Recebe-nos na sala do seu apartamento com um sorriso e um café. Um sorriso que acompanhou todas as suas respostas nesta conversa. A partir de Janeiro, quando assumir funções de directora da Cinemateca Nacional, deverá ficar com menos tempo para usufruir deste espaço onde gosta de estar e receber os amigos. É disso que sentirá mais falta, diz. Antes de ligarmos o gravador, Maria João Seixas mostra-se cautelosa, reafirmando não querer alongar-se muito sobre o futuro cargo. "É cedo." Porque continuar a obra deixada pelo amigo João Bénard da Costa é uma missão que requer tempo e cuidado. Ultimamente era a rádio que a ligava ao público, como comentadora do programa da Antena 2 "Um Certo Olhar". Ficaram na memória as entrevistas que fez nos anos 90, para a RTP. Aos 64 anos começa um novo capítulo da sua vida. No cinema.
Porque é que aceitou o convite para ser a nova directora da Cinemateca? Não pude deixar de aceitar. A ministra depositava em mim uma confiança que eu não podia defraudar. E não só. O que é muito importante e curioso, pois nem a ministra sabia, é que há muitos anos o doutor João Bénard da Costa quis saber se eu queria colaborar com ele, numa altura de previsíveis mudanças no quadro dirigente da Cinemateca. Como se sabe, essa reformulação não aconteceu na época. Desta vez, ao aceitar este convite, eu sei que na nuvenzinha onde mora o João, ele haverá de ficar contente com a minha resposta.
Isso era para si importante? Pareceu-me bastante motivador saber que o João Bénard não ficaria desagradado se me visse neste lugar...
Suceder a João Bénard da Costa é um legado pesado... Bastante. Ninguém é insubstituível, mas há os que são mais do que outros. E obviamente que a sua erudição, inteligência e capacidade de comunicar o amor pelo cinema, pintura, música, literatura eram únicos. E, sobretudo, ele tinha um modo raro de convocar os outros a olharem, a ouvirem, a receberem as indicações que ele dava sobre aquilo que escrevia e falava do cinema e das outras artes. O João Bénard da Costa era um príncipe renascentista em todo o seu esplendor. E, de facto, é difícil poder assegurar aquele brilhantismo, aquela qualidade, aqueles cristais. Porém, também é estimulante abraçar o desafio, dar o melhor de mim, para que o trabalho prossiga e se honre todas essas qualidades do João e das pessoas que o precederam na Cinemateca.
É uma grande apreciadora de cinema. O filme "Johnny Guitar", de Nicholas Ray, era o filme da vida de João Bénard da Costa. E qual é o seu filme da vida? O drama musical indiano "Prestígio Real", de 1952, é a obra fundadora do meu amor pela sétima arte. Tinha 9 anos e estava na ilha de Moçambique a passar férias com os meus tios. Ora a ilha era dividida em duas partes. Existia a parte branca, colonial, e a parte negra e indiana. O meu primo e eu estávamos proibidos de ir ver o cinema indiano à parte negra, num recinto ao ar livre, com tecto de zinco e chão de terra. Mas nós contrariávamos as regras. Roubávamos as quinhentas (moedas que valiam cinquenta centavos) dos bolsos da nossa avó e lá íamos de bicicleta para o cinema. Naquela época vi-o várias vezes. Uma das minhas brincadeiras era representar a história do filme com o meu primo. Ele era o príncipe e eu a princesa. Até que fomos descobertos e ficámos de castigo. Desde aí estive muitos anos sem o ver. Revi-o emocionadamente por altura da Expo 98 e, no ano passado, em conversa com o João Bénard, soube que a Cinemateca tinha uma cópia. Fiquei tão entusiasmada que decidi celebrar os meus 63 anos a revê-lo na Cinemateca. No dia da sessão convidei todos os meus amigos, que estavam absolutamente proibidos de fazer troça. Portaram-se muito bem, riram-se nos momentos certos, aplaudiram freneticamente. Além desse, existem outros filmes que me marcaram, e que são até coincidentes com o gosto do João Benard: "A Palavra", do Carl Dreyer; "Os Contos da Lua Vaga", do Kenji Mizoguchi; "Persona", do Bergman; ou "Uma Abelha na Chuva", de Fernando Lopes.
O realizador João Botelho referiu-se recentemente a si como uma pessoa culta, simpática e fora dos lóbis. Revê-se nesse retrato? (risos) É a frase amável de um amigo. Fora dos lóbis estou com certeza. Tento ser amável por educação e por atitude. Tenho muito respeito pela alteridade do outro. E sou muito curiosa em relação às pessoas.
É conhecida e reconhecida há mais de 30 anos pelo grande público desde que assumiu o papel de jurada no programa "A Visita da Cornélia" (1977), da autoria de Raul Solnado e Fialho Gouveia. O que a levou a participar num programa de entretenimento? Foi uma surpresa absoluta. Nunca pensei fazer televisão. Sendo gaga, muito menos. Na verdade, eu fui substituir a Maria João Avillez, que na altura estava à espera de um bebé. Ela não poderia garantir os seis meses do programa e sugeriu o meu nome. Para mim foi um desafio e uma experiência muitíssimo forte. O país estava a viver um momento muito vivo, muito engraçado. As pessoas estavam a celebrar a possibilidade de finalmente poderem exprimir e enunciar os seus desejos. Logo no primeiro programa tivemos a sorte de ter um concorrente com a estatura do jornalista e poeta Fernando Assis Pacheco. O que deu logo uma importante tonalidade e qualidade ao programa.
Mais tarde, nos anos 90, começa a apresentar com regularidade programas de entrevistas para o canal estatal. Começou com o "Quem Fala Assim..." (RTP2, 1994), depois foi o "Sempre aos Domingos" (RTP2, 1995), o "Olhos nos Olhos" (RTP2, 1998) e, por último, a 3ª e 4ª série da "Travessa do Cotovelo" (RTP2, 2000). É sabido que entrevistar é uma das suas paixões. Porquê? Sou muito curiosa, insisto. Fui educada rigidamente a não fazer perguntas aos outros. E isto era uma saída profissional para poder exercer algo que sempre gostei de fazer. Eu gosto de celebrar os outros através dos trilhos das vidas de cada um. Que os fez escrever o que escreveram. Que os fez ensinar o que ensinaram. Dos toureiros aos cientistas.
Há alguma entrevista em especial que a tenha marcado? (pausa) Não. Quer dizer... sim, mas não digo. (risada) No conjunto gostava de todos. Eu tinha uma coisa obsessiva, porque me apaixonava rigorosamente por todas as pessoas que entrevistava. Ficava vários dias ocupada pela pessoa até dar a entrevista como editada. Ouvia repetidamente as suas palavras e até procurava a música certa para cada uma.
E gosta de assumir o papel contrário? O da entrevistada? Não. Apesar de não ter medo de me expor ou depor. Apenas considero que não tenho nada a dizer de tão interessante que mereça o tempo de uma entrevista. Desculpe... (risos)
Foi assessora de António Guterres para os assuntos culturais e mandatária das candidaturas de Sampaio e Soares à Presidência da República. Imagina-se à frente de um importante cargo político? Não. Nunca o exercício do poder político me fascinou. Não me interessa. A política apenas me interessa enquanto cidadã. Sou muito impaciente. E, talvez, pouco obediente.
Algumas vozes apontam-lhe o facto de ter traquejo político como algo vantajoso para estar à frente da Cinemateca. Concorda? É isso. Apesar de tudo tenho algum traquejo político. Eu trabalhei nos gabinetes do major Vítor Alves, numa altura fantástica da história do país. Sou muito respeitadora das instituições e de uma certa atitude institucional. Respeito quem exerce cargos políticos e conheço o lado dos mecanismos institucionais dos gabinetes.
Como vê o estado da crise em Portugal? Como sabemos, a cultura costuma ser das áreas mais abaladas nestas alturas... É muito preocupante o estado da economia. O desemprego galopante. As enormes dificuldades que tanta gente está a passar. E, claro, a cultura é sempre muito injustiçada. Mas a nossa ministra da Cultura tem a promessa de que o Governo, em particular o ministro das Finanças, dará mais atenção a esta área. Porque é o nosso ouro negro. O petróleo português. Num país com tão poucos recursos económicos, com uma língua extraordinária falada por milhões, com uma história e poesia riquíssima, se a gente não aposta na nossa cultura estaremos envolvidos num jogo masoquista. A retirar uma plataforma de visibilidade com reconhecimento internacional.
Nasceu e viveu a infância em Moçambique.
Refere esse facto como uma grande sorte que teve na vida. Ter nascido em África alargou-lhe os horizontes? Sem dúvida. Sendo portuguesa, ter nascido numa colónia é logo à partida uma espécie de implante de mestiçagem. Porque me educaram e ensinaram a história de um país longínquo - Portugal. E, ao mesmo tempo, dialogava diariamente com outra realidade - Moçambique. Uma realidade distinta a nível geográfico, térmico, rácico. Durante muito tempo, achei a metrópole muito exótica. O lado cinzento e triste era exótico para mim. Não correspondia à paisagem que estava habituada a tratar por tu. Esse contraste enriqueceu-me. Deu-me mundo.
Consta que foi educada a achar graça à sua gaguez... Foi um grande abono para a vida que os meus pais me deram. Teria uns três anos e meio quando estava ao colo do meu pai numa ponte com uma linha férrea e, às tantas, o comboio apitou e eu estremeci muito. A partir daí comecei a prender a fala. Desde sempre os meus pais tiveram - sobretudo o meu pai - um talento enorme para me convencer que a minha maneira de falar tinha muito mais graça do que a das outras crianças. Todos sabem como os miúdos podem ser cruéis, mas nunca ninguém fez troça de mim. Nunca! Era impossível, porque eu desatava a rir e devolvia-lhes o riso com tal convicção... É extraordinário. E olhem que eu já fui muito mais gaga. Cheguei inclusive a fazer terapia da fala...
Nunca se sentiu limitada com isso? Não. O que não quer dizer que às vezes não sinta dificuldades. Normalmente, procuro escolher as palavras que digo. Gosto das palavras e do seu sentido. E muitas delas são-me difíceis de dizer. Quando eu estou a falar com alguém e me surge uma determinada ideia que envolve uma palavra mais complicada para mim, procuro logo outra sinónima. O que me deixa irritada. Porque não era essa outra palavra que eu queria dizer, mas a que eu evitei. A gaguez é uma disfasia muito complexa e misteriosa. Ainda se desconhece a dimensão das suas origens.
Viveu mais de 30 anos uma história de amor com o realizador Fernando Lopes. Entretanto, divorciaram-se. Como é recomeçar a vida aos 60? É... difícil. E mais não digo (risos) E esta é uma história longa, muito bonita e muito intensa. E pronto.
Como vê o passar dos anos? Com grande naturalidade. Cuido do meu corpo o mais que posso. A única coisa que não faço é deixar de fumar. Pratico regularmente exercício físico. Até há pouco tempo pratiquei esgrima e ténis. Nado sempre que posso. Faço massagens. Já não é mau...
O envelhecimento é mais ingrato para a mulher do que para o homem? Talvez. O envelhecimento nunca me assustou. Eu, por exemplo, gosto de rugas. Gosto delas desde sempre. São trilhos que aprecio em mim e nos outros. Mas desagrada-me bastante a flacidez. E acho que nos cabe a nós exigir mais do espelho.
Continua a ser uma mulher elegante. Exige muito do seu espelho? A minha mãe era muito, muito, muito bonita. Até morrer. E o meu pai era parecido com o Hitchcock. E eu, até muito tarde, era igual ao meu pai. Era gorda, tinha acne, o rosto bolachudo. Recordo-me bem do olhar oblíquo que os amigos dos meus pais não resistiam a fazer. Olhavam para a minha mãe, depois olhavam para mim e deviam pensar "que pena não ter saído à mãe" ...o que me deixava muito danada. Acabei por emagrecer. Até deixei de ter as mãos sapudas, talvez porque passei a imitar os exercícios que a minha mãe fazia (gesticula como uma bailarina). Depois comecei a apreciar o sorriso belíssimo da minha mãe. E pensei: 'talvez eu possa ensaiar esse sorriso'. Olhe: tanto ensaiei que comecei a sorrir como ela. Por isso digo que devemos exigir do espelho. Mas cuido da minha imagem para mim. Não para os outros. Sou capaz de me arranjar melhor e não sair de casa.
Ainda sobre África, um dia referiu que o animal que mais a impressionou foi o elefante. Pela sua maneira de viver em grupo, de se sociabilizar... E também porque nos dá uma grande lição de morte. A dignidade da morte é uma coisa que nos escapa. Os elefantes quando sentem que vão morrer escolhem um parceiro e afastam-se do grupo com ele. Podem andar os dois vários quilómetros em silêncio. A um dado momento o elefante que sabe que vai morrer encontra o seu cemitério, um círculo imaginário na terra queimada na savana, e estaca no perímetro. Trombeteia para o outro que lhe responde e vai-se embora. O elefante doente senta-se e espera a morte. Sozinho. É muito bonito. Impressionante.
A morte não a assusta? A morte não me agrada, mas não me assusta. Eu gosto de viver (risos). Acho que vou ter saudades de mim. E dos outros com certeza. O bichinho da imortalidade acompanha-nos...
Como gostaria de ser recordada? Maria João Seixas. Uma mulher que gostou de gostar dos outros.
(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009)