Dentro de 3 anos serão consumidos mil barris de petróleo por segundo, o ponto de não retorno foi atingido. O actual "choque Petrolífero" é mais grave do que parece e o preço inflacionado do crude veio para ficar.
Ao contrário do primeiro choque petrolífero que ocorre devido ao embargo dos países Árabes, membros da OPEP, em resultado da guerra Israelo-Árabe do Yom Kirppur em 1973, a actual situação é totalmente distinta.
A leitura do livro "O universo da Indústria Petrolífera - Da Pesquisa à Refinação" de Jorge Salgado Gomes e Fernado Barata Alves, editado pela Fundação Gulbenkian, e eloquentemente apresentado pelo Eng. Mira Amaral no passado dia 18 de Dezembro, é de leitura obrigatória para quem quer entender melhor a nova realidade económica.
Nos anos setenta a origem do choque esteve na redução da oferta, artificialmente diminuída pelos produtores e como tal terminou inevitavelmente... em função da quebra dos acordos e com a entrada de novos produtores.
O então choque teve consequências devastadoras para as economias dos países consumidores, a curto e médio prazo, mas contribuiu para despertar consciências e alertar para a dependência excessiva da nossa economia do "ouro negro".
Infelizmente, não foi suficiente para inverter a espiral de consumo dos países mais industrializados.
Os anos passaram, e o inevitável aconteceu, o Mundo vive actualmente um novo choque Petrolífero, este com impacto extremamente penalizador a longo prazo.
A razão do choque está agora na procura, juntaram-se aos consumidores do costume, (o Japão, os Estados Unidos e a Europa), dois novos "dependentes": a China e a Índia causadores do desequilibro oferta/procura. Com a agravante desta situação ser amplificada pela instabilidade política da maioria dos países produtores e de uma actividade especulativa instalada em toda a cadeia de distribuição.
O actual desequilíbrio não é assim artificial e não pode ser resolvido politicamente.
A redução do consumo não é possível a curto prazo, uma vez que as energias renováveis não são economicamente rentáveis e a sua implantação obriga ao consumo de mais petróleo, uma vez que terão de ser produzidas com recurso à energia "tradicional".
Está assim estabelecido o cenário para os próximos anos. O petróleo passou a ser caro e as empresas não possuem margem de manobra para fazer repercutir os seus custos nos clientes finais, pois competem agora com produtos produzidos na China e na Índia a custos extremamente mais reduzidos.
Os próximos anos serão delicados. Com a redução das margens não existe "latitude" para investimentos. Assim, a criação de novos empregos na Europa é uma miragem.
Sobeja a esperança na criação de produtos de "altíssimo" valor acrescentado, da melhoria da rentabilidade das energias renováveis e a expectativa do avanço das condições sócio-económicas da China e da Índia para corrigir toda esta equação.
Pedro Sousa
Professor Universitário na FCT/UNL
e Director de Inovação da Holos