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Na mesa do PEC

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 11 de março de 2010

As avaliações de carácter estão na moda. E todas as polémicas parecem andar à volta disto. Como se não fosse de política que estamos a falar. As relações estreitas entre governantes e empresas não são uma questão de carácter. São um assunto de política e de economia, ou seja, de economia política.

A verdade é esta: sempre que aperta a crise o discurso favorável ao emagrecimento do Estado intensifica-se. Todos sabemos que desta conversa nunca resultou a redução da despesa. Apenas se trata, quando o negócio deixa de dar, de entregar funções públicas, daquelas que dão sempre por maior que seja a crise (saúde, educação, serviços fundamentais), a quem não se safa com o seu próprio negócio. Alguns privados saem do sufoco em que se encontram. E o dinheiro público paga a factura. Sempre que nos falam do emagrecimento do Estado parece que nos estão a fazer um favor. Mas não estão. Estão apenas a usar os recursos públicos para se salvarem.

Já aqui escrevi uma vez: as maiores empresas portuguesas têm uma golden share no Estado. A presença de Coelho, Vara, Ferreira do Amaral, Pina Moura, Dias Loureiro e tantos outros em tantos conselhos de administração de empresas é apenas o preço que estas pagam para continuar a ter no Estado o saco sem fundo de que precisam. Não querem menos Estado. Querem o Estado para eles.

Nos próximos dias, com o Pacto de Estabilidade e Crescimento , é disto que deveríamos estar a falar: se vamos ser nós a pagar a factura da crise através de uma redução salarial e se o Estado vai pagar a crise das empresas através da privatização de serviços públicos. Ou seja, se vamos pagar duas vezes.

Frango de aviário


Era o nosso sonho pequeno-burguês: casa própria, emprego com direitos, poupanças para ajudar os filhos, educação paga, saúde gratuita e descanso no fim da vida. Previsibilidade. Há quem ache coisa mesquinha. Mas esta segurança foi o nosso pequeno quinhão de liberdade conquistado no século XX.

Depois de vender as vantagens do risco absoluto, Ryan Bingham (George Clooney, em "Nas nuvens"), que se dedica a despedir pessoas em nome dos outros, explica à audiência a sua boa nova. "Quanto é que a vossa vida pesa? Imaginem por um segundo que a têm de a carregar numa mochila. Quero que encham com as coisas que têm". A casa, o carro, a televisão, as fotografias de família, a roupa. Agora comecem a esvaziá-la. Tirem tudo o que é dispensável. Assim, leves, serão finalmente livres para caminhar. E continua o exercício: amigos, colegas, irmãos, irmãs, filhos, pais, mulher, marido. Sintam o peso: "quanto mais devagar andamos mais depressa morremos". E conclui com uma frase de efeito: "somos tubarões, não somos cisnes". Não nascemos para o compromisso.

É exactamente isto que o senhor Bingham explica aos homens e mulheres de cinquenta anos a quem anuncia o desemprego: sem nada, no risco absoluto, vocês serão finalmente livres. Sabe que lhes mente. Eles estão presos à dívida, à casa, aos filhos com propinas para pagar. Estão até presos aos seus sonhos. E perderam a segurança, a única coisa que lhes oferecia alguma liberdade.

O mundo que os ryans deste planeta nos vendem não nos quer livres. Quer-nos disponíveis para produzir. De novo escravos sem futuro. Nem cisnes, nem tubarões. Apenas frangos de aviário.

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010

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