Depois de ter viajado ao ano zero para retratar os últimos dias de Jesus Cristo no filme 'A Paixão de Cristo', depois de ter visitado a extinção das culturas indígenas da América Central na aventura 'Apocalipto', Mel Gibson, o vingador, prepara-se para derramar ainda mais sangue com uma saga sobre os vikings.
'The Viking' ainda é título temporário mas o projecto está, de facto, em andamento. Leonardo di Caprio disse há dias em Nova Iorque que, "por causa da energia visionária que Mel Gibson tem emprestado aos filmes que realizou até agora", se mantém muito interessado em protagonizar a história. O produtor Graham King, que recebeu o Óscar pelo filme 'The Departed', mantem-se à frente dos esforços de financiamento. Graham King é conhecido pelo integralismo e bom gosto dos filmes que financia, e encontra-se também por trás do filme que Martin Scorsese quer fazer já a seguir, 'Silence', sobre o martírio dos jesuítas portugueses no Japão medieval.
Gibson, que se encontra agora a promover o novo filme 'Edge of Darkness' - uma história americana contemporânea sobre mais um caso de atropelamento da inocência em favor de interesses económicos imperiais - disse que a sua atracção pelo passado violento de uma certa Europa setentrional se deve ao facto de nunca ter visto no cinema algo que fizesse justiça ao tema. Com voz vitoriosa rematou que vai, finalmente, "devolver o V aos vikings".
É possível que o diálogo seja estritamente em idioma normando. A 'Paixão de Cristo' foi toda falada em línguas locais já extintas, como o aramaico. O 'Apocalipto' usou apenas os dialectos falados no tempo em que o império Maia subjugava as culturas mais vulneráveis do México actual.
Sobre 'The Viking', Gibson referiu "Já percebi que vou meter medo a muita gente", uma alusão às suas histórias mostradas em carne e osso.
O actor e realizador tem levado uma vida de tal modo extrema que, das aventuras apocalípticas da série Mad Max ao seu apreço pela religião - Gibson é conhecido como católico conservador que acha repelentes as adaptações liberalizantes do Vaticano ao longo dos últimos 40 anos - o trajecto dele em Hollywood passou a ser um dos mais singulares.
Pai de muitos filhos, divorciado e dono da sua própria igreja nas colinas remotas de Malibu, Mel Gibson já foi largamente condecorado pela academia do cinema. Tem sido uma vida de altos e baixos. Encostado pela polícia há uns meses quando conduzia embriagado, levantou a voz, lançou vários insultos, resistiu e acabou encarcerado, não sem antes dizer bem alto que aquela humilhação, tal como quase "todas as guerras do mundo" se devia a mais uma conspiração judaica.
O escândalo fez como que, na altura, os estúdios da Sony Columbia rescindissem o contrato de pós-produção num momento em que ele se encontrava a finalizar a mistura sonora do Apocalipto'.
Os vikings são originários da Escandinávia e, durante a época de ouro que decorreu entre os séculos VIII e XII, conseguiram chegar a locais tão distantes como a península ibérica, Kiev, Bagdade e Terra Nova, fazendo deles os primeiros europeus a abordar aquilo a que mais tarde iria ser baptizado com o nome América. O domínio viking esmoreceu quando o cristianismo de vertente romana, erradicando gradualmente códigos de honra e divindades várias, tomou conta do velho continente. "Claro que, pessoalmente, a minha vontade é apenas a de cortar aos pedaços um convento inteiro", riu-se Gibson com o ar de rapazote que cultiva, brincando, não tanto com a fama dos vândalos do norte mas com a sua reputação rebelde de homem cada vez mais marginalizado e disposto a desposar ideias politicamente incorrectas.
Com a sua famosa sede de sangue, pilhagem sem misericórdia e machados de duas lâminas que partiam em dois tempos qualquer crânio inimigo, só no século XVIII é que as lendas heróicas dos vikings conseguiram ser redimidas pelos estudos arqueológicos.
No século XIX, auxiliada pela música de Wagner - e, mais tarde, pela depuração ideológica advogada pelo nazismo - a mitologia escandinava regressou ao patamar de estima que as civilizações precocemente avançadas têm junto da classe académica. Mel Gibson, esse, está disposto a dar-lhe mais uma ajuda em direcção à eternidade.