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Mas onde está o raio da luz ao fundo do túnel, ou nem sequer há túnel nem luz?

Onde o nosso Comendador se questiona sobre um mito que dura há mais de 30 anos, tanto quanto ele se lembra, que é o de que se andarmos mais um pouco chegamos lá onde queremos.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 2 de janeiro de 2010

O Mário Soares, que é meu amigo desde que ele andava na primeira classe e eu estava a acabar a tropa, disse um dia, quando era primeiro-ministro em 1976, que estávamos quase a ver a luz ao fundo do túnel. E nós, confiados no Mário Soares e na luz que ele via, fomos atrás dele. Fomos, fomos, fomos e... tudo o que vimos, em vez da luz, foi o Nobre da Costa, que tinha sido acabado de nomear pelo general Eanes, que era então Presidente da República.

O Nobre da Costa ainda tentou dizer que havia uma luz ao fundo do túnel, mas não teve tempo porque foi logo demitido. Para o seu lugar entrou o Mota Pinto e, esse sim, afirmou que a luz estava mesmo ali, ao fundo do túnel. E nós, pronto! Lá fomos atrás dele. Mas não conseguimos ver mais do que Lurdes Pintasilgo, a qual era iluminada e deixou o Governo ao fim de 100 dias. Assim, certinhos. 100 dias.

Chegou, então Sá Carneiro, que começou a trabalhar para chegar ao fundo do túnel, uma vez que a luz já se via. Um infausto acidente tirou-lhe a vida, mas a sua obra foi continuada por Francisco Balsemão, que também vislumbrava a luz ao fundo do túnel. Atrás dele, demos de novo com Mário Soares, que continuava a não ter dúvidas de que estávamos quase, quase...

Mas o túnel ia dar a Cavaco Silva, que durante dez anos seguimos, sempre com o sentido de chegar ao seu fundo e ver a luz, de novo. Tudo o que conseguimos foi ver Guterres (acho que ele tinha um círio - sim um círio com cê e não um sírio, daqueles da Síria, escusam de apontar a gralha e se não sabem o que é um círio vão ao dicionário). O bom Guterres lá caminhou na direcção daquilo que ele, na sua boa vontade, achava que era o fundo do túnel, mas esbarrou com Durão Barroso, que afirmou saber, perfeitamente, onde ficava a saída. Mas, como nunca mais via a luz, nem o fundo, nem o túnel, pisgou-se por um sítio qualquer e deixou-nos pendurados com Santana Lopes, que até gostava mais de estar à escuras. Também não pôde provar nada porque foi posto a andar e nós ficámos atrás de Sócrates, o qual disse que todos os outros antes dele tinham falhado na grande questão de encontrar a saída do túnel, mas que ele, que é um homem determinado, encontraria a saída num instante, assim lhe dessem quatro anos.

Nós demos. E estamos às escuras. Nunca mais vimos o raio da luz ao fundo do túnel. De tal forma, que eu formulei a hipótese que coloquei no título desta singela carta: a hipótese de nem sequer haver fundo, nem túnel, nem luz.

Então é o quê? - Perguntam vocês já desesperados com tanta conversa.

E eu digo com clareza. É um poço. Se for um poço, não há túnel, não há luz e quando chegarmos ao fundo estatelamo-nos numa pedra, afogamo-nos em água fria ou saímos disparados pela Nova Zelândia, que é o país que está nos nossos antípodas.

Por isso, meus caros amigos, não se admirem se a coisa ficar cada vez mais negra. Porque, afinal, vivemos no único país do mundo que, apesar de não encontrar a luz, tem um défice tarifário enorme na electricidade e que apesar de ter projectos para fazer barragens que dariam energia eléctrica mais barata, as pára por causa de uma cegonha atípica ou devido à existência de uma colónia de mexilhões raros. É um país profundo, e nós vamos por aí abaixo...

COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

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É túnel sim. Está é entupido.
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 12:58 | Sábado, 2 de janeiro de 2010
Aqui tem o que é preciso: pá e carrinho de mão. Eu dou-lhe uma ajuda.

Exacto, vá metendo uns por cima dos outros em camada. Ei cuidado com esse braço do Godinho. Pois o problema é que trás uma série deles agarrados. E é gente pesada. Mas a primeira carga já está. Descarregue longe da entrada, de maneira que não a vejam. É que são atraídos.

Estes mesmo assim saíram bem, porque ainda não tinham secado. Não vale a pena seleccionar, podem ir juntos. São gente da Justiça, Parlamento, da Ordem... bem de quase todas e...um autarca? É o problema, está tudo misturado. Sim, como é Major pode colocar ao pé dos militares, ah, eles não o querem? Tenham paciência. O carro já não leva mais. Toca a leva-los para um sítio diferente dos outros. Se ficam todos juntos ainda formam um Partido.

Estes são os mais difíceis, estão cimentados. Sim, claro que tem bastantes autarcas e, cuidado, esse empreiteiros são pesados. Ei, muito cuidado com esse. É que não gosta que se metam com ele. Sim, vão mesmo com os pedaços de alcatrão, não vamos perder tempo a limpar. Cuidado, atenção a essa perna do Mota. Pronto, está cheio. E agora CMC, venha aqui comigo, olhe para o fundo, o que vê? Claro que é luz.

Para o resto do lixo, como é gente que sem apoio cai no chão, basta varrer.

Eu sei, ainda há muitos agarrados, mas como não gostam de luz, acabam por procurar outra zona mais escura.

Não, não me agradeça. Tive o maior prazer.

 
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O clarão
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 11:07 | Sábado, 2 de janeiro de 2010
Só pode ser provocação, não é crível que alguém não tenha visto a luz, ou melhor o clarão que ofuscou tantos e até cegou muitos.
Ainda as luzes da união soviética não estavam apagadas por completo e já a união europeia brilhava como uma árvore de Natal carregada de brinquedos e promessas de amanhãs encantadores. Mosquitos transmissores como o cherne e o picareta falante, bem como outros insectos menores, foram atraídos e continuam a gravitar à volta daquela luz intensa de cuja existência o nosso Comendador duvida.
Mesmo antes do dinheiro começar a jorrar em quantidades nunca vistas nem sonhadas pelos indígenas o clarão já exercia uma atracção muito forte sobre alguns, nomeadamente Mário Soares que sendo dos que nunca acreditou fosse no que fosse teve a lata de dizer que acreditava “piamente” no futuro da “união”. Não se pense contudo que foi o dinheiro que fez de MS um “crente”, o dinheiro deu vários jeitos mas para ele os dois maiores interesses eram outros. Primeiro a dinâmica do “deixemos o passado e vamos mas é pensar no futuro” limpava feridas da descolonização, e o outro era a vantagem de atirar para cima de Bruxelas a “culpa” dos inevitáveis problemas. Se até mesmo o tamanho dos ovos e o peso da maçã fossem impostos por outros, os governantes portugueses poderiam dizer aos escravos: nós também não concordamos com isto, vocês têm razão mas não há nada a fazer, são normas da CEE, só nos resta aguentar, aguentem, digam que têm fé, digam que são felizes.
 
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