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Mulheres no futebol: Elas são boas de bola!

Os campeonatos nacionais de futebol feminino já contam  com 37 equipas espalhadas pelo país. Fomos ver quem são as craques dos plantéis do 1.º Dezembro e do Futebol Benfica. E, surpresa, elas são giras! Veja a fotogaleria Clique para visitar o canal Life & Style.

Mariana Cabral (www.expresso.pt)
12:26 Segunda-feira, 16 de Nov de 2009
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Produção fotográfica com jogadoras de futebol... Mas elas não são todas horrorosas?" Admita, caro leitor, o primeiro pensamento que lhe atravessou a mente quando viu estas páginas foi precisamente este. O preconceito é generalizado e foi debatido na reunião de redacção da "Revista Única" antes de chegar a estas páginas. O desconhecimento é o seu principal catalisador. Afinal, o futebol feminino não costuma figurar nem nos jornais nem nas televisões. Mas havia alguém nessa reunião com conhecimento de causa sobre o assunto. Como praticante da modalidade e, também, como jornalista, irrita-me a perpetuação desta ideia feita. Por isso, imediatamente candidatei-me a desmistificar a imagem com que o futebol feminino português é conotado.   Felizmente, tinha dez colegas dispostas a ajudar-me. "Uma vez disseram-me que as mulheres que jogam futebol são todas camiões. Disparate, porque o futebol também pode ser bastante feminino. Acho que ninguém é mais ou menos feminino por jogar futebol", diz Telma Xavier, estudante de audiovisuais. Mafalda Gomes, jogadora que divide os estudos com o trabalho de modelo da agência Elite, é prova viva disso. "Sinto-me tão confortável à frente das câmaras como no campo, apesar do campo ser especial, por ser uma grande paixão." 

Beleza nas quatro linhas 

Morenas ou loiras, modelos ou advogadas, as jogadoras portuguesas são do mais diverso que pode existir. Não são feias nem bonitas, são mulheres que por acaso jogam futebol. Afinal, o que importa a beleza dentro das quatro linhas? Nada. Quer dizer, quase. "É óbvio que não me arranjo, mas por acaso pinto sempre as unhas de vermelho quando há jogos. Acho que fica bem com o equipamento", graceja a engenheira Ana Pontes, que veste a camisola preta e vermelha do Futebol Benfica. "Dizem-me sempre: não te imaginava nada como jogadora. Quer dizer, como se as jogadoras fossem todas iguais?", pergunta. Rita Monteiro, consultora de 28 anos, responde à questão da colega. "As pessoas ainda acham que só as marias-rapazes é que jogam e isso prejudica-nos."

O preconceito impede que a modalidade se torne mais popular em Portugal, tal como é nos Estados Unidos, onde há tantas mulheres a jogar como homens. O sucesso da selecção americana, uma das potências do futebol feminino, explica-se com o elevado número de adolescentes que praticam o desporto desde 1970, ano em que foi aprovada uma lei que proibiu a discriminação sexual nas actividades desportivas praticadas nas escolas. A prática devia ser adoptada em Portugal, argumenta Inês Quintanilha, museóloga "A sociedade que temos está construída no masculino e isso reflecte-se no desporto feminino em geral e no futebol feminino em particular."

Toda a gente gosta de futebol 

De facto, na última década, Portugal manteve-se na cauda dos países da União Europeia com a mais baixa taxa de actividade desportiva feminina. No ano passado, estavam registadas cerca de 1400 atletas na Federação Portuguesa de Futebol, número ínfimo comparado com as centenas de milhares de jogadores masculinos. "O futebol feminino ainda é uma pequena sombra do masculino. É pena, porque futebol é futebol e toda a gente gosta de futebol", acrescenta Inês. Carla Couto, a mais internacional jogadora portuguesa, com 35 anos, acrescenta que a situação mudaria drasticamente caso os três grandes, Benfica, Porto e Sporting, criassem equipas femininas.

Paixão desde criança

Não há dúvida que estas jogadoras respiram futebol. Todas começaram a jogar em crianças e mantiveram a paixão ao longo dos anos. Filipa Galvão, jogadora do 1º Dezembro, foi influenciada pelo pai, Luís Felipe, jogador que chegou a representar o Benfica. Sofia Venâncio, hoje professora de educação física, fez birra quando viu que o irmão começava a jogar a sério, aos 12 anos, e ela não. Inês Quintanilha, perante a falta de bolas para jogar, partiu o globo lá de casa aos pontapés. A vontade de todas foi sendo progressivamente aceite pela família e amigos. "Para mim era só uma brincadeira, mas o meu namorado insistiu tanto para que fosse para uma equipa a sério que fui. Por acaso, agora ele é meu ex, mas ainda lhe agradeço muito por me ter obrigado a ir!", conta entre risadas Rute Louro. A advogada admite que tem dificuldades em conciliar o trabalho com a modalidade, mas não desanima, nem pensa desistir. "Isto é um compromisso sério com as minhas colegas e com o clube. Não é um hobby, que se faz só quando apetece. Isso é jogar às cartas ou ir ao cinema", argumenta.

A tentativa de manutenção de um certo grau de profissionalismo, apesar de todas serem amadoras, é algo que salta imediatamente à vista na conversa com as atletas. Ninguém ganha dinheiro, mas todas levam o futebol muito a sério e a equipa é uma espécie de família com quem estão quase todos os dias. "A minha equipa está no pódio das coisas mais importantes da minha vida, com a família e os amigos. Mas a maioria das vezes abdico do resto para fazer coisas relacionadas com o futebol, por isso acaba por ser o mais importante", admite Ana Pontes. E, por vezes, o mais importante causa problemas graves. "Há uns anos fiz uma fissura na rótula. A médica disse-me que nunca mais iria jogar futebol. Olhei para ela e respondi: vamos lá ver se isso vai ser bem assim!" A consultora informática Rita Monteiro diz que lhe custou ter de deixar de jogar durante dois anos, quando estava inserida num projecto profissional complicado. Agora, tenta organizar o trabalho em função dos dias de treino, tal como faz Sofia Carvalho, cientista no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Determinação precisa-se 

A determinação é uma qualidade indispensável às jogadoras de futebol portuguesas. Especialmente às do Futebol Benfica. Isto porque, na época passada, todas as jogadoras da equipa eram atletas da equipa do Odivelas. Só que essa equipa, depois de ter conquistado a 2ª Divisão e de ter batido o campeão 1º Dezembro na Taça Portugal (vitória histórica, visto que o 1º Dezembro não perdia um único jogo há quase três épocas), foi extinta pela direcção do clube. "Foi simplesmente das piores coisas que já me aconteceram. Tiraram-nos o chão. Fizemos história, mas para eles foi só adeus, boa sorte", diz Ana, que jogava no Odivelas há oito anos. Sofia Carvalho, capitã da equipa, concorda. "Foi terrível, ninguém imagina. Como é que um clube com a dimensão do Odivelas entra em insolvência e nem sequer se responsabilizam os culpados? É típico em Portugal, utiliza-se o cargo para uso pessoal", desabafa a cientista. "Se tivesse sido uma equipa masculina a sofrer o que nós sofremos, talvez tivesse sido um escândalo. É exemplificativo da consideração que a modalidade tem. Tivemos de ser nós a lutar pela nossa sobrevivência", atira. E conseguiram-no, mudando de clube e arranjando patrocínios de milhares de euros sozinhas. Actualmente, continuam a dirigir a sua própria equipa, sem directores, mas com a assistência do presidente do clube, o único homem, a par do treinador, com permissão para entrar no balneário.

Um homem no balneário!

Mas só quando batem à porta e aguardam autorização, explicam elas. Quer dizer, nem sempre. "Há uns anos, na selecção, chegou um adjunto que não estava habituado a jogadoras. Uma vez, entrou pelo balneário sem avisar e apanhou algumas nuas. Mas ficou tão envergonhado que nunca mais se esqueceu de bater à porta", conta Carla Couto com um sorriso trocista.

Apesar de o futebol feminino estar longe dos holofotes e dos milhões, é jogado com tanta intensidade como o masculino. Ou até mais, defendem as suas intervenientes. "Nós somos mais esforçadas do que os homens e fazemos menos drama. Se estamos lá para jogar, é para jogar! Aliás, nós abdicamos de tanta coisa na vida para poder jogar, que quando chega a altura não fazia sentido fazer outra coisa", explica Ana com desenvoltura. Carla Couto, a mais experiente do grupo, concorda e nota que a modalidade tem evoluído através da 'carolice' das jogadoras, apesar de a Federação Portuguesa de Futebol já ter instituído parcas medidas de apoio. Uma das conquistas mais recentes é a realização da final da Taça de Portugal feminina no Estádio do Jamor pela primeira vez, a 10 de Abril do próximo ano. "Todas as jogadoras em Portugal fazem um esforço enorme e são recompensadas por estes pequenos passos", explica a maior referência nacional do futebol feminino.

Figo de saias

A número 9 da selecção é habitualmente apelidada de Figo, por já contar com mais de uma centena de internacionalizações, tal como o director do Inter de Milão no masculino. Por isso, Carla é vista pelas mais novas como um ídolo, apesar de não se considerar como tal. "Não sou exemplo para ninguém, sou demasiado irreverente dentro de campo. Mas aceito que possa ser considerada um símbolo, por tudo o que já dei ao futebol", explica. Carla chegou a viver, durante alguns meses, o sonho de muitas jogadoras: ser profissional. "Joguei na China e em Inglaterra. Se gostava de fazer disso vida? Claro! Mas a idade já não permite correr atrás desse sonho. Foi bom enquanto durou", diz a jogadora, que já conta com mais de duas décadas de futebol nas pernas.

Actualmente, várias jogadoras da selecção portuguesa actuam profissionalmente (ou semi) em Espanha, nos Estados Unidos e na Islândia, o que comprova o potencial do futebol feminino latino. A selecção nacional portuguesa ocupa o 40º lugar do ranking da FIFA, mas tem vindo a conquistar boas exibições sobre adversários de topo. Agora só falta concretizar essas exibições com resultados, visto que Portugal nunca conseguiu apurar-se para uma fase final de um campeonato da Europa ou do Mundo.

O que elas podem garantir é que vão continuar a lutar nos relvados. Mesmo longe das câmaras e mesmo se o futebol feminino continuar a ser visto como o parente pobre. No fundo, é como um casamento. Estamos nele para a saúde e para a doença. Se todas podíamos viver sem futebol? Podíamos. Mas não era, de todo, a mesma coisa.

(Texto publicado na edição 14 Novembro 2009, Revista Única)

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