Moita Flores: "
Este não é o PSD que me convidou, com o qual tenho trabalhado"
Um dos seus cartazes de campanha fala de 'Liberdade e cidadania'. Tem que ver com a sua condição de independente?
Tem. Faço parte da geração que, muito jovem, viu nascer o 25 de Abril, uma geração que ainda é habitada pela utopia romântica da liberdade absoluta. E a verdadeira liberdade só é possível exercendo em pleno direitos de cidadania, o que implica estar em permanente combate por valores que não se albergam em nenhum partido. Ainda assim, o partido que mais se aproxima deste conceito de liberdade é o PSD. Mas o PSD de Sá Carneiro, Cavaco Silva, Durão Barroso.
Nunca o veremos filiado, portanto?
É muito difícil. Desenvolvi algum fascínio pela vida interna do PSD no tempo em que Cavaco era primeiro-ministro. Nessa altura trabalhei com o então ministro da Justiça Laborinho Lúcio...
Também ele um independente....
Sim, mas albergado numa família plural, alargada, que se regia pela utopia da social-democracia como o exemplo mais absoluto da liberdade individual, da liberdade colectiva, do respeito pelos direitos de cidadania. Foi assim que me aproximei do PSD, mas nunca passou do namoro, sempre senti a necessidade de poder concordar e discordar.
E continua a afirmar, como tem afirmado, que não se sente refém do PSD?
Era Durão Barroso presidente do PSD quando fui contactado para esta hipótese de uma candidatura a Santarém. Houve um conjunto de pressupostos - pluralidade, abertura, trazer mais gente para servir a cidade - e um compromisso - Santarém valerá sempre mais do que a luta político-partidária - que foram aceites. E conseguimos uma das vitórias mais estrondosas do PSD, numa Câmara que sempre tinha sido socialista.
Nunca pensou em criar um movimento de cidadãos?
A ideia inicial foi essa, mas há uma grande dificuldade em fazer uma lista de cidadãos. E logo a seguir surgiu a hipótese do apoio do PSD.
O sistema político, esse sim, é refém dos partidos.
Sem dúvida. Os partidos gostam muito dos independentes, mas só enquanto eles são dependentes (no sentido de terem uma obediência cega aos directórios partidários). Quando eles são mesmo independentes as coisas complicam-se. Desde que sou presidente da Câmara já passaram cinco presidentes pelo PSD. E as relações vão flutuando. Esta opção de liberdade tem custos, por vezes causa amargos de boca. Mas aos 56 anos já é difícil mudar.
Quando foi a disputa entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes envolveu-se na campanha interna, deu o seu apoio a Menezes.
Sim, entendi que era preciso reforçar a discussão. E discordava da visão que Marques Mendes tem do 'crime e política': não se pode ter uma interpretação extensiva do que é ser arguido e condenado. Um político acusado de corrupção não é a mesma coisa que um político acusado de um crime de liberdade de imprensa. Confundir estes dois níveis de crime é perigoso.
Mas concorda que há necessidade de moralização?
Há uma necessidade absoluta. Mas é aí que ainda não chegámos. Porque o debate que está a haver dentro da classe política é um debate descoordenado. É preciso combater de forma definitiva e absoluta os crimes económico-financeiros cometidos por funcionário público, seja este eleito ou não. Estou a falar de corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influências, peculato, crimes que devem ser motivo imediato de suspensão, senão erradicação mesmo, de cargos públicos. E o despacho de pronúncia - o primeiro momento em que há envolvimento de um juiz - deve ser o limite para restrições imediatas, não o momento de constituição como 'arguido', como defendia Marques Mendes.
Nem, como prevê a legislação actual, quando a sentença transitar em julgado.
Isso gera este corrupio de expedientes dilatórios que faz com que se criem os bons e os maus corruptos, os bons e os maus burlões: "Se estás do meu lado és bom, se estás contra mim és mau". Tem de se encontrar uma disposição abstracta e universal. A coisa pública não pode admitir homens e mulheres que a usem em proveito pessoal ou de terceiros. Ninguém tem prazer em ser insultado na praça pública através de generalizações do género "eles são todos iguais, andam todos ao mesmo". Alto e pára o baile! "Eles" são meia dúzia, depois pagam centenas por meia dúzia de patifes.
António Preto não devia estar nas listas de candidatos do PSD?
Se está pronunciado não. Mas é a minha opinião. Devia ser lei. O problema é que a moralização do sistema também serve para a chicana política: dá jeito falar nela quando se está na oposição, mas não quando se está na situação, ou vice-versa. É uma pescadinha de rabo na boca que é necessário resolver rapidamente em nome da fundamentação ética da política, que era uma coisa importante em Cavaco Silva e Durão Barroso. A procura do rigor às vezes dói, mas ser rigoroso é fundamental. E é preciso que seja transversal a toda a classe política.
É curioso que fale em Durão Barroso e não em Manuela Ferreira Leite, quando normalmente é a ela que associamos uma imagem de rigor muito idêntica à de Cavaco.
Hum... não é a mesma coisa. Aliás, estou desolado com este mandato. Ainda criei alguma expectativa mas depois... entraram ali algumas pessoas...
Neste congresso já não se envolveu.
Não. Mas percebi que havia necessidade de uma mudança que não se confirmou. Eu apresentei esta semana a minha lista de candidatos à Câmara, na lógica que tem presidido à minha candidatura, uma lógica de abertura (tenho quatro candidatos do PSD e outros quatro independentes) de que não abdico. E tenho grande orgulho em ser apoiado pelo PSD. Mas quando olho para as listas nacionais de candidatos à Assembleia da República o que vejo é uma coisa paupérrima. Voltou-se a clichés, aos básicos, não há renovação mas reenvelhecimento, longe da ideia mais complexa e profunda do velho PSD que alberga toda a gente porque é o espaço da liberdade. Vivi intensamente a expulsão de Luísa Mesquita, que é minha vereadora, do PCP. É a comunista mais perfeita que eu conheci, um quadro de excepção e, na altura, insurgi-me contra o absurdo de expulsar quadros de grande valor dos partidos. Nestas listas do PSD houve uma produção de 'luísas mesquitas': há toda uma geração de gente que eu esperava que estivesse na primeira linha e que foi mitigada, à conta de um sectarismo que não entendo.
Em Santarém, Ferreira Leite trocou Miguel Relvas por Pacheco Pereira.
Que é um dos melhores intelectuais do país, pelo qual tenho grande consideração e preço, mas não é o espírito e alma deste distrito. Não faz sentido excluir por motivos pessoais. Este não é o PSD que me convidou, com o qual tenho trabalhado. E não posso dizer a esta gente que quer construir comigo uma nova Santarém que aplaudo o que há meses censurava no comportamento do PCP. Não posso ficar imune a esta exclusão sucessiva de grandes quadros, de gente importantíssima para o futuro. Eu já sou avô, já começo a olhar para trás e a perceber que o caminho tem de ser feito por quem vem atrás. Chegou o tempo dos que já deram tanto à política conseguirem ter a generosidade de se entregarem aos mais novos e não.
E Ferreira Leite não teve essa generosidade?
Não teve essa grandeza.
Como vai fazer campanha pelo PSD nas legislativas?
Não vou.
Não vai votar PSD?
Não vou votar em Manuela Ferreira Leite.
Mas é expectável que lhe peçam que ajude na campanha, que Pacheco Pereira lho peça.
Não faço campanhas que magoam a consciência desta Santarém que, em nome do PSD, retirámos do marasmo em que a deixou 30 anos de governação PS. Isso é trair os objectivos primeiros desta candidatura e desta realidade que mudou Santarém por completo.
Como são as suas relações com o Governo?
Ao contrário de outros autarcas, nunca culpei o Governo por nada de mau que aconteceu nesta Câmara e aconteceram algumas coisas ruins. Mas ao fim destes anos e ao cabo de muita paciência e persuasão tenho uma excelente relação de cooperação com este Governo. Santarém não se pode queixar.
Não se identificando com Ferreira Leite e dada a sua boa experiência com José Sócrates, admite votar PS nas legislativas?
Houve neste Governo duas coisas terríveis que não sou capaz de aplaudir: o que se passou na Educação e na Agricultura. Aí, o Governo foi desastradíssimo. Mas Sócrates também foi o homem que percebeu que estamos a viver uma nova era e que deu um impulso decisivo às energias alternativas, à mobilidade eléctrica. Aí estamos na vanguarda.
É um eleitor de Sócrates quem fala?
Não sei, talvez.