Durante mais de seis meses a Comissão de Inquérito Parlamentar à nacionalização do BPN funcionou de forma exemplar. Muito por acção de três deputados: João Semedo, Nuno Melo e Honório Novo. Pela primeira vez em muitos anos, o Parlamento mereceu um elogio generalizado e as tão mal afamadas comissões de inquérito ganharam alguma credibilidade.
Esta semana chegou a vez do relatório. E uma obscura sanfona fez o que se esperava: deu música ao país. Mostrando que não se deixou influenciar pelos depoimentos dos inquiridos, a relatora não tirou nenhuma consequência do que ouviu. A não ser uma vaga ideia: a de que o Banco de Portugal poderia ter sido mais diligente. Na realidade, como ficou evidente na Comissão, Vítor Constâncio fechou os olhos a quase tudo. Supervisionou mal e nunca actuou quando tinha de actuar.
Diz-se no relatório que a situação que levou à nacionalização resultou da crise dos mercados financeiros, o que é pura e simplesmente falso. E não se explica porque se deixou de fora da nacionalização os activos financeiros da SLN, aumentando assim a factura a pagar pelo Estado e descomprometendo os accionistas. Assim como não se explica porque foram as contas do Banco Insular incluídas nas do BPN, apesar deste 'balcão' ter cinco titulares que ficaram libertos de um buraco de mais de quinhentos milhões de euros.
Não mudo um milímetro no balanço que faço deste inquérito. Os factos lá estão, prontos para seguir para a Procuradoria. E lá esteve, exposta a todos, a promiscuidade entre a política e os negócios. As conclusões do relatório ficam apenas para o currículo de uma deputada a quem o PS deu esta tarefa e que, graças à sua irrelevância, a aceitou com todo o zelo. Um parlamentar sem autonomia para se recusar a fazer este triste papel não tem condições para ocupar o lugar.
Os partidos devem começar a ser punidos por pôr nas suas listas simples marionetas dispostas a tudo para manter o seu lugar. Por isso, os eleitores devem decorar este nome: Sónia Sanfona. Mas também o nome dos que cumpriram a sua função. A política é feita por pessoas. E elas não são todas iguais.
D'Orey é do povo
As marias albertinas já não vão nessa de chamar vanessa às suas meninas. Segundo o Instituto dos Registos e do Notariado, passámos a outra fase. Apesar de nunca terem perdido o destaque que merecem, as marias, as anas e as fátimas deram, há uns anos, lugar às tânias, vanessas, cátias e kátias - com diferentes e imaginativas conjugações.
Pois bem, se do nome mais popular se passou para o de estrela de novela, agora deu-se mais um salto social, com o regresso à tradição mas com outra patine. São os rodrigos e os diogos, os martins e os tomás, as beatrizes e as matildes que se multiplicam como coelhos. Das duas uma: ou as famílias numerosas da linha de Cascais e da Foz estão a cumprir com especial empenho as suas funções reprodutivas ou o país está a explicar que futuro espera para os seus filhos.
Eu, que sou da geração nascida de uma burguesia culpada, das catarinas e das marias sem mais nada, de poucos apelidos e da interdição do uso público de artigos presunçosos, vejo com alegria este grito de ambição. Começa-se pelos nomes próprios. Mas só quando o Espírito Santo, o Mello e o D'Orey estiverem ao alcance de todos saberemos que conquistámos finalmente a democracia plena. Que se nacionalizem já!
Daniel Oliveira