Liderança
Mulheres em movimento
A secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, comprometeu-se a seguir um mandamento: dar uma hipótese à gestão no feminino.
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Ana Sofia Santos
0:01 Sábado, 8 de março de 2008
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Em primeiro plano: Ana Paula Vitorino e da esquerda para a direita Fernanda Meneses, Regina Ferreira, Natércia Cabral, Lídia Sequeira e Rita Martins
Luiz Carvalho
Escolher mulheres para liderar um sector tradicionalmente masculino é "uma linha de orientação" que a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, faz questão de seguir desde que tomou posse, em Março de 2005. Isto porque a engenheira civil foi a primeira mulher, em Portugal, a ser escolhida para ditar as políticas públicas nos sectores marítimo-portuário, logístico, ferroviário, transportes urbanos e rodoviários. Cargo que assumiu prometendo-se cumprir um mandamento: puxar para o topo outras mulheres. Na passada terça-feira, a secretária de Estado fez questão de reunir com as suas catorze líderes de primeira linha a propósito do Dia Internacional da Mulher, que se comemora hoje. O Expresso ouviu cinco destas gestoras que, a pulso, conseguiram afirmar-se num mundo de homens.
"É uma questão de justiça", diz Ana Paula Vitorino, repetindo a conhecida estatística de que "mais de 50% dos estudantes universitários são mulheres". Além disso, salienta que todas as mulheres que nomeou lhe apresentam melhores resultados "do que aqueles que havia antes". Quando chegou não havia uma só mulher em lugares de topo nos sectores por si tutelados. Quase três anos depois a liderança no feminino já soma 20% de quota. Ana Paula Vitorino gostava que existissem mais, as suficientes para que a gestão feita por mulheres deixasse de ser um tema. Perturba-a, sobretudo, o facto de ainda não existirem gestoras nos conselhos de administração da CP (Comboios de Portugal), Refer (Rede Ferroviária Nacional) e Metro de Lisboa e do Porto, embora neste último caso deixe escapar que "a situação pode mudar entretanto".
Para ilustrar "o que são mulheres a trabalhar" recorda um episódio passado com a presidente do porto de Sines, Lídia Sequeira. Foi a 13 de Junho de 2005 e a situação exigiu uma actuação rápida e eficaz já que em causa estava a permanência em Portugal da empresa concessionária do Terminal XXI, a PSA. "Soubemos que havia a hipótese de saída da empresa e confrontámos de imediato a administração da PSA em Portugal", recorda Ana Paula Vitorino. A conversa foi frontal: "Dissemos-lhes que nem pensassem que iam sair daqui sem mais nem menos". Mas os interlocutores passaram a bola para cima. "A solução foi marcar uma reunião com o presidente da PSA na Europa", adianta. Depois de uma viagem de avião e de carro chegaram a Antuérpia. Em menos de 24 horas estavam de volta com a garantia de que a PSA não só não ia sair como iria investir mais em Sines. O segredo foi, segundo a secretária de Estado, terem estabelecido um plano de acção imediato e fazerem o que tinham a fazer "sem perder tempo com cartinhas, nem com almoços".
"Estamos programadas para definir objectivos e traçar qual o caminho mais curto para os atingir", acredita.
Regina Ferreira
57 Anos, Presidente do Conselho de Administração da Ferbritas, empresa do grupo Refer
"Trabalho num dos sectores mais masculinos, mas estamos a caminhar para reduzir o desequilíbrio profundo que existe e que não corresponde à importância que as mulheres já têm nas profissões, nas universidades e nas administrações, direcções e chefias no trabalho. É mais fácil para os homens situarem-se na profissão e progredirem na carreira", considera a presidente da Ferbritas, a empresa de engenharia ferroviária e assistência técnica do grupo Refer. Regina Ferreira tem uma longa experiência de liderança no sector dos transportes. Por exemplo, antes de chegar à Ferbritas presidiu ao conselho de administração da OTLIS (Operadores de Transportes de Lisboa) e foi vogal do conselho de gerência do Metropolitano de Lisboa. Diz que "as mulheres exigem muito de si próprias e normalmente conseguem diferenciar-se porque imprimem uma marca de resultados positivos". Deixar obra feita é a forma das "mulheres poderem ter uma participação ou na política ou em cargos de alta direcção". E conclui que a grande diferença entre homens e mulheres é que elas "exigem muito de si próprias".
Ana Paula Vitorino
45 Anos, Secretária de Estado dos Transportes
Na década de 80, quando se licenciou em Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico em Lisboa, era uma das sete mulheres numa turma de 200 alunos. Dessas, apenas cinco concluíram a licenciatura e somente Ana Paula Vitorino atingiu um lugar de topo. A secretária de Estado aponta que logo de início as mulheres são prejudicadas pelas regras de organização da sociedade e da família, que tornam difícil conciliar a carreira com o direito de ser mãe. Depois são confrontadas com a discriminação das suas "capacidades de liderança, que são avaliadas de acordo com padrões masculinos". "A sociedade criou e perpetuou o poder no masculino com determinadas características como a dureza, firmeza e disponibilidade. Nós temos um tipo de liderança diferente". Na sua opinião, as mulheres também conseguem ser duras, determinadas e firmes, "mas de uma forma menos agressiva". O facto de as gestoras terem uma maior abertura para temas como inteligência emocional é, para a governante, uma vantagem. "É frequente utilizarmos a psicologia, a par com os nossos conhecimentos técnicos".
Fernanda Meneses
67 Anos, Presidente do Conselho de Administração da Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP)
As relações entre patrões e sindicatos são por natureza tensas. Mas há sectores em que a tradução pública dos conflitos laborais é mais visível, o que obriga a um maior 'jogo de cintura' por parte dos negociadores. Fernanda Meneses tem um longo currículo a lidar com estruturas sindicais e o facto de se sentar no lado oposto da barricada não impede que a respeitem. O segredo, considera a gestora, é a "sensibilidade". "A grande diferença entre as mulheres gestoras e os homens é a sensibilidade. Essa é a nota diferencial, não querendo com isto dizer que os meus colegas não tenham um mérito e uma valia igual à minha", adianta. A sua chegada à presidência da STCP foi pacífica uma vez que "conhecia muito bem a empresa porque já lá tinha estado na administração durante oito anos e meio". Reconhece que a primeira vez foi difícil. Para seguir em frente e provar que conseguia socorreu-se do facto de as mulheres terem "uma capacidade de organização maior do que os homens porque estamos habituadas a ter de gerir tudo, desde a família à carreira. Acho que essa ginástica nos dá uma grande vantagem".
Natércia Cabral
61 Anos, Presidente do Conselho Directivo do Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos
Não é mulher para hesitações. Além de ter escolhido um curso pontuado por homens - engenharia civil - optou por fazer um 'baptismo de fogo' mal acabou a licenciatura. Foi fiscalizar obras. A discriminação sentiu-a não na forma de rejeição, mas de excesso de paternalismo. "Tinham medo que eu caísse dos andaimes", recorda. Impor-se e provar que era capaz de ser melhor do que um engenheiro homem não foi fácil porque "não me levavam muito a sério". Depois começou a ter cargos de administração: foi a primeira mulher presidente de um porto e inaugurou também a liderança no feminino no Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes, "que era um organismo com cento e tal anos e que nunca lá tinha tido uma mulher". Nunca mais esqueceu o comentário que ouviu da plateia quando tomou posse como presidente do Porto de Lisboa: "Os anteriores deram-nos jardins e agora vem esta e põe as flores". Não levou a mal e até achou graça. Diz que o primeiro embate é "duro e tem de se trabalhar muito" e que "a nossa mais-valia é a capacidade para gerir sensibilidades e criar harmonia".
Lídia Sequeira
64 Anos, Presidente do Conselho de Administração do Porto de Sines
O primeiro ano à frente do Porto de Sines "foi uma prova de fogo muito difícil em termos de imposição". Nunca mais esqueceu os ataques de que foi alvo quando em Dezembro de 2005 anunciou que, pela primeira vez desde que a empresa tinha sido transformada em sociedade anónima, ia ter resultados líquidos positivos. Muitas vozes atiçadas vieram a terreiro argumentar que era impossível saber isso porque as contas não estavam ainda fechadas. "Ouvir aquilo foi uma coisa espantosa porque qualquer anormal que faz um controlo de gestão mensal sabe, logo em Setembro, se vai ou não ter lucros", atira, frisando que não é "rancorosa" e que já esqueceu o episódio. Sobre o seu trabalho frisa que "é unânime e toda a gente reconhece que nunca um conselho de administração - os dois outros membros são homens - do Porto de Sines conseguiu, ao fim de três anos, consolidar uma relação tão saudável como aquela que nós temos". "Exerço cargos de direcção há 22 anos e acho que a nossa capacidade para harmonizar equipas é a principal característica que nos diferencia dos gestores homens".
Rita Martins
57 Anos, Administradora da Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário
Foi escolhida para integrar a liderança de topo numa empresa de prevalência masculina, muito tradicional, e de mão-de-obra intensiva. Ajudou-a o facto de não ser a primeira experiência como administradora, embora de início tenha sentido "um bocadinho de desconfiança e de pé atrás, mas estava à espera que isso acontecesse sobretudo na empresa". Apesar de já ter um longo percurso de liderança, esta é a sua primeira incursão no sector dos transportes. Formou-se em Direito, fez um mestrado em Contabilidade e começou a trabalhar no grupo L'Oreal. Nos últimos anos passou pelos conselhos de administração, com o pelouro financeiro, da Sointal - Casinos do Algarve e da Credivalor - Sociedade Parabancária de Valorização de Créditos. Isto antes de ter passado por outra indústria tradicionalmente gerida por homens, a defesa. Sobre o desafio actual diz que não levou muito tempo até ter "muito boa aceitação". E faz questão de salientar que hoje se sente "muito bem e confortável neste papel" que desempenha desde Novembro de 2006.
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