A dívida pública e os juros crescentes ameaçam mergulhar o país na bancarrota, mas os gastos do Estado, que deviam diminuir, não param de aumentar. O desemprego atinge 600 mil portugueses, muitos dos quais vão perder o subsídio em breve, e o parco investimento, público e privado, não cria postos de trabalho em número que se veja. A miséria entra em casa de muitas famílias que ainda há pouco viviam com um mínimo de condições e a chamada classe média empobrece dia após dia, sobrecarregada de impostos e com a perspetiva fatal de um aumento das taxas no crédito à habitação. A Alemanha cresce a olhos vistos, mas os restantes países europeus dão apenas sinais tímidos de uma recuperação insegura. E, nesta semana, mais um prémio Nobel da Economia veio declarar que as medidas de austeridade para fixar o défice em três por cento estão a empurrar a Europa para uma nova recessão.
Perante este quadro negro, os dois maiores partidos portugueses falam de eleições. E o primeiro-ministro pede confiança a um país que não encontra motivos para confiar nem nos responsáveis pela condução dos seus destinos nem naqueles que se propõem substituí-los. Ou porque as prioridades que apresentam, como a revisão constitucional ou os apelos indiretos a novas eleições, no caso de Passos Coelho, não correspondem às urgências a que é preciso acudir, ou porque os seus discursos não colam à realidade, como sucede com um primeiro-ministro apostado em mostrar apenas o lado menos sombrio dessa realidade.
Infelizmente para José Sócrates e para o país, não basta deixar de falar nos problemas para que eles deixem de existir. Mas a verdade é que se tem esforçado por banir esses problemas das múltiplas intervenções públicas a que se dedicou desde o regresso de férias. Ora, um chefe de Governo não pode ser a voz da descrença e do desânimo - já temos vozes dessas que bastem. Mas, sabendo-se que o ano político que agora começa será o mais crítico dos que vivemos até agora, com o compromisso da redução substancial do défice a pairar sobre as nossas cabeças, o chefe do Governo não pode iludir os portugueses com um otimismo irrealista e desajustado. Essa é, aliás, a melhor via para comprometer a confiança que procura inspirar. O seu entusiasmo com o crescimento da economia no segundo trimestre de nada valerá se chegarmos a dezembro e o Governo tiver que adotar medidas drásticas adicionais para cumprir os compromissos que assumiu com Bruxelas. E duvida-se de que o primeiro-ministro esteja hoje em condições de garantir que essas medidas não serão necessárias.
Agora que José Sócrates e Passos Coelho fizeram as suas representações de verão, entre Quarteira e Mangualde, falando cada um do que mais lhes interessava, é tempo de começarem os dois a falar do que nos interessa a todos. E que, em vez do clima de crispação e guerrilha em que aplicam o melhor das suas energias, se disponham a conversar um com o outro sobre as coisas sérias que nos afligem. Não é pedir de mais. Do mesmo modo que não é de mais pedir ao Presidente da República que, entre a promulgação de leis e a preparação da recandidatura, use a sua autoridade e a sua influência para tentar promover os consensos políticos de que o país necessita.
PCP prefere Cavaco
Com Francisco Lopes, o único candidato presidencial indicado e não apenas apoiado pelo seu partido, fica completo o leque de concorrentes à esquerda. Assume-se como a voz do PCP numa corrida em que a única ambição é fixar o eleitorado comunista mais fiel e condicionar, quanto possível, a eleição de Manuel Alegre.
Definitivamente, o partido de Jerónimo não quer que os votos comunistas se misturem com os do PS e do Bloco de Esquerda. Nem na primeira votação nem numa eventual segunda volta, visto que esta candidatura vem dificultar anda mais a vida já difícil de Manuel Alegre e reduz as hipóteses de segunda volta.
Não podendo eleger o seu próprio candidato, entre Alegre e Cavaco o PCP prefere Cavaco, algo que nunca admitirá publicamente, mas que é bastante compreensível. O atual Presidente é muito mais formal, institucional, pragmático e previsível do que Alegre - de mais a mais tendo este, não só o apoio de Sócrates como a companhia do Bloco. E o PCP sempre apreciou a segurança de saber com o que conta. As diferenças ideológicas não o impediram de estar em consonância com o Presidente em vários momentos sensíveis. E o facto de Cavaco vir da direita já não é o obstáculo que seria noutros tempos. Tem, aliás, a vantagem de permitir ao PCP distanciar-se sempre que lhe convém para retomar o seu apreciado papel de contrapoder.
SCUT para sempre?
O PS e o PSD negociaram durante meses a introdução de portagens nas SCUT. Enquanto nada se decidia, as concessionárias gastaram uns milhares de euros - trocos para quem tem contratos de milhares de milhões com o Estado - a fim de que tudo estivesse a postos na primeira data prevista. Uma delas, a Ascendi, do grupo Mota-Engil, tratou logo de apresentar a conta. Não se sabe o que mais admirar: se a trapalhada que o Governo não sabe ou não quer deslindar se a pressa da Mota-Engil para receber o seu pecúlio, que estará sempre garantido no caso de haver portagens. Mas haverá? Possivelmente, Jorge Coelho sabe ou desconfia que, além de estar praticamente esgotado o orçamento para SCUT em 2010, as portagens vão ficar para o Dia de São Nunca.
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Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010