Inferno
Mário Soares
Gosto de ler o dr. Mário Soares: quando tenho alguma dúvida sobre a opinião média da esquerda antiliberal, o dr. Soares é o termómetro perfeito para medir a temperatura da tribo. Agora, na sua prosa semanal para o "DN", o dr. Soares informa-nos que o Presidente Barack Obama "continua a não perder tempo" na construção do mundo fraterno e glorioso que prometeu no seu discurso inaugural. E, a título de exemplo, o dr. Soares cita as nobres intenções do Presidente em controlar os gastos da sua equipa e a forma contumaz como verberou as roubalheiras da alta finança.
Curiosamente, e talvez por esquecimento, o dr. Soares não parece ter reparado nas duas medidas mais importantes da nova administração Obama até ao momento.
A primeira foi a intenção de encerrar Guantánamo (aplausos), mas não a de abolir a tortura por completo (o quê?). Verdade que, na sua deliciosa retórica, Obama deseja limpar a imagem moral da América, proibindo a tortura tout court. Mas, na prática, "técnicas de excepção" no interrogatório a terroristas perigosos (uma forma simpática de tortura a la carte) continuarão a ser autorizadas pelo Presidente. O dr. Soares, pelos vistos, não deu por nada.
Como também não deu pela intenção da nova administração em continuar o rapto secreto e a transferência de prisioneiros para países aliados dos Estados Unidos - as célebres "rendições" que tanto indignaram o dr. Soares no passado.
Percebe-se. Uma coisa era ter Bush a torturar e a raptar por aí. Outra, bem diferente, é ser Obama a fazê-lo com a pinta cool que manifestamente faz as delícias do nosso Mário.
Purgartório
Charles Darwin
Passaram 200 anos sobre o nascimento de Charles Darwin e a imprensa nativa, fazendo eco das festividades internacionais, dedicou algumas páginas ao senhor. Nada mais justo: Darwin alterou radicalmente a nossa visão sobre o Homem. Sobre as suas origens, comportamentos e capacidades. Pena que, no meio das celebrações, algumas perguntas tenham ficado por fazer.
São precisamente essas perguntas em falta que podemos encontrar num dos melhores livros sobre o evolucionismo e os seus limites; um livro que, infelizmente, não vi citado na revisão da bibliografia especializada. Intitula-se "Beyong Evolution" (Oxford University Press), foi escrito por um antigo professor meu (Anthony O'Hear) e pretende defender que alguns aspectos da nossa humanidade não encontram resposta nas teorias evolucionistas, centradas em questões de sobrevivência e reprodução. A nossa busca desinteressada de conhecimento; o nosso amor pela verdade; e até a abertura do humano para o belo e o sublime são comportamentos que parecem desmentir Darwin e, em certos casos, remam directamente contra ele.
Um dos exemplos mais caros a O'Hear é Sócrates (o filósofo), condenado à morte na Antiguidade helénica. O'Hear pergunta: porque motivo Sócrates aceitou as leis da cidade, recusando-se a fugir de Atenas? O'Hear responde: porque a fuga seria desonrosa para o próprio. E são precisamente conceitos tão antidarwinistas como este - conceitos de "honra", "sacrifício", "nobreza de espírito" - que, 200 anos depois, continuam a intrigar os símios.
Paraíso
Expresso
Hoje é dia dos namorados e eu, rapaz romântico, termino aqui uma relação de cinco anos por decisão estritamente pessoal. Falo da minha relação com o Expresso, claro, e não posso deixar de partir com alguma frustração à mistura. Entendam: eu faço parte de uma geração que cresceu com o semanário "O Independente". E fazer parte dessa geração implicava olhar para o Expresso como o "saco de papel" institucional e cinzento, onde a liberdade criativa não abundava. O Expresso era o inimigo: na filosofia e nas vendas. Abominar o Expresso era o dever de qualquer colunista "conservador" que se prezasse.
Pois bem, estes cinco anos de colaboração com o Expresso foram a prova semanal de que estava errado. Com José António Saraiva, primeiro; e com Henrique Monteiro, depois, o Expresso foi, ironia das ironias, um prolongamento natural da doce liberdade, e da doce inconsciência, que eu bebi no "Independente". Sim, era bom bater com a porta, armar barraca, acusar o Expresso de maldades várias. Mas o Expresso é um desmancha-prazeres: nesta casa, escrevi sempre o que quis, como quis, onde quis. E, pior, directores e editores foram permitindo e apoiando, sem pressões, sugestões ou hesitações de qualquer espécie, os meus recorrentes números jornalísticos. Se falhei, falhei por mim. Se acertei, foi por minha conta e risco. É pouco?
Não, leitores. É tudo. A liberdade é a condição básica de que vive qualquer colunista. Hoje, cinco anos depois, saio como entrei: grato e de cabeça limpa.