto isso é ilógico por um simples raciocínio: se houver só um candidato da direita, e a esquerda decidisse apresentar só um candidato, então NUNCA teríamos a segunda volta. Como é que então se pode argumentar que adicionar mais um candidato diminui as hipóteses de ela ocorrer?

Um leque alargado de candidatos significa idealmente mais por onde se escolher, mais pontos de vistas com que se identificar e teoricamente menos possibilidades do eleitorado invocar faltas de escolhas para não votar. Duas voltas, tornadas mais prováveis por isto, aumenta as possibilidades dos candidatos se darem a conhecer realmente e a construírem empatias com o eleitorado... não me interessa os rombos que isto poderá poderá provocar nas tácticas do facciosismo, se a exposição mostrar um candidato inadequado, é bom que ele não seja eleito (e isto significa que as surpresas são bem vindas). E nesse aspecto, ter vários candidatos da mesma área, é uma vantagem se os mesmos não se hostilizarem... uma pode sempre fazer as perguntas embaraçosas que outros a bem de uma certa imagem não podem fazer. Finalmente, depois de votado no que se quer, a votação no mal menor do George...

Resumindo, nisto, não concordo consigo, Fernando Madrinha.
 
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SCUT
pjcaldeira (seguir utilizador), 1 ponto , 10:08 | Domingo, 5 de setembro de 2010
O único caminho possível para o nosso Estado é o da redução da despesa e as SCUT são o primeiro alvo a abater no desperdício de dinheiros públicos. Desculpe-me quem lá passa sem pagar mas não consigo entender a justiça ou racionalidade das SCUTS. Ou pagam todos ou não paga ninguém.
Mas, infelizmente, a eliminação das SCUT é uma gota no oceano (ou monstro orçamental). Outras gotas e estancar são as empresas municipais, os pareceres pagos a peso de ouro a escritórios de advogados privados, as obras publicas sem qualquer retorno económico ou beneficio social.
Mas a parte de leão vão ter que ser os desperdício da saúde, os gastos excessivos da educação (cada aluno custa ao Estado 5000 €/ano!!!) e, principalmente, ordenados de funcionários públicos e reformas…
 
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PCP ARRISCA
Anamanacosta (seguir utilizador), 1 ponto , 11:50 | Domingo, 5 de setembro de 2010

Ao apresentar um candidato próprio o PCP arrisca muito. Cinco anos depois das últimas eleições houve mudanças no panorama político. Nas últimas legislativas os eleitores arriscaram e dividiram os votos pela esquerda dando-lhe uma maioria dividida. O uso que o PCP e o Bloco deram a estes votos foi inútil. Depois de encostarem o segundo Governo de Sócrates à parede, lentamente, apagaram-se da cena política dando o palco à direita. Esta apareceu como a verdadeira alternativa de governo. Ao repetir o que sempre fez nas eleições presidências, apresentar um candidato próprio, o PCP corre o risco de fixar um eleitorado muito pouco significativo, ficando associado a uma percentagem ínfima de eleitores até às próximas eleições legislativas.
 
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