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Nº9 solitário procura companhia

Avançados. O síndroma de Liedson viajando por dentro da cabeça de um ponta-de-lança. Histórias onde também entram Cardozo e Falcão.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
0:01 Quarta feira, 16 de dezembro de 2009

Dentro do relvado, vive quase como um ser especial. É para quem todos olham, até os espiões da bancada, quando o tempo passa e o golo não aparece. São, então, 'olhares que matam'. Desconfiados, no mínimo.

Em todos os jogos, o controlo colectivo complementa-se, a cada lance, com o instinto individual. Por isso, muitas vezes, quando o ponta-de-lança, o tal ser especial, marca o golo libertador, os seus festejos têm quase um ar de reivindicação. Como se resgatasse o seu lugar na ordem de valores em campo.

A relação afectiva entre o ponta-de-lança e o golo é dos melhores romances que se pode ver num jogo de futebol. É, porém, mais do que uma questão de pura inspiração. O futebol é cada vez mais um jogo de movimentos. Acredito, porém, que até o instinto, a intuição que leva a dizer 'adivinhou onde a bola ia cair', pode ser um trabalho com traços científicos. Para isso, está o treino. O ateliê da intuição táctica.

Desde sempre, os defesas-centrais não costumam ser pessoas com aparência de quem se possa ficar amigo facilmente. O ponta-de-lança chega perto deles e sente-os logo de sobrolho carregado, dentes cerrados, a respirar-lhes na nuca. Por esta simples descrição, puramente sociológica, é bom nestas alturas um homem não se sentir sozinho. Deseja, claro, uma boa companhia. Alguém com quem falar (com ou sem bola) e planear os tais movimentos que enganem a incómoda vigilância.

Há pontas-de-lança que vivem (movem-se) melhor sozinhos nesse mundo. Há outros que não. Nem é uma questão de medo. É uma questão de estilo e tipo de movimentos. O normal, porém, é todos eles terem apoio. Ele pode é ter diferentes formas de existir (ou chegar). Ou tem um companheiro fixo ou ele aparece quando é necessário.

Liedson, sempre foi um exemplo de quem não pode ou não deve (nem gosta) jogar sozinho. Por isso aparecia o 4x4x2, e a tal dupla de avançados. Agora que lhe apareceu um sistema onde ele surge, de início, solitário (4x2x3x1) disse que não se sentia bem e se calhar até era melhor jogar outro companheiro. É a tal questão dos movimentos.

Sem outro jogador próximo, os tais centrais duros só o vêem a ele, marcam-no em cima e tiram-lhe a amplitude de espaços para se mover. Antes, em 4x4x2, Liedson caía muitas vezes na faixa (tão longe da área), arrastava defesas e depois regressava (de novo perto da área), baralhando marcações. E fazia golos assim. Agora é diferente. Muda o sistema, mudam-se as vontades.

Veja-se, noutro ponto, a dupla do Benfica e como antes da época, com Cardozo (pelas suas características) fixo na área, se falava da necessidade de ter por perto outro avançado, diferente, mais móvel, que fugisse mais da área, arrastasse defesas. E surgisse depois outra vez por lá. É o que faz Saviola. E assim a dupla funciona. Eis, outra vez, o tal 'jogo de movimentos' interligados. Era por isso que Menotti dizia que, no campo, uma boa equipa é um conjunto de 'pequenas sociedades'.

No FC Porto, Falcão, em 4x3x3, parece jogar sozinho entre os centrais. Mas é mesmo apenas 'parece'. Porque, no jogo (nos seus movimentos) Hulk aproxima-se dele, Varela ou Rodriguez também. Não vivem é sempre a seu lado, nem ele quer ou pede. Porque tem um estilo diferente (de Liedson ou Cardozo). Joga em espaços mais curtos, faz tabelas, move-se rápido, mas, sem sair muito da sua zona, respira bem no 'aquário' da área.

O problema de Liedson é que ele não nasceu para viver sozinho, fixo dentro da área. Precisa de companhia e espaço para mover-se, viver (jogar) bem.

Não é uma questão do sistema. É uma questão de afinar movimentos, os seus e com os dos jogadores em seu redor, sobretudo os que vêm das faixas ou desde trás. Demora tempo. Porque no futebol não existe 'amor à primeira vista'. Enquanto não nasce uma nova relação, o leve solitário joga como quem mói um sentimento. Esperando companhia.

Mourinho: a 'sombra'

Antes do jogo, no ar, sentia-se a ameaça do "sorriso do diabo". Itália não gosta muito de estrelas tácticas intrusas vindas de outros mundos. É uma questão de cultura. Ou de 'trincheira' cultural. Mourinho abala as consciências do Calcio. Cada declaração sua é um desafio ao statu estabelecido. A equipa não tem qualquer hipótese de ganhar um concurso de beleza, mas, no campo, vence com tanta naturalidade que deixa de ser notícia. Por isso, a ameaça de sair da Champions despertou os instintos mais primários. Chegava o Rubin Kazan. E o jogo foi duro. O semblante fechado de Mourinho, de pé no banco, aguentou o impacto. Até que surgiu Balotelli, um jogador que, mais do que um caso de treino na relva, é um caso para um divã futebolístico. Joga entre o inferno e o paraíso. Surgiu com um remate-bomba que levava vida própria. Golo! 2-0 e o Inter segue em frente. Já não é notícia. Mourinho e o seu rude onze continua na Europa. Agora ele próprio com o "sorriso do diabo". Como o bom e velho histórico Calcio.

O coelho e a cartola

Saiu de Madrid sem ter encontrado o seu espaço. O que seria, afinal, um simples coelho (ainda por cima baixinho e argentino) num mundo tão galáctico de jogadores pop-stars? No campo, até podia ser muito, mas o Real Madrid tem hoje uma lógica que ultrapassa muito essa simples coisa dos 90 minutos. E o coelho foi embora. Até chegar a Lisboa. Outro mundo. Na relva da Luz, encontrou um habitat ideal. Fez amizade com uma girafa paraguaia e renasceu para o jogo. Nesta história, o poético chapéu que, sob chuva até pareceu mais bonito, fez ao guarda-redes da Académica, levando a bola mansamente até ao fundo das redes, é um conto de futebol fantástico. Saviola tem, dentro de si, o futebol mais puro. O que saiu da rua (os potreros de terra como lhe chamam os argentinos) para o relvado, sem perder os seus genes. Não é um ADN galáctico. É outra casta. O ADN do futebol de rua. Uma pop-star para seduzir a miúda da casa ao lado e, logo depois, com dentes de coelho, resolver jogos de futebol.

No céu da Europa

Há imagens que falam. Quando, na noite gelada de Madrid, Bruno Alves, logo no início, subiu às alturas e, por instantes, pareceu ficar mesmo parado lá em cima, cabeceando com força e precisão, enquanto todo o resto do mundo (entenda-se defesas espanhóis) ficava em terra, o onze portista sentiu que estava a passar para outra dimensão futebolística. É o chamado "céu da Europa", a elite da Champions. O jogo tornou-se num passeio. O Atlético de Madrid de Quique é hoje um onze fantasmagórico.

O FC Porto, diz-se, "está a crescer". O estranho será ver alguém crescer tanto em apenas uma semana. Ainda há pouco tempo eram só problemas. Agora, dois jogos, duas vitórias, e descobre-se o caminho. Não é assim tão simples.

Factores para a reabilitação: a entrada de um lateral que sabe subir e permite ao extremo desse lado jogar mais por dentro (fazer as tais diagonais) e não obriga o médio desse lado, por definição interior, a sair tanto da sua posição para ir até ao flanco. O lateral que entrou (regressou) foi Fucile. O homem da ala (mascarado de extremo) tanto pode ser Varela como Hulk. O médio interior tanto pode ser Belluschi como Guarin, Valeri ou até Meireles, quando passa para esse lado. Jesualdo sabe que, assim, a equipa pode voltar a poder variar de sistema (entre o 4x3x3 e o 4x4x2) sem ser obrigado a trocar de jogadores.

Fucile e Bruno Alves são muito diferentes. Na altura e no estilo. Mas se o central fez um golo perto do céu, o que o uruguaio raçudo trouxe ao jogo foi a chave que reabriu os novos horizontes tácticos à equipa. É a importância de Fucile. Na terra nacional (em Guimarães), como no céu da Europa (em Madrid), o FC Porto virou uma página decisiva da época. Tem tudo para, a partir de agora, escrever histórias (exibições) mais interessantes.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009

 

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tou farto
frufru (seguir utilizador), 1 ponto , 19:51 | Quinta feira, 17 de dezembro de 2009
tou farto deste filosofo, lampeao encapotado, estou farto, nao tenho pachorra com tanta pretensa sabedoria bacoca, o homem ate quer ser diretor desportivo vejam bem...
 
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