Chama-se Desertec Industrial Initiative, foi anunciado ontem em Munique por um consórcio liderado por empresas alemãs e tem a ambição de ser uma alternativa renovável à dependência da Europa do gás natural fornecido pela Rússia.
Para isso pretende satisfazer 15% das necessidades energéticas europeias em 2050 através de uma vasta rede de centrais solares no deserto do Sara.
A rede vai estender-se ao Norte de África e Médio Oriente e o consórcio - a que pertencem empresas como a Siemens, o Deutsche Bank, a RWE e a E.On - espera começar a fornecer electricidade à Europa em 2015.
Está previsto um financiamento inicial da UE da ordem dos mil milhões de euros, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, mas o investimento global no projecto envolve cerca de 267 mil milhões de euros.
A primeira etapa do projecto será a construção de um complexo de grandes centrais no Norte de África com a tecnologia de energia solar de concentração (CSP ou concentrated solar power), que utiliza centenas de espelhos parabólicos para focar os raios solares em contentores de água. O calor transforma a água em vapor, que põe turbinas em movimento a gerar electricidade 24 horas por dia.
O potencial de produção de electricidade do Sara é enorme. Os cientistas dizem que se apenas 3% da superfície deste deserto fosse coberta por centrais de energia solar, seria gerada electricidade suficiente para satisfazer as necessidades de consumo de todo o Mundo!
Segundo o Centro Aeroespacial Alemão, dentro de 40 anos as centrais a instalar no âmbito deste projecto poderiam produzir mais de metade das necessidades em electricidade da Europa, Norte de África e Médio Oriente. Mas está prevista também a construção de parques eólicos.
Tecnologia cara e insegurança de abastecimento?
O projecto conta com o apoio explícito do governo alemão, do presidente francês, Nicholas Sarkozy, e do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
Mas há críticos em relação à iniciativa que argumentam que, com o desenvolvimento tecnológico, será mais barato e mais eficiente gerar energia de forma descentralizada instalando directamente painéis solares nos telhados das casas dos europeus, do que recorrer a sistemas centralizados e distantes dos consumidores.
Com efeito, o transporte de electricidade do deserto do Sara para a Europa implica a construção de uma nova rede de alta tensão que obrigará a investimentos muito avultados da parte do consórcio promotor da Desertec Industrial Initiative. E o preço actual da electricidade solar de origem térmica é uma das barreiras à produção em larga escala, porque é bastante mais cara que a electricidade gerada pelos combustíveis fósseis.
Por outro lado, o problema da segurança do abastecimento de energia à Europa não será resolvido, já que o Desertec e a nova rede de alta tensão vão atravessar países politicamente instáveis e o Velho Continente continuará dependente de países terceiros para as suas necessidades energéticas, tal como hoje acontece com o petróleo e o gás natural (ver edição de Novembro do "Courrier Internacional").