O Mário Soares, que é meu amigo desde que ele andava na primeira classe e eu estava a acabar a tropa, disse um dia, quando era primeiro-ministro em 1976, que estávamos quase a ver a luz ao fundo do túnel. E nós, confiados no Mário Soares e na luz que ele via, fomos atrás dele. Fomos, fomos, fomos e... tudo o que vimos, em vez da luz, foi o Nobre da Costa, que tinha sido acabado de nomear pelo general Eanes, que era então Presidente da República.
O Nobre da Costa ainda tentou dizer que havia uma luz ao fundo do túnel, mas não teve tempo porque foi logo demitido. Para o seu lugar entrou o Mota Pinto e, esse sim, afirmou que a luz estava mesmo ali, ao fundo do túnel. E nós, pronto! Lá fomos atrás dele. Mas não conseguimos ver mais do que Lurdes Pintasilgo, a qual era iluminada e deixou o Governo ao fim de 100 dias. Assim, certinhos. 100 dias.
Chegou, então Sá Carneiro, que começou a trabalhar para chegar ao fundo do túnel, uma vez que a luz já se via. Um infausto acidente tirou-lhe a vida, mas a sua obra foi continuada por Francisco Balsemão, que também vislumbrava a luz ao fundo do túnel. Atrás dele, demos de novo com Mário Soares, que continuava a não ter dúvidas de que estávamos quase, quase...
Mas o túnel ia dar a Cavaco Silva, que durante dez anos seguimos, sempre com o sentido de chegar ao seu fundo e ver a luz, de novo. Tudo o que conseguimos foi ver Guterres (acho que ele tinha um círio - sim um círio com cê e não um sírio, daqueles da Síria, escusam de apontar a gralha e se não sabem o que é um círio vão ao dicionário). O bom Guterres lá caminhou na direcção daquilo que ele, na sua boa vontade, achava que era o fundo do túnel, mas esbarrou com Durão Barroso, que afirmou saber, perfeitamente, onde ficava a saída. Mas, como nunca mais via a luz, nem o fundo, nem o túnel, pisgou-se por um sítio qualquer e deixou-nos pendurados com Santana Lopes, que até gostava mais de estar à escuras. Também não pôde provar nada porque foi posto a andar e nós ficámos atrás de Sócrates, o qual disse que todos os outros antes dele tinham falhado na grande questão de encontrar a saída do túnel, mas que ele, que é um homem determinado, encontraria a saída num instante, assim lhe dessem quatro anos.
Nós demos. E estamos às escuras. Nunca mais vimos o raio da luz ao fundo do túnel. De tal forma, que eu formulei a hipótese que coloquei no título desta singela carta: a hipótese de nem sequer haver fundo, nem túnel, nem luz.
Então é o quê? - Perguntam vocês já desesperados com tanta conversa.
E eu digo com clareza. É um poço. Se for um poço, não há túnel, não há luz e quando chegarmos ao fundo estatelamo-nos numa pedra, afogamo-nos em água fria ou saímos disparados pela Nova Zelândia, que é o país que está nos nossos antípodas.
Por isso, meus caros amigos, não se admirem se a coisa ficar cada vez mais negra. Porque, afinal, vivemos no único país do mundo que, apesar de não encontrar a luz, tem um défice tarifário enorme na electricidade e que apesar de ter projectos para fazer barragens que dariam energia eléctrica mais barata, as pára por causa de uma cegonha atípica ou devido à existência de uma colónia de mexilhões raros. É um país profundo, e nós vamos por aí abaixo...
COMENDADOR MARQUES DE CORREIA