Depois da tempestade política que a possível entrada da Portugal Telecom (PT) na Media Capital (MC) provocou, envolvendo inclusive o Presidente da República, é agora ensurdecedor o silêncio da Oposição em torno da saída de José Eduardo Moniz da direcção-geral da TVI, canal apontado por José Sócrates como inimigo número um do Governo.
Uma retirada que ocorre no momento em que a Ongoing - quinto maior accionista da PT (6,7%), proprietária do "Diário Económico" e de quase 25% da Impresa (SIC/Expresso) - negoceia a compra de 30% a 49,9% da Media Capital, por €112 milhões, conforme o Expresso avançou na última edição.
O PSD, que acusou a PT de estar a preparar terreno para fazer um favor ao Executivo, afastando Moniz da TVI, limita-se, um mês depois, a afirmar que não fala de "matérias do foro empresarial". O gabinete do primeiro-ministro também não tece qualquer comentário. Mas nos bastidores da operação sublinhava-se que o Governo, depois de chumbar o negócio da PT para que não houvesse suspeitas de intervenção política, tinha acabado por conseguir que Moniz saísse da TVI antes das eleições.
"Acabar com o 'Jornal Nacional' é irresponsável"
Manuela Moura Guedes, o rosto do "Jornal Nacional" da TVI - acusado por Sócrates de fazer "caça ao homem" e de "ódio e perseguição" - espera regressar ao ecrã a 4 de Setembro.
"Seria muito estranho e um acto de gestão irresponsável, que um jornal líder de audiências de uma televisão comercial fosse retirado do ar. Classificaria de gravíssimo que um jornal que nunca teve um único processo, um único desmentido, acabasse pelo simples facto de incomodar o primeiro-ministro. Estaríamos perante um problema de regime. Nem sequer coloco essa hipótese", sustenta Moura Guedes.
A jornalista não se deixa intimidar. E garante ao Expresso que os advogados continuam a estudar a forma como irá avançar o processo judicial contra José Sócrates, a interpor por Moura Guedes e Moniz, seu marido. Difamação foi uma das possibilidades admitidas na altura, mas agora a jornalista prefere manter reserva sobre o assunto.
A Ongoing, de Nuno Vasconcellos, mantém igualmente sob sigilo os termos da negociação com os espanhóis da Prisa, e não abre o jogo sobre o montante de capital que poderá vir a adquirir. Embora afaste qualquer envolvimento político na sua estratégia de aproximação à MC, a Ongoing é tida como próxima do poder.
A consultora Heidricks & Struggles, trazida para Portugal por Nuno Vasconcellos e o seu sócio Rafael Mora, trabalha com várias empresas e instituições tuteladas pelo Ministério das Obras Públicas, onde entrou pela mão de António Mexia, ministro do Governo de Santana Lopes. Além disso, Rafael Mora teve um papel relevante na organização do movimento Compromisso Portugal.
O Expresso sabe que o homem forte da TVI deverá receber quando entrar na Ongoing cerca de €3,5 milhões, um prémio a ser pago em dinheiro e capital da empresa da família de Isabel Rocha dos Santos, herdeira da Sociedade Nacional de Sabões. A MC desmentiu ontem ter pago €3 milhões a Moniz. O valor que os espanhóis admitem ter pago anda, soube o Expresso, abaixo dos €500 mil.
A investida da Ongoing sobre a MC ocorre em simultâneo com uma proposta de Vasconcellos a Francisco Pinto Balsemão: o reforço da sua posição na Impresa para 50%, através de um aumento de capital de €70 milhões. A Ongoing subscreveria €50 milhões e emprestaria €20 milhões a Balsemão que manteria a liderança editorial, perdendo contudo a maioria do capital.
A proposta não acolheu a simpatia de Balsemão, e causou mesmo algum incómodo ao accionista maioritário da Impresa, que já tinha pedido esclarecimento jurídico sobre um eventual conflito de interesses no caso da Ongoing permanecer no capital da dona da SIC e ter uma posição de relevo na MC.
A posição de Vasconcellos foi lida em alguns meios como um avanço hostil sobre a Impresa.
Filho de um dos fundadores do Expresso e braço-direito de Francisco Pinto Balsemão na Impresa, Luiz Vasconcellos, o líder da Ongoing garante que não foi essa a sua intenção, mas apenas a de "ajudar".
Entretanto, as acções da Impresa fecharam na sexta-feira a €1,48, após um pico de €1,55, uma subida de 43,68% no dia e de 38,32% na semana.
Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Agosto de 2009