A holandesa que escondeu a família de Anne Frank, após a guerra dedicou a sua vida à memória da jovem judia e do grande crime de que ela fora um dos milhões de vítimas.
Miep Gies, nascida Hermine Santrouschitz em Viena de um casal católico e adoptada por um casal holandês, também católico, com quem fora viver aos 11 anos quando, depois da guerra de 14, a fome grassava na Europa Central e muitas crianças austríacas eram acolhidas em países menos flagelados - casal que lhe dera alcunha e nome que seriam os seus até ao fim da vida - e morreu no passado dia 11 numa casa de saúde da província de Noord-Holland, onde fora internada depois de uma queda em Dezembro, começara a trabalhar como secretária no escritório da empresa de especiarias de Otto Frank, judeu alemão que, para escapar à ameaça anti-semita de Hitler, viera estabelecer-se em Amesterdão em 1933; fizera amizade com ele, a mulher e as duas filhas adolescentes; depois da invasão alemã dos Países Baixos ter desencadeado perseguição aos judeus pelos nazis e pelas autoridades holandesas (que colaboraram zelosamente na razia: proporcionalmente, durante a Segunda Guerra Mundial, muito mais judeus foram deportados da Holanda do que da França para campos de concentração e câmaras de gás), ajudara, a pedido de Otto, a família Frank e mais quatro amigos judeus a viverem escondidos num sótão da empresa com entrada secreta desde 1942 até que, a 4 de Agosto de 1944, os SS assaltaram a casa e, diante dela, os descobriram e prenderam; recolhera a seguir de uma gaveta um caderno e do chão folhas soltas onde sabia estar o diário que a pequena Anne escrevia e guardou-o para lho entregar quando ela voltasse depois da guerra. Mas Anne não voltou, tendo morrido de tifo em Bergen-Belsen três meses antes de fazer 16 anos e um mês antes de a guerra acabar (quando fora presa com a família, Paris já tinha sido libertada, as tropas aliadas estavam a menos de 500 quilómetros de Amesterdão, a Alemanha ia inexoravelmente perder a guerra). Sem a dedicação abnegada de Miep Gies o mundo não teria conhecido o diário de Anne Frank.
Miep não lera o texto por respeito pela privacidade de Anne e, quando a morte desta foi confirmada, entregou-o a Otto Frank, único sobrevivente da família (a irmã de Anne, Margot, morreu também em Bergen-Belsen; a mãe em Auschwitz), sempre sem o ter lido; Otto só a convenceu a fazê-lo quando o livro ia na segunda edição e estava já traduzido em várias línguas. Uma vez passada essa rebentação inicial de pudor, porém, Miep Gies dedicou a sua vida à memória de Anne Frank e do grande crime de que ela fora um dos milhões de vítimas, prevenindo sempre que tal poderia tornar a passar-se - em conferências e entrevistas citava a Bósnia, o Ruanda, o Camboja. Percebeu melhor aquilo a que lhe fora dado assistir do que muitos dos seus contemporâneos, que preferiram olhar para o outro lado a confrontar a iniquidade do nazismo, e tal reforçou a sua convicção religiosa profunda da obrigação de testemunhar.
Para ela a questão fora simples. A um estudante americano que um dia lhe perguntou se tornaria a esconder os Frank respondeu: "Sem dúvida. Embora haja quem diga, com razão, que eu não poderia ter salvo a vida de Anne, ajudei-a a viver dois anos mais. Durante esses anos, escreveu o seu maravilhoso diário, tocando o coração de milhões de pessoas e dando-lhes inspiração. Como pude salvar o diário, não foi um esforço vão. Aprendemos assim que vale sempre a pena tentar. Se não se tentar o fracasso é garantido. E a minha decisão de ajudar Otto foi tomada porque não vi alternativa. Imaginei as noites de insónia, a vida infeliz que levaria, se recusasse. E não era esse o futuro que queria para mim. Remorso constante por não ter cumprido o meu dever de ser humano, na minha opinião, seria pior do que perder a vida". Só 11.000 judeus holandeses sobreviveram à guerra, lembrava, os outros, cerca de 105.000, tinham sido exterminados. Tal não teria acontecido se o povo holandês tivesse sentido que era seu dever ajudar.
Apesar de dois inquéritos oficiais depois do fim da guerra, não se descobriu até hoje quem denunciou a família Frank.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010