Iniciando o último troço da Avenida João XXI (o médico e filósofo português do século XIII Pedro Julião, ou Pedro Hispano, que foi papa durante oito meses e oito dias e pereceu sob pedras, não propriamente lapidado mas vítima de derrocada no palácio papal de Viterbo, morte horrível que não se deseja nem ao mais iníquo dos seus colegas ocupantes do trono pontifício) a partir da Avenida de Roma em direcção ao Campo Pequeno, do lado direito, passa-se pelas embocaduras primeiro da Rua Oliveira Martins e a seguir da Augusto Gil. Pouco depois desta última esquina há uma agência de viagens e um comércio chinês. Logo após, o nº 58-B, nosso destino. Do outro lado da avenida, algumas lojas e, sobretudo, a mole faraónica da Caixa Geral de Depósitos (inaugurada por fases a partir de Setembro de 1993), que vai até ao Arco do Cego.
Entremos então no 58-B, o restaurante Marquês de Baco (nome um bocado estrambótico que mais parece alcunha dum pinteireiro a puxar ao fino). Sala grande (cabem 75 bacantes, perdão, bacanos), sobre o comprido. Ao longo da parte direita, mesas e um balcão de serviço, parede metade de madeira e a outra pintada de bordeaux; do lado esquerdo, revestimento paredeiro em tijolo e depois em madeira e alvura meio por meio; tecto madeirado, chão de tijoleira, decoração simples. Toalhas duplas, todavia guardanapos de papel, copos aceitáveis. Ambiente simpático, embora algo ruidoso (a televisão ajuda).
Aos almoços existem Pratos do Dia. Num deles foram "pataniscas de bacalhau com arroz de feijão e salada" (€8), "feijoada à transmontana" (€7,50), "carne de porco estufada com enchidos e migas da horta" (€8) e "salsichas frescas com couve lombarda e arroz branco" (€7,50). Na Lista Fixa entram 10 Entradas, 10 Pratos de Peixe (linguado, tamboril, polvo, bacalhau e gambas), 5 Especialidades de Peixe (à base de gambas, bacalhau e polvo), 10 Pratos de Carne (lamento não ter provado o "folhado de farinheira e grelos com gratinado de legumes") e 2 Especialidades de Carne (não se testou a "paleta de borrego assada no forno" por não haver em nenhum dos dois dias). Lista bem explicada, com poucas vulgaridades, em figurino culinário português e espanhol.
As "lulas à sevilhana" (€3,70), aquelas argolinhas fritas (fritura não prolongada para não enrijarem), cumpriram alegremente a missão. Os "ovos mexidos com espargos e presunto" (€5), verdes e presigo em pequeninos, positivos, conquanto os ovos ligeiramente aguados. O "polvo à galega" (€6,50), embora não servido em tábua, tinha o necessário (colorau, sal grosso, azeite) e a tenrura ideal.
Das "pataniscas de bacalhau com arroz de feijão e salada", as tais do dia, diga-se delas (4), em forma de rodelas altas, que não lhes faltava bacalhau, bem fritas estavam e melhor ainda se com um pouquinho menos de farinha; arroz apetitoso e, tal como a salada, correctamente servido à parte. A especialidade "bacalhau à Marquês" (€12,50), salteado com grelos gratinados no forno, puré de grão, azeite e vinagre, resultou bastante agradável, os componentes em camadas num cilindro grande. Com os seus pertences e execução normal não estava nada mal a "feijoada à transmontana" do almoço. Prazenteiras e moldadas como se fossem croquetes largos e volumosos, as "burras de porco preto de coentrada" (€9,90), bochechas acompanhadas por batatas chips e esparregado levemente farinhento e com um toque especioso de vinagre. Muito bem conseguida a "sela de borrego caramelizada com mel" (€12,50), este felizmente de presença discreta, assadura conducente ao excelente sabor, para além do esparregado já nomeado, companhia duma diferenciada salada de tomate, maçã e orégãos.
Um septeto de sobremesas para adoçar, sem alvoroço de maior. A carta de vinhos, sem datas e a preços moderados, ostenta 49 tintos, 17 brancos, 3 verdes brancos e 4 espumantes. Serviço eficiente e simpático, desempenhado por gente jovem do país irmão (agora já tem que se lhe chamar potência emergente).
Neste mesmo local existiram antes um restaurante (Pátio) e depois um café (Jamaica). Em Maio de 2007 abriu este actual Marquês de Baco, por iniciativa do cidadão cubano Carlos López e dois sócios portugueses. Carlos está em Portugal há oito anos e durante quatro trabalhou no Mesón Andaluz com Ilídio Duarte de Almeida, onde também conheceu a que viria a ser sua mulher, brasileira, que chefia agora a cozinha marquesal. Formações e experiências profissionais que não admira originarem que o presente já risonho continue a consolidar-se no futuro.
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010